Clayton de Souza/Estadão - 3/4/2014
Plantação experimental de milho em São Carlos, no interior de São Paulo. Clayton de Souza/Estadão - 3/4/2014

Agronegócio quer Embrapa mais moderna e sintonizada com o setor privado

Principal instituição pública de pesquisa do País tem gasto de 80% do orçamento com pessoal; representantes do agronegócio cobram mudança na estrutura e no foco das pesquisas

Clarice Couto, Fabrício de Castro, Gustavo Porto, Leticia Pakulski e Tânia Rabello, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2019 | 13h12

Com presidente interino desde meados de julho, a Embrapa, principal instituição pública de pesquisa do País, vive um dilema: como se reinventar, de modo a voltar a responder às demandas do setor do agronegócio na velocidade exigida. Desde que a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, exonerou o pesquisador Sebastião Barbosa da presidência da estatal, quem ocupa o cargo é o também pesquisador Celso Moretti, na instituição desde 1994.

Não há data prevista para a escolha do novo titular. Vários representantes do agronegócio ouvidos pelo Broadcast Agro reforçaram a necessidade de que, independentemente do nome, é preciso modernizar a estatal, reavaliar a relevância de cada uma das 43 unidades de pesquisa do País, mudar a estruturação de projetos, rever o foco das pesquisas e, o mais importante, estreitar a relação com o setor privado.

O ex-ministro da Agricultura e coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV), Roberto Rodrigues, espera uma "ressurreição" da Embrapa. "A realidade da agricultura de hoje é diferente da de quando ela foi criada, há 40 anos", diz. Ele lembra que há muitas empresas privadas, multinacionais entre elas, fazendo pesquisa agropecuária e gerando variedades novas.

"Tem de olhar a realidade da área de ciência e tecnologia no Brasil atual e montar ou recriar uma Embrapa voltada para esse modelo, considerando tudo, agtechs, iniciativa privada, universidades, órgãos públicos estaduais, e montando uma ação articulada, integrada, todo mundo trabalhando na mesma direção. Não pode ter dispersão de recursos", defende.

Presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), o deputado federal Alceu Moreira (MDB-RS) diz esperar uma instituição "aberta para o Brasil e o mundo, sem preconceitos". Segundo ele, grande parte da pesquisa desenvolvida pela empresa não chega à ponta final - a do produtor rural - porque existem problemas de "conectividade". "Conhecendo o tamanho da Embrapa e a qualidade de seus pesquisadores, ela pode muito mais."

Ex-presidente da instituição, Sebastião Barbosa reconhece a necessidade de mudanças e afirma que vinha trabalhando para isso. A geografia da agricultura brasileira se transformou e algumas unidades precisariam, de fato, passar por ajustes ou trocar de lugar, afirmou.

Como exemplo, citou a Embrapa Algodão, que fica na Paraíba, e não no cerrado do Centro-Oeste e do Matopiba, onde estão os maiores produtores. No caso do arroz, 70% da produção brasileira se encontra no Rio Grande do Sul, de arroz irrigado, mas a unidade da instituição dedicada à cultura é a Embrapa Arroz e Feijão, em Goiás.

Uma outra liderança do setor, que não quis ser identificada, apontou a estrutura "inchada e burocratizada" como um ponto a atacar, com vários centros de pesquisa abertos "questões políticas" e não científicas. "Se determinado governador pedia para abrir uma Embrapa em seu Estado, era prontamente atendido, sem que necessariamente fosse necessário ter uma unidade ali", afirmou.

Atualmente, a Embrapa conta com 43 centros de pesquisa. "Há cadeias produtivas que não aproveitam pesquisa da Embrapa, como a de papel e celulose. Então, qual a razão de uma Embrapa Florestas (situada em Colombo, no Paraná)?", indaga.

Decisões centralizadas

Outro gargalo, conforme a liderança, é a centralização de decisões na Embrapa em Brasília. "Muitas pesquisas dos vários centros são barradas lá", diz. No atual governo, acrescenta, a "orientação" para a Embrapa é "reduzir custos". "O (ministro da Economia Paulo) Guedes está pressionando a Embrapa a 'fazer dinheiro' e a instituição já tem uma lista de imóveis para serem vendidos."

