Mauro Pimentel/AFP
Mauro Pimentel/AFP

Ainda há espaço para alta no mercado antes da 'era Bolsonaro', diz Financial Times

No entanto, texto ressalta que o candidato do PSL à Presidência é desconhecido como administrador

Célia Froufe, correspondente, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2018 | 09h21

LONDRES- Ainda há espaço para altas no mercado brasileiro antes da "era Bolsonaro", de acordo com texto publicado nesta quinta-feira, 18, no site do jornal britânico Financial Times pelo chefe da sucursal brasileira, Joe Leahy. Ele destacou, no entanto, que, como administrador, o candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, continua sendo um desconhecido.

"No Brasil, neste mês, as únicas pessoas que têm um momento melhor do que os que apoiam a eleição de Jair Bolsonaro são acionistas da produtora local de armas Taurus", considerou. As ações da companhia mais do que triplicaram de preço desde o mês passado enquanto o ex-capitão da extrema-direita, que é favorável à liberação da posse de armas para combater as altas taxas de criminalidade do Brasil, subia nas pesquisas até vencer o primeiro turno da eleição, em 7 de outubro.

Com as pesquisas indicando uma forte vitória para Bolsonaro na segunda rodada, em 28 de outubro, investidores estão migrando para as ações da Taurus e ignorando as promessas do candidato de romper o fornecimento de armas para as forças de segurança do Brasil em meio a críticas sobre a qualidade de suas armas. O otimismo sobre a companhia, de acordo com o texto, se reflete no mercado mais amplo, com os investidores apostando que Bolsonaro honrará suas promessas de combinar conservadorismo social com políticas econômicas liberais. Ao longo do mês passado, o índice Ibovespa subiu 12%, enquanto o real se fortaleceu em 10% em relação ao dólar.

Paulo Guedes, conselheiro econômico do candidato que é formado na Universidade de Chicago, dá o aval à posição favorável do mercado a Bolsonaro. As promessas do economista incluem, como citou o FT, um maciço programa de privatização de empresas estatais brasileiras para reduzir a dívida pública. Ele também prometeu reformas fiscais, como a reforma da Previdência, para reduzir o déficit orçamentário.

A força da vitória de Bolsonaro no primeiro turno estimulou investidores que antes se preocupavam com o fato de seu rival, Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT), ter uma chance. Conhecido por seu intervencionismo na economia, os mercados considerariam o retorno do PT como catastrófico, conforme a publicação. Mas com o PT aparentemente dominado e os mercados já significativamente mais altos, os investidores enfrentam uma questão, de acordo com o autor: eles deveriam vender o fato de uma vitória final do Bolsonaro no segundo turno ou esperar por mais vantagem?

A maioria dos analistas citados por Leahy acredita que ainda há espaço para mais ganhos modestos. Ronaldo Patah, diretor de investimentos para o Brasil da UBS Global Wealth Management, prevê o dólar a R$ 3,60 nos próximos três meses, com a possibilidade de "exceder" para R$ 3,50 antes de fortalecer gradualmente para R$ 3,80 à medida que a política monetária apertar no exterior. As ações ainda estão sendo negociadas ligeiramente abaixo da média histórica em termos de preço/lucro. Pode haver um aumento de 10% se o mercado começar a considerar um crescimento econômico mais rápido para o próximo ano de cerca de 2,5%, disse ele.

Em termos de risco soberano, os Credit Default Swaps (CDS, indicador financeiro que mede a confiança em um país) de cinco anos, que já passaram de 281,4 pontos-base para 210,9 no mês passado, podem cair mais 30-50 pontos-base. No entanto, a classe de ativos mais arriscada é a dos títulos públicos domésticos, com a ponta curta já considerando a maior parte dos ganhos potenciais. Isso porque seriam mais expostos ao que se espera que seja o primeiro teste real da determinação de Bolsonaro em questões econômicas - se ele vai ou não fazer uma forte reforma previdenciária e fortalecer a precária posição fiscal do Brasil.

Os mercados, conforme o site do FT, esperam que ele gaste seu novo capital político no primeiro ano com o tema. Ainda assim, Bolsonaro, que confessa pouco conhecimento da economia, está tergiversando, segundo a publicação, ao dizer que queria passar por uma reforma diferente da do atual presidente Michel Temer, que careceu de apoio para que suas propostas fossem aprovadas no Congresso este ano. "Não podemos penalizar aqueles que já adquiriram direitos", disse ele esta semana.

Bolsonaro também voltou atrás em relação à privatização dos ativos de geração de eletricidade, fazendo as ações da líder do mercado no segmento, a estatal Eletrobras, perder força. "Os investidores, por enquanto, estão lhe dando o benefício da dúvida", escreveu o chefe da sucursal, acrescentando que, com a campanha ainda em curso, falar sobre reformas de pensões impopulares pode custar-lhe votos.

No entanto, Bolsonaro também não foi testado no governo, pontuou o texto. Em quase 28 anos no Congresso, ele aprovou poucas leis e nunca ocupou um cargo executivo, como o governador do Estado ou o prefeito da cidade. Como administrador, ele continua sendo um desconhecido. É por isso que alguns investidores podem optar por obter lucro em sua provável vitória em 28 de outubro. Eles podem seguir o exemplo do fabricante de armas Taurus, que está usando o aumento astronômico no preço de suas ações para uma oferta de ações de bônus que visa a reduzir sua dívida.

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