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Agricultura responde por 25% da venda de drones

No Brasil, produtores aplicam cada vez mais a tecnologia para reduzir custos de monitoramento de lavouras e elevar produtividade

Clarice Couto, O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2016 | 05h00

Produtores agropecuários são conhecidos pelo conservadorismo na hora de gerir os negócios, mas os ganhos de produtividade e a economia proporcionada pelos drones nas lavouras têm levado o setor a empregar mais a tecnologia. A agropecuária já é responsável por 25% do faturamento global da indústria dos veículos aéreos não tripulados, ou vants, estimado em US$ 127 bilhões, segundo o diretor da MundoGeo – empresa promotora da principal feira de drones do País, a DroneShow –, Emerson Zanon, com base em dados da consultoria PwC.

Em um país com forte vocação agrícola como o Brasil, uma das principais fabricantes do equipamento, a XMobots, tem 80% de sua receita proveniente de vendas para o mercado agropecuário. “O setor de drones poderia estar deslanchando mais, não fosse a crise. Este ano vamos crescer menos ante anos anteriores, mas a receita com todos os setores deve aumentar de 55% a 60%”, disse a diretora comercial da empresa, Thatiana Miloso, ao Broadcast Agro, sistema de notícias do agronegócio da Agência Estado. Desde 2012, a XMobots vinha dobrando a receita. Em 2016, o faturamento deve alcançar R$ 9 milhões.

O interesse crescente de produtores rurais pela tecnologia se explica pela influência positiva em dois fatores essenciais para a atividade: produtividade e custo.

O produtor Diogo de Toledo Lara Neto usa drones há quase três anos em sua propriedade de 10 mil hectares em Juscimeira, região de Rondonópolis (MT). Ele contrata os serviços de uma empresa que coordena o sobrevoo dos equipamentos sobre 4 mil hectares de soja, milho e algodão, em dois períodos da safra: no começo e no fim do plantio. O equipamento capta imagens que permitem conferir in loco quais áreas têm doenças ou pragas. “Antes, quando detectávamos o problema, já era tarde, pois para percorrer mil hectares um funcionário demorava dois dias. Já o drone mapeia essa mesma área em duas horas”, disse Lara Neto.

O produtor diz que, desde que começou a usar drones, o custo com fertilizantes, correção de solo e defensivos caiu 6%. Já a produtividade em alguns talhões aumentou 16% e pode chegar a 20%. “Monitorar uma lavoura de 4 mil hectares não é brincadeira. Se eu considerar uma safra nessa área e o investimento no serviço com drones, a economia paga o que eu gasto e ainda sobra dinheiro.” Ele gasta com o serviço em torno de R$ 80 por hectare.

Pequenos e médios. A Geosan, que presta serviços como o usado por Lara Neto, notou em 2016 o crescente interesse de grandes produtores e também de pequenos e médios, especialmente de cooperativas de café e citros. Thatiana, da XMobots, diz que em 2015 não fechou nenhum negócio com esses setores. Neste, foram três contratos. Já grandes grupos produtores do Centro-Oeste, detentores de propriedades com lavouras de milhares de hectares, começam a investir em uma frota própria de vants. “Recentemente, um cliente fez um orçamento para dez aeronaves”, contou o diretor da Geosan, Nilton Carneiro Santiago.

A XMobots trabalha em um modelo de drone helicóptero, no formato da aeronave, mas bem menor, dotado de uma bateria com maior autonomia de voo e que permite carregar um reservatório de defensivo para aplicação do produto em áreas identificadas com falhas e pragas. Lavouras de café em áreas montanhosas, onde a aplicação de defensivos ainda é feita por funcionários, é um dos segmentos que poderão se beneficiar da novidade. A previsão é a de que o produto seja apresentado ao mercado no começo do ano que vem.

Imagens automáticas. Já a Embrapa trabalha em parceria com a Qualcomm, fabricante de processadores para smartphones, no desenvolvimento de uma placa que será embarcada no próprio drone para processar automaticamente as imagens capturadas pela aeronave. Os modelos de drones atuais apenas captam as imagens, que precisam ser transferidas para softwares pesados e computadores mais robustos, o que onera a tecnologia para pequenos e médios produtores. O primeiro protótipo do produto deve ficar pronto entre março e abril de 2017. O setor agrícola aguarda, da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), novas regras para uso comercial de drones. “Quando isso acontecer, acreditamos que a demanda vai explodir”, disse o pesquisador da Embrapa Instrumentação, Lúcio André de Castro Jorge.

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