Segundo Barbosa, o gasto de 80% do orçamento com pessoal precisa ser revisto. "Ao longo do tempo, houve uma generosidade muito grande em termos de promoções, em termos de premiação, então grande parte dos recursos da Embrapa foi usada com seu pessoal", disse.

A Embrapa implantou um programa de desligamento incentivado (PDI), que devem ter a adesão de cerca de 1.500 pessoas. Ele enfatizou, entretanto, que a Embrapa tem cientistas "muito capacitados" para inovação e que a instituição "precisa de ajustes, mas continua sendo muito respeitada em qualquer lugar".

Questionado se não haveria uma resistência do governo sobre novos concursos, ele negou. "Há um compromisso do governo de repor 75% das pessoas. A Embrapa deve ter, sim, concurso para renovação de quadros em decorrência desse PDI." As primeiras pessoas começariam a sair ainda este mês, segundo Barbosa.

Na opinião do vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Pedro Camargo Neto, "está na mão" dos pesquisadores da Embrapa iniciar sua própria revitalização. "Os mais de 2 mil pesquisadores doutores precisam reagir contra a atual orientação, ou melhor, à falta dela, e produzir mais e melhores resultados práticos para o produtor, pois a Embrapa caminha para a mediocridade", diz. "A sociedade, o contribuinte de impostos, que tem financiado as dezenas de centros de pesquisa, cansou."

Alceu Moreira, da FPA, defende maior interação com multinacionais, outros institutos de pesquisa e produtores rurais. "A Embrapa está muito voltada para dentro", disse. "Achamos que é possível tirar mais dela." Moreira afirmou que a FPA espera que a estatal "tenha uma transição de maneira republicana". "Antes de pensar em pessoas, queremos saber do projeto da Embrapa, para que a empresa use o ativo de pesquisa que já tem, com uma dinâmica maior."

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Embrapa reduziu parcerias com instituições privadas e públicas

Número de instituições parceiras caiu de 445 no ano passado para 368; resultados das ações nem sempre retornam para a estatal, que tem de repassar receita para o Tesouro

Clarice Couto, Fabrício de Castro, Gustavo Porto, Leticia Pakulski e Tânia Rabello, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2019 | 13h30

A Embrapa há anos faz parcerias com empresas privadas, institutos de pesquisa e universidades, mas o resultado dessas ações nem sempre retorna à estatal. Neste ano, o número de instituições parceiras alcança 368, menos do que as 445 de 2018, mas não muito diferente das 354 de 2010.

O valor anual máximo já aportado por parceiros foi de R$ 82,6 milhões, em 2017 - no ano passado somou R$ 68,8 milhões. Contudo, uma receita adicional, que poderia retornar ao caixa da estatal, segue direto para o Tesouro Nacional: aquela obtida pelo licenciamento de cultivares desenvolvidas pela Embrapa, a maioria com a iniciativa privada - os conhecidos royalties.

No ano passado, foram R$ 11,9 milhões, segundo a Secretaria de Negócios da Embrapa. Segundo o presidente interino da instituição, Celso Moretti, com o novo marco legal de ciência e tecnologia, que tem possibilitado mudanças no ambiente de inovação no Brasil, a empresa trabalha "para ser mais ágil para captar mais recursos".

O orçamento anual gasto pela Embrapa vem aumentando desde 2010, ainda que tenha sido levemente cortado em 2019. A crítica do setor agropecuário, porém, está no fato de que cerca de 80% vão para a folha de pagamento. Há nove anos, o montante total executado somou R$ 1,906 bilhão. Em 2018, chegou a R$ 3,738 bilhões e, para 2019, estão programados R$ 3,335 bilhões.

Em todos os anos, porém, houve contingenciamento, cuja parcela não chegava a 10% do total, conforme a Embrapa. O maior foi em 2015, R$ 190,2 milhões, ou 7% de um total de R$ 2,863 bilhões. Em 2019, estão contingenciados R$ 144,1 milhões.

