Beto Barata/Estadão
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‘Ainda devemos ter dois trimestres negativos’

Para Kawall, contração forte do consumo é um dos motivos para que não tenhamos uma recuperação mais rápida

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

02 Junho 2016 | 05h00

RIO - O Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre de 2016, que recuou 0,3% ante o último trimestre de 2015, na comparação dessazonalizada, veio melhor que as projeções do Banco Safra. Carlos Kawall, economista-chefe da instituição, considera, no entanto, que o resultado não muda muito sua visão de novas quedas do PIB nos próximos dois trimestres, seguidas de uma recuperação lenta, com crescimento de apenas 0,5% em 2017. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual a sua análise do PIB do primeiro trimestre?

Nossa previsão era de uma queda de 0,9%, comparado ao trimestre anterior, dessazonalizado, um pouco além do consenso, de 0,8%. Foi melhor do que imaginávamos, e as melhoras foram quase generalizadas.

Como o sr. viu o PIB pela ótica de demanda?

Na parte de consumo das famílias, bateu com a nossa previsão de queda de 1,7%. O consumo do governo foi um pouco mais forte do que prevíamos, mas a grande diferença foi no investimento. Esperávamos queda de 4,9% e ela foi de 2,7%. O setor externo veio basicamente em linha com nossas projeções, mostrando contribuição positiva, como tem sido há vários trimestres.

Esse PIB acima das suas projeções significa que devemos ficar otimistas?

É claro que o quadro fica um pouco melhor, mas eu diria que é “menos ruim” do que a gente imaginava. Ainda estamos falando em queda do PIB. Desde o início de 2014, de nove trimestres, incluindo este último, sete tiveram contração, sendo este o quinto consecutivo. Nós ainda projetamos queda de PIB nos próximos dois trimestres. Com esse número de hoje (ontem), avaliamos que o segundo trimestre terá queda de 0,9% e o terceiro, de 0,3%. Só no último trimestre haveria uma pequena expansão de 0,1%.

O resultado de hoje muda a previsão para este ano?

Devemos mudar de queda de 3,9% para queda de 3,7%. Começamos o ano com queda de 3,8%, fomos para 3,9%, agora voltamos para 3,7%, não muda muito o cenário. E é bom ter em mente estatísticas como os oito trimestres consecutivos de queda da indústria, cinco do setor de serviços, cinco do consumo das famílias. A formação bruta de capital fixo, o investimento, cai há dez trimestres, um número horrível.

A queda trimestral foi inferior às registradas em 2015. Isso significa que estamos mais próximos do fundo do poço?

Por definição, estamos sempre mais perto da hora em que vai melhorar. Mas, como mencionei, ainda acreditamos em dois trimestres negativos. Em termos da nossa visão do processo econômico daqui para a frente, tem um componente de confiança que é fundamental. Mas ainda assim há motivos para que eu não acredite numa recuperação mais intensa e rápida da economia.

O sr. poderia detalhá-los?

Estamos vendo uma contração muito forte do consumo. Há três fatores que influenciam o consumo: confiança, nível de renda e crédito. As duas últimas não estão dando sinais de melhora ao longo dos próximos dois ou três trimestres. Ainda projetamos piora do desemprego, cuja velocidade de alta está muito acentuada. A queda da população ocupada e do nível de renda, idem. A gente acha que o desemprego pode ir do patamar de 11,2% para algo mais próximo de 13%, afetando a massa salarial. Isso não sugere uma recuperação mais rápida do consumo. Com relação ao crédito, os dados do Banco Central mostram uma tendência de o estoque de crédito zerar o crescimento. É algo que depende, é claro, da trajetória da política monetária. Achamos que tem queda da Selic a partir de agosto, mas demora a fazer efeito na economia.

O que a atual crise tem de diferente para que dure tanto e a recuperação seja tão lenta?

A economia entrou nessa crise muito mais alavancada do que em crises anteriores. Quem trabalha em banco vê que a situação agora é bem mais frágil do que em outras crises, por causa da combinação do grau de alavancagem com uma contração do PIB muito forte. As empresas estão alongando dívidas, tentando reescalonar pagamentos a credores, mas a situação patrimonial não melhora, por causa dos prejuízos, do fluxo de caixa. Os problemas não são resolvidos no curto prazo. E note que esta crise já é bem mais prolongada.

Qual a projeção de crescimento em 2017?

É de 0,5%. Para 2016, não tem muita diferença entre o que os economistas estão prevendo. Já em 2017, o consenso está em 0,55%, mas há quem fale em 1,5% e 2%, dentro da ideia de recuperação da confiança. Mas o que eu penso é que crises de alavancagem, como se vê por todo o debate da crise financeira lá fora, têm recuperação mais lenta. Minha percepção é que teremos de digerir ainda essa desalavancagem até conseguirmos uma recuperação um pouco mais robusta.

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