Águas turbulentas

Imaginem-se num barco perto de um superpetroleiro num espaço relativamente exíguo. Agora imaginem ter de lidar com as grandes ondas que são repentinamente criadas por um superpetroleiro instável. Não é fácil manter seu barco estável. E o risco de uma navegação incoerente e de erros se torna muito alto.

Mohamed A. El-Erian

07 de julho de 2013 | 02h07

Muitos países emergentes, incluindo o Brasil, estão nessa situação. A fluida economia global de hoje os está obrigando a manobrar nos transbordamentos negativos das políticas econômicas parciais que estão sendo seguidas por países ocidentais sistemicamente importantes.

No processo de responder ao que são, fundamentalmente, políticas experimentais do Ocidente, as economias emergentes precisam lidar com montanhas-russas no mercado financeiro global, fluxos de capital mais voláteis (para dentro e para fora) e tensões comerciais inevitáveis.

E, ironicamente, já que eles não são a origem das rupturas, mas estão na ponta receptora, são os seus mercados que experimentam a maior turbulência, com movimentos, se houverem, apenas fracamente relacionados às condições nacionais.

A turbulência dos mercados no fim de maio e em junho foi uma ilustração vívida de tudo isso. Infelizmente, foi também um indício do que vem por aí.

Tendo se apoiado por demasiado tempo numa política altamente experimental, os Estados Unidos agora se encontram numa situação difícil. Apesar de muitos anos e várias adaptações, sua persistente adoção de medidas monetárias não convencionais ainda não mostrou os resultados econômicos benéficos que os próprios formuladores esperavam, para não falar do que é necessário para restaurar um crescimento amplo e uma criação vigorosa de empregos.

Nesse ínterim, muitos investidores e especuladores se viciaram nas injeções contínuas de liquidez pelo banco central americano (que, significativamente, é muito influente desde que, entre outras coisas, é o emissor da moeda de reserva mundial). Esses alocadores de capital estão contentes de navegar na "onda de liquidez do banco central", mesmo quando ela desconecta materialmente os preços financeiros dos fundamentais subjacentes (como é hoje o caso).

No entanto, os dirigentes ocidentais em geral, e dos Estados Unidos em particular, se encontram num dilema cada vez mais complexo.

Se mantiverem sua posição política como ela está, os benefícios potenciais recuarão ainda mais, enquanto os custos e riscos aumentarão.

Se tentarem fazer mais, provavelmente causarão distorções ainda mais graves no comportamento do mercado financeiro e na alocação de recursos. Mas se tentarem refazer seus passos, mesmo que gradualmente, terão de lidar com mercados extremamente nervosos que poderão solapar ainda mais seus objetivos econômicos.

Esse dilema foi vividamente ilustrado a partir de 22 de maio e, especialmente, em meados de junho depois da reunião de política monetária do Federal Reserve Bank (Fed, o banco central dos Estados Unidos).

Consciente da necessidade de um processo gradual e relativamente transparente para moderar e, finalmente, abandonar uma política monetária não convencional, o presidente do Fed, Ben Bernanke, tentou ser mais transparente sobre o processo, e o fez de um modo que qualquer economista profissional tentaria fazer: fornecendo a maior transparência possível aos mercados.

Afinal, quanto menor a incerteza, menores os riscos de falências do mercado - ou pelo menos é o que dizem os manuais econômicos. A turbulência que se seguiu sugere o contrário.

Ao indicar que o Fed pode ter de reduzir gradualmente o apoio excepcional que vem oferecendo aos mercados, Bernanke saiu do seu normal para ressaltar (repetidamente) que isso só ocorreria se fosse garantido por melhoria das condições econômicas. Suas qualificações caíram em ouvidos surdos.

Em vez de ouvir Bernanke e mostrar paciência, os mercados se precipitaram e tentaram se desfazer dos investimentos que supunham que o Fed permaneceria acomodatício para sempre. O resultado foi uma fase lamentável de vendas indiscriminadas de virtualmente todas as classes de ativos, movimentos grandes e súbitos de preços, e rupturas de liquidez.

O impacto foi particularmente forte em mercados nos quais havia muito "dinheiro turista" - isto é, investidores que são atraídos por alguma compreensão (fundamentalmente superficial) dos mercados, mas não têm a âncora da análise ampla e, por isso, são propensos a fugir à vista de qualquer ruptura.

Isso explica os enormes deslocamentos sentidos por cada segmento dos mercados emergentes: dos bônus locais a moedas, e dos bônus soberanos em dólares ao crédito corporativo. E explica porque o Brasil foi atingido com particular dureza dada sua importância nos benchmarks de investimento tradicionais.

Na medida em que os deslocamentos súbitos também causaram impacto em seus próprios mercados - reparem só a turbulência da liquidez experimentada no mercado de bônus do governo americano atrelados à inflação (Tips) -, os bancos centrais ocidentais reagiram. Eles concordaram e depois rejeitaram o que havia sido sinalizado antes pelo banco central americano, ressaltando que um recuo gradual não era iminente. Além disso, alguns dias atrás, o Banco Central Europeu (BCE) deu sinais de que entraria ainda mais fundo num território político experimental.

Essa guinada de 180 graus dos bancos centrais europeus restaurou a calma nos mercados financeiros globais. É uma boa notícia. A má notícia é que as questões subjacentes são as mesmas, incluindo o impasse em que o Fed se encontra.

É só uma questão de tempo para essa realidade se impor novamente na forma de um retorno da volatilidade do mercado. Reconhecendo isso, os países emergentes deveriam fazer tudo o que puderem agora para aumentar a sua resiliência.

Voltando pois à analogia do começo deste artigo, é provável que os barcos menores de novo terão de lidar com águas turbulentas causadas pela oscilação dos superpetroleiros. Para isso, é fundamental que eles consolidem a estabilidade de componentes domésticos-chave, que construam zonas de proteção maiores, e comuniquem amplamente as origens das rupturas.

Esses três fatores serviriam para limitar o impacto da instabilidade que é inevitavelmente importada do exterior na fluida economia global de hoje. Mas eles não a compensarão plenamente. Para isso ocorrer, os países emergentes precisam esperar uma abordagem política mais abrangente de Europa, Japão e Estados Unidos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Mohamed A. El-Erian é o principal executivo e codiretor de investimentos da PIMCO. Publicou o livro 'When markets collide' e escreve exclusivamente para o Estado a cada dois meses 

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