Contudo, como salários e encargos não entram na retenção orçamentária, é possível dizer que, do volume de recursos disponíveis para operações, 40% estão contingenciados. "Nós compreendemos que é um momento difícil que o País passa", disse Moretti. "Estamos trabalhando com os gestores das unidades para que esse contingenciamento não afete a operação da Embrapa, mas ainda temos cinco meses pela frente. Acreditamos que o contingenciamento deva ser revertido até o fim do ano para que possamos fazer frente às demandas que temos para pesquisa e aos gastos operacionais."

Mesmo com recursos crescentes, o número de projetos executados diminuiu. Eram 1.331 em 2014 e ainda passavam de mil em 2017, mas em 2018 recuaram para 936 e para este ano estão programados 876 projetos. A queda, conforme Moretti, se explica por ajustes feitos para diminuir a quantidade de projetos pontuais, reduzir a pulverização das ações de pesquisa, desenvolvimento e inovação e trabalhar em iniciativas maiores e estratégicas, executadas por redes de pesquisa (Embrapa e parceiros do setor público e privado).

Tal medida já estaria relacionada à busca por maior eficiência, avalia uma fonte do setor. "O mesmo esforço, contudo, ainda não foi feito em relação às unidades da empresa. Algumas precisam ser eliminadas ou realocadas, e não ter feito isso até hoje tem um custo", comenta.

A restrição orçamentária na instituição é mais um motivo para ela se articular com o setor privado, na opinião do ex-ministro da Agricultura e coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV), Roberto Rodrigues. "Temos de criar mecanismos que permitam à Embrapa e a outros órgãos públicos de pesquisa receberem recursos privados com encomendas adequadas e específicas que permitam essa integração."

Para ele, a Embrapa continua na vanguarda em alguns setores, como a área de nanotecnologia, na unidade de São Carlos, e a área de controle territorial, na unidade de Campinas, ambas sediadas em São Paulo. "Mas em outros, como a produção de sementes selecionadas, variedades adequadas, existem empresas privadas produzindo tantas novas variedades como a própria Embrapa."

Uma fonte de entidade do setor concorda que a relevância da pesquisa da Embrapa em culturas comerciais, como soja, diminuiu porque as empresas privadas assumiram a dianteira, mas pondera que em outras áreas o papel da estatal continua sendo único. "O zoneamento de risco climático, por exemplo. A Embrapa tem uma capilaridade de coleta de dados com suas 43 unidades que nenhuma empresa tem", diz. "Culturas hoje não tão pujantes economicamente, como palma-forrageira, poderiam ser impulsionadas por pesquisas da estatal, da mesma forma como ocorreu com soja, milho e algodão no passado."

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Lista de 'candidatos' à presidência da Embrapa cresce, mas ministra diz não ter pressa na escolha

Tereza Cristina deu maior destaque à necessidade de apresentar 'um novo projeto' para a instituição pública de pesquisa do que propriamente definir quem substituirá Sebastião Barbosa

Clarice Couto, Fabrício de Castro, Gustavo Porto, Leticia Pakulski e Tânia Rabello, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2019 | 12h52

O setor agropecuário aguarda com expectativa o anúncio do novo presidente da Embrapa mas, aparentemente, o Ministério da Agricultura não tem tanta pressa em apresentar um nome. Em evento em São Paulo, realizado em 5 de agosto, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, deu maior destaque à necessidade de apresentar "um novo projeto" para a principal instituição pública de pesquisa do País do que propriamente definir quem substituirá Sebastião Barbosa, ex-presidente da Embrapa que foi exonerado em 17 de julho e havia sido indicado pelo ex-ministro Blairo Maggi em outubro, de 2018, ou seja, a menos de três meses do fim do governo de Michel Temer.

"Queremos ter um projeto de modernização e fortalecimento da Embrapa. O importante é que ela inteira esteja dentro desse projeto para que, aí sim, tenhamos um nome para presidente [da instituição]", disse a ministra no Congresso Brasileiro do Agronegócio, promovido pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e pela B3. "O processo está sendo muito bem conduzido e discutido dentro da própria Embrapa", reforçou, acrescentando que a instituição é a "joia da coroa" do ministério e que, por isso, está "com toda cautela e fazendo várias discussões internamente".

