Ainda sem acordo, EUA têm apenas 13 horas para evitar ‘abismo fiscal’

Discussão entre republicanos e democratas travou no domingo no corte de gastos da Previdência Social; negociação no Senado será retomada nesta segunda

Denise Chrispim Marin, de O Estado de S. Paulo - Atualizado às 23h,

30 de dezembro de 2012 | 21h52

WASHINGTON - Sem acordo na noite deste domingo, 30, o Senado dos Estados Unidos retoma a segunda-feira, 31, as negociações de um acordo sobre o ajuste nas contas públicas com o desafio de fechá-lo e aprová-lo nas duas casas do Congresso em apenas 13 horas. As discussões travaram no domingo na questão do corte de gastos da Previdência Social. Democratas repudiavam a exigência dos republicanos de reduzir os valores pagos para aposentados e pensionistas.

O presidente americano, Barack Obama, voltou a interferir nas conversas. Em entrevista concedida no sábado e transmitida na manhã de domingo pela rede de televisão NBC, ele fez um enfático apelo em favor do consenso. Mas, ao culpar os republicanos e omitir sua cota de responsabilidade pelo impasse, tornou o ambiente no Congresso ainda mais corrosivo.

Obama disse já ter feito concessões que enfureceram a base de seu partido e que não podia fazer mais nada a não ser apelar pelos últimos esforços no Congresso. Conforme sublinhou, os republicanos estão atuando apenas para "proteger" a redução de impostos para os mais ricos. Em sua argumentação, um acordo equilibrado deverá começar com a eliminação desse benefício. Com isso, será possível recolher mais US$ 800 bilhões em impostos em dez anos.

"Conversamos com os republicanos desde o final das eleições (6 de novembro). Eles tiveram dificuldade de dizer sim a uma série de ofertas (dos democratas)", afirmou Obama. "Na sexta-feira, eu estava modestamente otimista, mas nós não vimos ainda um acordo. Agora, a pressão é para o Congresso produzir (um acordo)."

A versão de Obama irritou os republicanos. "O presidente continua a insistir em um pacote dramaticamente enviesado e em favor de impostos mais altos, que podem destruir os empregos", reforçou o presidente da Câmara dos Deputados, o republicano John Boehner.

Quando a entrevista foi exibida, os senadores Harry Reid (democrata) e Mitch McConnell (republicano) já estavam mergulhados na negociação havia mais de um dia. No meio da tarde de domingo, eles anunciaram ao plenário que a conversa havia estagnado no corte de gastos da Previdência Social.

Depois de mais um esforço, decidiram abandonar de vez a perspectiva de votar um acordo ainda na noite de domingo. As negociações ainda prosseguiram, desta vez com a intervenção direta do vice-presidente e ex-senador, Joe Biden. Os trabalhos no Senado serão retomados às 11h (14h, no horário de Brasília) desta segunda.

A alternativa, entretanto, já está preparada para ser posta hoje em votação nas duas casas do Congresso. Trata-se de um projeto de lei para prorrogar a redução de impostos para a classe média e o seguro-desemprego de 2 milhões de trabalhadores. Sugerida por Obama na última sexta-feira, essa nova lei deverá abrandar a queda da economia americana no "abismo".

O "abismo" fiscal significa a adoção automática de cortes nos gastos públicos e o fim de renúncias fiscais para as classes média e alta e para empresas a partir de 1º de janeiro, se não houver acordo até a noite anterior. O objetivo será reduzir substancialmente, até 2022, a dívida pública federal de mais de US$ 16 trilhões. Seu principal efeito será empurrar a economia americana para uma nova recessão.

. A questão sobre o benefício fiscal aos americanos mais ricos (2% da população) continuava no domingo a ser o nó da negociação. A Casa Branca quer o fim dessa renúncia para quem tem renda anual acima de US$ 250 mil, mas pode aceitar um piso maior, de US$ 400 mil. Boehner não conseguiu o apoio dos radicais republicanos, conhecidos como Tea Party, para sua proposta de eliminar o benefício para quem ganha mais de US$ 1 milhão ao ano.

Mas somaram-se outros tópicos ao impasse. A taxa de inflação usada para calcular reajustes em aposentadorias e pensões foi questionada pelos republicanos, que preferem uma fórmula que reduza os desembolsos federais. "Temos de tirar esse tema da mesa. Não podemos vencer um debate que coloca a aposentadoria, de um lado, e o imposto dos ricos, do outro", disse o senador republicano John McCain, candidato derrotado por Obama em 2008.

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