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Elena Landau
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Ai de ti, Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro, cidade e Estado, foi sendo destruído governante após governante

Elena Landau*, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2020 | 04h00

Em 1958, Rubem Braga escreveu sua linda crônica Ai de ti, Copacabana. Ele não está mais por aqui para ver a quase profecia se realizando. É o Rio de Janeiro, cidade e Estado, afundando.

Há muitas tentativas de explicar esta decadência: a transferência da capital para Brasília, a fusão da Guanabara com Rio de Janeiro e as privatizações dos anos 90, mesmo ainda sendo sede da Petrobrás, Eletrobrás e BNDES.

Mas tudo isso ocorreu há muito tempo. Já podíamos ter encontrado outras vocações para a economia e a sociedade fluminense, além da herança da corte e do funcionalismo público. Perdemos o posto de centro financeiro e a Bolsa de Valores. A excelência acadêmica não foi suficiente para manter o Centro Tecnológico da Ilha do Fundão.

Nem sua beleza e originalidade cultural foram capazes de fazer do Rio um dos principais destinos turísticos nacionais e mundiais. Abusaram dela como se formosura aceitasse qualquer desaforo.

Populismo, irresponsabilidade e corrupção jogaram fora os anos do boom do petróleo e os royalties que vieram junto. Somos um dos Estados mais endividados do País. Uma vergonha. A ajuda federal que veio com o Regime de Recuperação Fiscal foi desperdiçada e estamos de novo de pires na mão.

O Rio foi sendo destruído governante após governante. “Já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste”, disse o cronista.Os cinco governadores presos deveriam ser o sinal. Mas o atual está afastado do cargo por repetir, no detalhe, as práticas de Sergio Cabral – da corrupção na saúde ao uso do escritório de advocacia da esposa. Na sua linha sucessória, o vice e o presidente da Assembleia também foram denunciados pelo Ministério Público.

É a história se repetindo como tragédia. No caso de os três serem impedidos, poderíamos até sonhar com eleições antecipadas para governador. Mas quando lembro de que daqui saiu a trinca Bolsonaro, Witzel e Crivella, é melhor nem arriscar.

Nosso prefeito é cheio de ideias peculiares. A última foi abrir o Maracanã para torcedores e, assim, retirar 20 mil banhistas das praias aos domingos. Justificativa pândega.

Foi dele a decisão de rasgar o contrato de concessão da Linha Amarela; destruiu as cabinas de pedágio, um patrimônio público. Crivella achou que era a lei. E pior que deu certo, já que uma decisão do STJ permitiu a retomada da concessão pelo município. Coisas que só acontecem no Rio de Janeiro. Diante do inusitado, ele ofereceu como pagamento de indenização aos concessionários a Cidade das Artes e vários imóveis públicos, mesmo tombados, como a antiga sede do Automóvel Clube do Brasil. Vai que cola, né?

Crivella, que passou raspando em duas votações para abertura de impeachment, tentará a reeleição. Se o TRE-RJ permitir. Por unanimidade, o Tribunal o declarou inelegível até 2026. Por falar em eleições, temos até uma pré-candidata presa. Já vamos antecipando uma etapa.

Acabei de voltar da região serrana. A estrada que liga o Rio a Juiz de Fora, passando por Petrópolis, é mais uma concessão que está no meio de uma batalha jurídica, sem perspectivas de solução. Está caindo aos pedaços. Na chegada ao Rio, o Waze avisou: “perigo à frente”. Achei que era a blitz com policiais armados ostensivamente de fuzis. Mas era apenas um carro parado no acostamento logo adiante. O aplicativo precisa rever o conceito de perigo nas vias fluminenses.

Nas zonas dominadas pela violência, candidatos precisam de permissão para fazer campanha. Nelas, os Correios não entram. Somos os campeões do roubo de cargas e do roubo de energia. É terra de ninguém. Ou de alguém. Já não se consegue mais separar Estado e milícia, está tudo junto e misturado, por covardia ou conivência.

Com o mau exemplo que vem de cima, as imagens de aglomeração nas praias e bares rodaram o mundo. Os casos de covid-19 voltaram a crescer no Rio, mas estádios e cinemas estão perto de serem liberados. Capaz de atingirmos a imunidade de rebanho por incompetência.

O poder público está ausente por completo; dos bairros de renda alta às comunidades.

Mas nem tudo é desilusão. A sociedade civil vai ocupando o vazio do Estado. Comunidades se organizam para cuidar dos seus durante a pandemia. Cesta básicas, material de higiene e até testes de covid foram disponibilizados aos mais vulneráveis. A solidariedade reapareceu.

Da economia criativa a questões de violência, passando por educação e meio ambiente, temas que importam para a formação de diagnóstico e para a busca da saída da crise vão sendo discutindo nas redes. Grupos de WhatsApp se formaram, especialistas em diversas áreas compartilham ideias e reuniões por Zoom vão acontecendo. Jovens economistas se uniram no @SomosRioMais, analisando e divulgando políticas públicas de qualidade. O Reage Rio, junto com IETS, organizou uma semana de debates temáticos, gerando mais de dez horas de excelente conteúdo. Iniciativas como essas vão se multiplicando em demonstração do amor dos cariocas. O Rio de Janeiro continuará lindo. O Rio tem Carol Solberg. Aquele abraço.

*ECONOMISTA E ADVOGADA 

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