Quem ocupa o cargo interinamente é o engenheiro agrônomo e diretor executivo de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, Celso Moretti, fortemente cotado no setor para assumir o cargo de forma definitiva, de acordo com fontes ouvidas pelo Broadcast Agro. No mesmo congresso da Abag, Tereza Cristina elogiou Moretti durante entrevista coletiva, na qual ele também estava presente. Para ela, o interino "está levando muito bem" a Embrapa.

Outro nome presente nas rodas agropecuárias é o de Francisco "Xico" Graziano, ex-chefe de gabinete no primeiro mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e ex-secretário de Agricultura e do Meio Ambiente de São Paulo, conforme apurou o Broadcast Agro. Mas o nome da vez para comandar a "joia da coroa" é o do diretor executivo da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (Anipc), Eduardo Brito Bastos. Ex-diretor de Relações Institucionais da Dow Chemical Company e ex-presidente do Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS), Bastos tem o perfil técnico e de mercado buscado pela ministra. É conciliador e tem trânsito em todos os setores do agronegócio. Moretti e Bastos estão em vantagem, têm suporte para o tão desejado cargo e teriam pouca rejeição para ocupá-lo.

A reportagem apurou também que a ministra iniciou há mais de um mês consultas com lideranças do agronegócio para ouvir sugestões de nomes. Além disso, não se sabe a extensão da influência do chefe da Embrapa Territorial, Evaristo Eduardo de Miranda, no processo de escolha do nome do próximo presidente da estatal. Fontes do agronegócio comentam sobre a grande proximidade do pesquisador com o presidente Jair Bolsonaro, mas acham pouco provável que haja interesse de Miranda em assumir a presidência da Embrapa. Não descartam, entretanto, que ele venha a influenciar a decisão de alguma maneira.

Entre os nomes aventados estão alguns que participaram do processo de seleção junto com Barbosa, no ano passado, como o ex-ministro da Agricultura Luís Carlos Guedes Pinto - descartado por Tereza Cristina por ter integrado governos petistas. "Eu soube que ela já conversou com uma meia dúzia de possíveis nomes, mas não se convenceu por nenhum. E o Moretti já está lá", comentou uma liderança do agronegócio.

Entre outros sugeridos estão o professor sênior de agronegócio Global do Insper e ex-presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Marcos Jank, que também teria sido descartado pela ministra, como adiantou a coluna de Gustavo Porto.

Outro nome que circulou em Brasília é o do secretário de Aquicultura e Pesca do Ministério da Agricultura, Jorge Seif Júnior. Além de ser próximo a Tereza Cristina, ele foi indicado para o cargo de secretário pelo próprio presidente da República, Jair Bolsonaro, amigo da família. Nesta segunda-feira (5), Seif "pediu perdão", em vídeo, pelas multas de R$ 70 mil aplicadas pelo Ibama à empresa de sua família após um flagrante de pesca ilegal de sardinha em Angra dos Reis, no Rio.

Fonte da própria Embrapa, que pediu anonimato, confirmou que a ministra está primeiro definindo o rumo que pretende dar à instituição para então se concentrar nos nomes. "Como ela vai escolher uma pessoa para uma tarefa que você não definiu ainda?", disse. "Dependendo do rumo, você pode dizer: tenho cinco pessoas ótimas, qual é a melhor? A melhor é a que, quando a ministra for apresentar o rumo para essas cinco, apresente a melhor maneira sobre como fazer."

Também há comentários de que teria havido "pressão de São Paulo" pela destituição de Sebastião Barbosa, mas duas fontes do próprio Estado minimizaram a suspeita. "Sebastião Barbosa era um homem de confiança do (ex-ministro da Agricultura) Blairo Maggi, ou seja, da gestão anterior", disse um representante do setor. "E Maggi nomeou Barbosa apenas alguns meses antes de sair", continuou. "Seria natural que a ministra (Tereza Cristina, que o substituiu) trocasse a presidência da instituição."

