WILTON JUNIOR/ESTADÃO
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‘Ainda dá tempo de evitar um novo rebaixamento’

Para ex-diretor do BC,País precisa com urgência discutir o problema do aumento contínuo dos gastos públicos

Entrevista com

Sérgio Werlang

Vinicius Neder / RIO, O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2015 | 05h00

O desajuste das contas públicas preocupa mais do que os efeitos na inflação da alta do dólar, na casa dos R$ 4,00 desde terça-feira, na avaliação do economista Sérgio Werlang, diretor do Banco Central (BC) na época da construção do sistema de metas, em 1999. Para ele, é preciso começar uma “discussão mais profunda” sobre o “grave problema” da economia brasileira, que é o aumento continuado dos gastos públicos ao longo do tempo. Segundo ele, governo e Congresso devem agir logo, sob risco de o Brasil perder o grau de investimento (nota considerada um selo de bom pagador) de uma segunda agência da classificação de risco, após o rebaixamento pela Standard & Poor’s. “Acho que ainda temos tempo, sim, mas não são seis meses. Não sei nem se são três”, disse o economista, hoje assessor da presidência da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como o dólar acima de R$ 4 se encaixa no cenário de inflação?

O ponto mais importante em relação a isso é que, provavelmente, o Banco Central (BC) vai colocar a inflação na meta no prazo um pouco maior do que estava planejando. Eu acho que o BC estava planejando por volta do último trimestre de 2016, início de 2017, e vai adiar um pouco essa decisão. O ponto importante é que vai adiar um pouco a chegada à meta, mas tudo indica que está na direção certa, ainda. Isso imaginando que, a médio prazo, seja possível corrigir essa situação de que temos um Orçamento deficitário enviado para o Congresso.

Déficit das contas públicas é o maior risco, então?

A minha preocupação maior, e eu acho que de muita gente, é o fato de o governo ter mandado um Orçamento deficitário para o Congresso e o fato de que esse Orçamento só está ficando superavitário em termos primários com aumento de impostos, que, muito provavelmente, já se sabe que não serão aprovados. Isso é um problema que poderá causar aumento cada vez maior do nível de risco. Poderíamos ter um segundo downgrade (rebaixamento) numa agência (de risco). Em algum momento, temos de começar uma discussão mais profunda sobre o grave problema que vivemos hoje na economia brasileira, que é o aumento dos gastos públicos continuado ao longo do tempo, incompatível com um orçamento equilibrado.

Essa discussão mais profunda não é ainda mais difícil?

Não, não é não. Tem muita coisa que pode ser feita. Não sou analista de gastos públicos, mas há regras automáticas de reajuste de salários e benefícios que têm feito o Orçamento ficar consistentemente deficitário. Consistentemente e crescentemente. Tem-se de simplesmente parar com essas indexações. Isso não depende de medida constitucional, é projeto de lei apenas.

O pacote recente foi insuficiente?

Foi insuficiente no corte de gastos estrutural, porque não adianta só cortar o gasto episodicamente, não se pode deixar que ele continue crescendo. Ao mesmo tempo, tem de buscar, mais do que o equilíbrio, um superávit primário para, a médio prazo, a gente voltar a ter uma dívida bruta estável e talvez cadente. Na minha visão, na hora que chegar ao Congresso uma proposta bastante firme, a reação dos mercados como um todo será de desmontar muito rapidamente esse arcabouço que foi aumentando o risco Brasil.

Dá para fazer o ajuste fiscal sem aumentar imposto, então?

Não se deve esperar que o principal ajuste venha de um aumento de receitas. Por quê? Você vai aumentar agora, daqui a um ano, se não resolver a parte estrutural (do gasto), vai ter de vir com outro aumento de imposto e, daqui a dois anos, mais outro aumento.

O que a política monetária pode fazer nesse quadro?

O que ela pode fazer é mais ou menos o que o Banco Central está fazendo hoje. Em primeiro lugar, o juro tem de ficar num nível acima do que seria se o País não estivesse com essa pressão fiscal e essa pressão de desvalorização (cambial) constante a médio prazo. E vai ter de ficar nisso por mais tempo. A economia vai ficar com juro real mais elevado do que devia durante um tempo maior. Vai levar mais tempo para o Brasil retomar a normalidade do crescimento de longo prazo, infelizmente.

O câmbio também está reagindo a isso?

Não tenha dúvida. Basta ver que o câmbio está subindo seguindo o risco Brasil. A grande virada foi após o downgrade pela Standard & Poor’s, que, obviamente, não foi causado do nada, foi causado pelo envio ao Congresso de um Orçamento deficitário.

Se o motivo da alta do dólar é a alta do risco, o céu pode ser o limite para o câmbio?

Que pode ir mais, pode, mas o provável é que haja um convencimento mútuo, entre o Executivo e o Legislativo, de que o problema fiscal tem de ser resolvido, se não o Brasil vai entrar numa situação em que vamos ter muita desvalorização (cambial) e muita inflação. Uma situação que nós já vimos antes.

Vale a pena vender uma parte das reservas para diminuir a dívida?

Sou favorável a vender um pouco de reservas, e também sou favorável a diminuir o ativo do BNDES, mas não adianta nada fazer isso sem resolver a questão fiscal, porque, daqui a um ano ou dois, vai surgir o problema de novo.

Tem como evitar a perda do grau de investimento em uma segunda agência de risco, além da S&P?

É perfeitamente evitável ainda. Agora, é claro que, à proporção que vai passando o tempo e o impasse vai se mostrando cada vez mais difícil de se resolver, a probabilidade de uma nova revisão por uma outra agência de rating para baixo do grau de investimento é concreta. Eu acho que ainda temos tempo, sim, mas não são seis meses. Não sei nem se são três. Diria que, sei lá, são duas semanas, três, quatro, se as coisas forem andando numa direção boa.

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