Wilton Junior/Estadão - 26/2/2019
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Varejo e serviços surpreendem, mas, para analistas, é cedo para dizer se retomada é sustentável

Inflação controlada e juros em queda ajudaram o comércio e o setor de serviços em julho e recursos extras do FGTS e PIS/Pasep devem impulsionar atividade no segundo semestre, mas efeitos positivos podem acabar em janeiro

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2019 | 14h15

Depois da surpresa positiva do crescimento Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, dois indicadores de julho,  o varejo e o setor de serviços, também vieram acima do esperado por analistas (embora o desempenho da indústria ainda tenha sido negativo no mês). O resultado trouxe um alento para o cenário econômico do segundo semestre, que ainda pode ter o impulso da liberação de R$ 30 bilhões de recursos extras das contas inativas do FGTS e do PIS/Pasep .

Mesmo assim, economistas  preferem aguardar novos dados para avaliar se essa pode ser uma retomada sustentável da atividade econômica. “O desempenho do varejo e do setor de serviços é uma boa notícia, mas tem de ser visto com moderação”, afirma Thiago Xavier, economista da Tendências Consultoria Integrada. Fabio Bentes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), também está cauteloso. “Não dá para dizer que se trata de uma tendência por conta dos fracos resultados do mercado de trabalho”, diz.

Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados, ressalta que os dados da atividade estão muito voláteis ainda, com meses bons alternados com ruins. "Não me parece haver ainda um crescimento sustentável forte", afirma.

Xavier lembra que a indústria, que é a grande alavanca da atividade, ainda está no vermelho. O setor sentiu os efeitos da guerra comercial, da crise argentina e acumulou estoques indesejados nos últimos meses.  Em julho, a indústria recuou 0,3% sobre junho e ficou 2,5% abaixo de julho do ano passado, segundo o IBGE. No mesmo período, o varejo e os serviços avançaram 1% e 0,8%, respectivamente sobre o mês anterior.  Na comparação com julho do ano passado, o varejo cresceu 7,6% e o setor de serviços, 1,18%, aponta o IBGE.

O economista da Tendências lembra que o avanço de 0,8% em julho no setor de serviços veio depois de uma queda de 0,7% em junho. E tanto os resultados do comércio e dos serviços foram ajudados em julho pelo maior número de dias úteis neste ano e a base mais fraca de comparação de julho de 2018.

Bentes, da CNC, atribui o impulso de vendas do varejo à inflação controlada, que aumenta o poder de compra do consumidor, e o juro mais baixo, que torna o crédito mais atraente, apesar dos problemas estruturais do mercado de trabalho que persistem. Com cerca de 12 milhões de desempregados, a  recuperação do emprego é lenta e puxada pela informalidade, que, em geral, proporciona ganhos menores para o trabalhador na comparação com o emprego com carteira assinada.

Nos meses de maio, junho e julho, por exemplo, os preços dos bens duráveis, que incluem móveis, eletrodomésticos e eletrônicos, registraram deflação de 0,4%, 0, 9% e 0,2%, respectivamente, ressalta Bentes. Esse recuo nos preços e o juro menor impulsionaram as vendas de duráveis, geralmente comprados a prazo. Com isso, esses segmentos foram destaque positivo de vendas no período.

Anabolizante

A partir deste mês, com a liberação dos recursos extras do FGTS e do PIS/Pasep, o economista-chefe da CNC diz que o varejo e o setor de serviços  terão um efeito “anabolizante”. Pesquisa feita pela entidade mostra que, do total de R$ 30 bilhões liberados, R$ 9,6 bilhões devem ser abocanhados pelas varejistas e R$ 3,5 bilhões pelas empresas prestadoras de serviços. Nas contas da entidade, R$ 12,2 bilhões serão usados para pagamentos de dívidas pendentes. Isso, de forma indireta, acaba beneficiando o varejo, porque o  consumidor torna-se apto a tomar crédito novamente.

Vale, da MB Associados, projeta um terceiro trimestre melhor do que o segundo, com crescimento de 0,5% do PIB em relação período imediatmente anterior. No segundo trimestre o PIB avançou 0,4% sobre o primeiro. Se a previsão da consultoria se confirmar, seria o segundo trimestre  seguido com um bom número de crescimento na margem, observa.

“Vai haver uma aceleração da atividade no segundo semestre”, prevê Bentes. As vendas do varejo ampliado, que inclui veículos e materiais de construção, por exemplo, cresceram 3,5% no primeiro semestre e  devem ter um avanço de 5,2% no segundo semestre, prevê. A estimativa  inicial da entidade era de um avanço de 4,2% para o ano de 2019, mas  foi ampliada para 4,6%, depois dos resultados de julho.

As projeções da consultoria Tendências para a indústria também mostram uma reação. Até julho, a indústria recuou 1,7%, segundo o IBGE. A perspectiva da consultoria é que o ano feche com uma queda menor, de 1%. Isso significa que o segundo semestre será de crescimento para a produção industrial.

No entanto, mesmo com essa melhora, os economistas não estão convictos de que a atividade terá uma retomada sustentável. “Não vejo fatores suficientes para uma forte aceleração, trata-se de uma melhora relativa”, diz Xavier, que mantém a projeção de crescimento do PIB de 0,9% para este ano.

 

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