O próprio Barbosa admitiu, ao Broadcast Agro, não ter sido a escolha preferida de Tereza Cristina, com quem divergiu em uma série de questões. Segundo ele, a ministra sempre foi respeitosa, mas demonstrou "não conhecer a Embrapa". "Ela sempre fazia críticas, que a Embrapa custa muito caro, que não faz nada, que as pessoas não trabalham, o que não é verdade", afirmou. O ex-presidente relatou ainda interferência na escolha de chefes de unidade. "Começou a haver interferência de políticos, pedindo para tirar chefe de tal unidade, colocar chefe em outra unidade, e eu não podia aceitar isso. A Embrapa sempre teve um sistema de escolha de gestores das suas unidades que segue uma norma muito bem estabelecida, baseada em meritocracia."

Fonte de dentro da Embrapa acrescentou que Maggi criou uma "saia justa" com a nomeação de Barbosa já no fim do governo do ex-presidente Michel Temer. "Maggi poderia ter mantido o presidente da Embrapa (na época, Mauricio Lopes, que havia sido escolhido por Dilma Rousseff) até o fim do governo Temer, porque o natural seria este governo (de Bolsonaro) escolher", disse. Segundo a fonte, o ex-ministro poderia ter nomeado um interino, mas preferiu fazer o processo de seleção que culminou na escolha de Barbosa. "Aí ficou uma coisa capenga, porque nomear no fim de mandato um presidente para o próximo governo, fosse qual fosse, é uma coisa muito desconfortável", continuou a fonte.

Presidente do conselho da Embrapa em 2018, à época da escolha de Sebastião Barbosa, o ex-secretário executivo do Ministério da Agricultura Eumar Novacki evitou críticas ao processo de demissão do presidente da estatal pela ministra Tereza Cristina. "Este é um direito da atual gestão. Não acompanhei as discussões ou razões que levaram à troca", esquivou-se Novacki. "Faz parte da rotina de uma nova gestão", emendou.

Ao Broadcast Agro, a ministra reafirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que é preciso "mudar o modelo da Embrapa" e que pretende dar um "novo olhar" para a empresa. Citando a nomeação de Barbosa dois meses antes do fim do governo Temer, disse que o ministério concluiu que precisava fazer a mudança neste momento. Tereza Cristina afirmou que tem respeito por Barbosa mas queria dar outra orientação à empresa. Ela negou que a Embrapa possa ser privatizada e rejeitou rumores de que um general poderia ser indicado para presidi-la.

Ela afirma também que já vinha conversando com a diretoria da empresa sobre a necessidade de mudanças. Isso passa, conforme Tereza Cristina, por uma empresa com mais agilidade e recursos para pesquisas. A ministra afirmou que a empresa tem hoje um orçamento grande, mas 80% vão para o pagamento da folha de funcionários. "O que a gente quer é dar agilidade à Embrapa, enxugar algumas coisas, mexer na área administrativa", disse. "A pesquisa funciona maravilhosamente bem, nós queremos atuar é na gestão da empresa."

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Presidente interino, Celso Moretti trabalha na reorganização da Embrapa e ouve demandas do agro

Desde o ano passado, a empresa reavalia a estrutura das suas 43 unidades de pesquisa para, segundo Celso Moretti, dar mais foco às unidades descentralizadas e atacar os principais problemas do agro brasileiro

Leticia Pakulski, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2019 | 13h07

O presidente interino da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Celso Moretti, rebate as críticas feitas em relação à possível falta de sintonia da empresa com o setor privado. Em entrevista ao Broadcast Agro, diz estar ouvindo as demandas do setor produtivo e repensando a gestão para atendê-las. Desde o ano passado, a empresa reavalia a estrutura das suas 43 unidades de pesquisa.

"Temos trabalhado de forma muito intensa nessa reorganização, buscando dar mais foco às nossas unidades descentralizadas e atacar os principais problemas do agro brasileiro", afirmou. Moretti ponderou que metade da área ocupada com agricultura, pecuária e sistemas florestais hoje no Brasil tem tecnologias desenvolvidas pela Embrapa. "A nossa inserção no agro é muito relevante e significativa."

Sobre a limitação de recursos para pesquisa, conta que pretende discutir com a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, a ideia de formar fundos privados, como nos Estados Unidos, onde produtores reservam parte dos recursos obtidos na comercialização da safra para alimentar fontes de financiamento. "Também iniciamos nos últimos meses uma negociação com um fundo privado que pretende fazer uma doação para a Embrapa da ordem de R$ 220 milhões", afirma.

Quanto à possibilidade de ser efetivado no cargo, lembra estar qualificado para a função. "Se assim a ministra assim o entender, eu seguirei com muita honra nessa posição." Leia a entrevista a seguir.

O senhor foi nomeado em julho como interino. Como está a transição na Embrapa?

Temos dado continuidade aos processos em curso, atenção às diferentes cadeias produtivas do agro brasileiro e, obviamente, cuidando dos nossos recursos humanos, para que as pessoas tenham tranquilidade para continuar tocando a agenda diária de trabalho.

O agronegócio cobra modernização e maior cooperação com o setor privado. É possível atender a essa demanda?

Todas as corporações, públicas ou privadas, precisam se modernizar, estar conectadas com as tendências atuais e de olho no futuro e a Embrapa vem fazendo isso há um bom tempo. Trabalho lançado e publicado no ano passado coloca a visão da empresa para a agricultura em 2030. Em relação ao setor privado, temos trabalhado com todas as grandes empresas da área de defensivos e fertilizantes, associações de produtores, os grandes frigoríficos. Do ponto de vista da modernização, iniciamos no ano passado uma revisão do modelo de operação a partir da sede da empresa. Nós tínhamos 15 unidades centrais e passamos a ter cinco. Trabalhávamos dentro de caixinhas e passamos a trabalhar pensando em processos. É uma visão moderna de gestão. Tudo isso para estar mais próximo e ser mais célere no atendimento às demandas do agro brasileiro. No ano passado, demos início em revisitar a estrutura das nossas unidades descentralizadas. Temos hoje 43 em todo o território brasileiro. A gente tem trabalhado de forma muito intensa nessa reorganização, buscando dar mais foco às nossas unidades descentralizadas e atacar os principais problemas do agro brasileiro.

Qual o alcance atual das pesquisas da Embrapa no País?

Publicamos neste ano um estudo que mostra que metade da área com agricultura, pecuária e setor florestal do Brasil, ou seja, 130 milhões de hectares, tem tecnologia da Embrapa. Vamos pegar a cadeia produtiva da soja: 35 milhões de hectares de soja têm fixação biológica de nitrogênio, uma tecnologia que a Embrapa desenvolveu e ofereceu para a agricultura brasileira. Trinta e cinco milhões de hectares de soja têm zoneamento agrícola de risco climático, um trabalho que a Embrapa faz há mais de 25 anos. E 35 milhões de hectares de soja têm recomendações de correção de fertilidade e adubação desenvolvidos pela Embrapa e seus parceiros. O Brasil tem aproximadamente 20% do seu território com pastagens. Estamos falando de 160 milhões de hectares. Cinco variedades de pastagens desenvolvidas pela Embrapa hoje ocupam 40 milhões de hectares, ou seja, um quarto de toda a área produzida com pasto. A nossa inserção no agro é muito relevante e significativa. Nós precisamos, obviamente, comunicar mais e melhor.

O senhor vê a possibilidade de uma Embrapa mais enxuta, com redução na quantidade de unidades?

Essa é uma questão que precisa ser debatida com calma. Temos capilaridade muito grande. O tempo todo somos chamados a abrir novas unidades e a gente, obviamente, tem refutado essa ideia. Mas, sob a orientação do Ministério da Agricultura, com participação do setor produtivo, poderemos enxugar estruturas, fundir se for necessário.

Uma das críticas do setor é a de que a Embrapa não olha para as necessidades do produtor e que as decisões estão centralizadas em Brasília. Como o senhor avalia isso?

Eventualmente, em algumas cadeias isso pode ter acontecido. Dentro do planejamento estratégico, mandamos um questionário a representantes do setor privado e recebemos em pouco menos de uma semana mais de mil respostas sobre demandas e ações que temos que conduzir. Em três semanas, já me reuni duas vezes com o colegiado de gestores, os cinco chefes de unidade que representam os 43. A nossa filosofia é de cada vez mais descentralizar a ação da Embrapa, ter uma aproximação maior com o setor privado e com o setor produtivo, para que a gente possa aumentar a nossa participação nas soluções e, quem sabe, chegar a 100% da área agrícola e pecuária do Brasil com tecnologia da Embrapa e de seus parceiros.

Com a maior parte do orçamento da Embrapa consumido pela folha de pagamento de pessoal, o investimento em tecnologia não fica restrito?

Hoje, em torno de 80% do orçamento está comprometido com salários e encargos. É importante colocar que, no mundo todo, essa relação varia de 70% até 85% (orçamento comprometido com salários e encargos), como no ARS (Agricultural Research Service ou Serviço de Pesquisa Agrícola do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), a Embrapa dos EUA e no Cirad (Centre de coopération internationale en recherche agronomique pour le développement ou Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento), a Embrapa da França. Isso porque o principal ativo das instituições de ciência, tecnologia e inovação são cérebros.

Há algum plano para reduzir pessoal?

Sob orientação dos Ministérios da Agricultura e da Economia, estamos com um plano de demissões incentivadas, com 1.389 pessoas inscritas. Quando essas pessoas saírem, vamos reduzir o gasto com folha de pagamento. Temos autorização do Ministério da Economia para repor 75% das pessoas que saírem. Essas pessoas entrarão na empresa com salários mais baixos. A gente entende que vai conseguir chegar a 65%, talvez 70%, do nosso orçamento comprometido para pessoal e encargos e os outros 30% a 35% para investir em pesquisa. Com a nova lei trabalhista, e obviamente feitas todas as negociações, nós vamos poder terceirizar, e a terceirização vai nos ajudar a reduzir os gastos com encargos trabalhistas. Todo esse conjunto de medidas vai ajudar a Embrapa em 2020 a ter um orçamento mais equilibrado.

Em entrevista ao 'Broadcast Agro', o ex-presidente da Embrapa Sebastião Barbosa disse que havia previsão de concurso público no ano que vem. Há?

Não, isso não está garantido. O que foi acordado como o Ministério da Economia é que nós poderíamos repor até 75% das vagas das pessoas que saíssem. Sobre a questão do concurso e essa reposição, precisamos discutir primeiro com a ministra Tereza Cristina e depois com o governo federal.

A Embrapa está adotando outras medidas para atender às demandas do setor produtivo?

Ttemos uma estratégia desenhada e vamos discutir isso com a ministra Tereza Cristina. A ideia é formar fundos privados, que são muito comuns nos EUA. Lá, produtores de soja colocam em um fundo alguns centavos de cada saca de soja comercializada e depois os próprios produtores definem onde serão usados os recursos. Acho que isso pode ser feito no Brasil também. A Embrapa tem hoje 106 mil hectares de terra. Nós entendemos que é possível disponibilizar parte dessas terras, e que esse recurso seja investido na pesquisa. Também iniciamos nos últimos meses uma negociação com um fundo privado que pretende fazer uma doação para a Embrapa da ordem de R$ 220 milhões que serão usados para pesquisa.

No Congresso da Abag, no início do mês, a ministra elogiou seu trabalho e fontes do setor mencionaram a possibilidade de o senhor ser efetivado no cargo. Como vê isso?

Com tranquilidade. Sou funcionário de carreira, tenho 25 anos de empresa. Fui pesquisador durante 18 anos, conduzi um programa forte de pesquisa, fui chefe de uma unidade descentralizada, de uma unidade central, diretor executivo de pesquisa e desenvolvimento e agora estou interinamente na presidência. Tenho seguido as orientações da ministra, procurado o setor, conversei com várias lideranças. Se assim a ministra assim o entender, eu seguirei com muita honra nessa posição.

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