Ainda um objeto de desejo

Apesar dos ventos contrários, os programas de MBA continuam surpreendentemente populares

O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2015 | 02h04

Os programas que oferecem certificados de Master of Business Administration (MBA) sabem muito bem o que é ser alvo de críticas. E não é de hoje. Nos anos 50, influente relatório encomendado pela Ford Foundation sustentava que o conteúdo desses cursos era fraco e irrelevante. Na década de 80, a revista Business Week noticiou que as empresas se queixavam de que os profissionais recém-saídos dos programas de MBA "não sabiam se comunicar direito, confiavam demais em técnicas matemáticas de administração e imaginavam que em quatro semanas estariam sentados na cadeira de presidente da companhia". No início deste século, analistas observaram que empresas envolvidas em desastres corporativos, como Enron e Lehman Brothers, tendiam a ser comandadas por ex-alunos de prestigiosas escolas de administração de empresas.

Apesar disso, os MBAs continuam a ser extremamente populares. Ninguém sabe ao certo quantas pessoas se matriculam nesses programas em termos mundiais; mas em 2012 foram concedidos 192 mil certificados de MBA nos Estados Unidos, fazendo do programa o curso mais popular entre os estudantes de pós-graduação do país. Em 2014, o exame GMAT, que na prática serve como prova de admissão para os MBAs, foi realizado por 688 mil pessoas no mundo inteiro - número que, embora elevado, representa uma queda em relação às 745 mil pessoas que fizeram o exame em 2008.

O motivo do declínio é, em parte, cíclico: com o intuito de se proteger dos efeitos das crises econômicas, as pessoas tendem a procurar as escolas de administração em tempos de vacas magras. Mas os MBAs enfrentam diversos problemas de longo prazo. O mais imediato é o aumento nas exigências para a obtenção de vistos em alguns países desenvolvidos. Atrair e reter os jovens mais brilhantes do planeta deveria ser algo desejável para qualquer país. Mas, para desespero dos diretores das escolas de administração de empresas, tanto Estados Unidos, como Grã-Bretanha - os dois destinos mais populares entre os estudantes estrangeiros - agora apresentam exigências mais rigorosas para quem deseja ficar e trabalhar no país depois de concluir os estudos.

Nos Estados Unidos, os alunos estrangeiros que concluem o MBA só podem obter um visto H-1B - que lhes dá o direito de permanecer por até três anos no país, com a possibilidade de estender a estadia por mais três anos - se contarem com o respaldo de uma empresa. Mas a demanda por esses vistos ultrapassa em muito a oferta. O número de vistos H-1B é limitado a um total de 85 mil (os primeiros 20 mil são reservados para alunos de cursos de pós-graduação, como os MBAs). Iniciadas as inscrições, os vistos desaparecem em questão de dias. Na Grã-Bretanha, os alunos que queiram permanecer no país precisam arrumar um emprego antes mesmo que seu visto de estudante perca a validade.

Os programas de MBA são particularmente prejudicados por essas restrições, pois muitas pessoas escolhem a escola que desejam frequentar de acordo com o lugar onde pretendem trabalhar depois de obter o certificado. Como seria de esperar, países com mais receptivos, como o Canadá, os pedidos de matrícula de alunos estrangeiros vêm crescendo. Por sua vez, o porcentual de candidatos interessados em instituições americanas caiu de 83%, em 2007, para 73%, em 2015, segundo o GMAC, entidade sem fins lucrativos que reúne escolas de administração do mundo inteiro.

Outdoors. O Canadá e outros países não se limitam a cobiçar os estrangeiros que pensam em fazer um MBA nos Estados Unidos. O governo canadense instalou outdoors no Vale do Silício com os dizeres: "Problemas com o H-1B? Venha para o Canadá", na esperança de atrair recém-formados aborrecidos com as dificuldades para permanecer nos Estados Unidos. "Se as empresas americanas não puderem importar jovens talentosos, vão acabar exportando empregos", diz Matt Slaughter, diretor da Tuck School of Business, do Dartmouth College. "Ao contrário do que acontece com advogados e médicos, as qualificações conferidas por um MBA atravessam fronteiras sem maiores problemas."

Essas preocupações realçam o fato de que profissionais com MBA continuam a ser valorizados pelas empresas. Nas instituições incluídas na mais recente edição do ranking de programas de MBA elaborado por The Economist, 89% dos alunos estão empregados em até três meses depois de concluir o curso. A mediana do salário básico fica pouco abaixo de US$ 100 mil anuais, um aumento de 88% em relação à remuneração auferida pelos alunos antes da realização do curso. Mas algumas coisas mudaram: depois da crise financeira, os bancos deixaram de se interessar tanto por profissionais com MBA (talvez porque muitos dos que frequentemente são apontados como culpados pela crise são ex-alunos de programas de MBA).

As instituições ocidentais também estão perdendo terreno para as escolas de administração de países emergentes. De 2007 para cá, o porcentual de alunos que enviam sua pontuação no GMAT para programas de MBA com sede na Ásia e na Australásia quase dobrou, chegando a 8,1%. No ranking elaborado por The Economist, agora figuram 8,5 instituições asiáticas (a INSEAD tem campi na França e em Cingapura). São números discretos, mas a tendência é que aumentem. A China, em particular, tem planos de aperfeiçoar suas escolas de administração a fim de atender a demanda local por gestores.

MiM. Instituições tradicionais também passam por reformulações. Nos últimos cinco anos, aumentou muito o número de matriculados nos cursos de Master in Management (MiM), que, ao contrário dos programas de MBA, aceitam jovens que acabaram de concluir a graduação e não têm experiência profissional prévia. Nos Estados Unidos, até escolas como Michigan, Duke e Notre Dame estão se abrindo para o que antes era visto como uma qualificação estritamente europeia. Apesar de cobrir conteúdos muito parecidos com os dos MBAs, os MiMs costumam ser bem mais baratos.

Nem todas as instituições são afetadas da mesma maneira. Ao que tudo indica, sempre haverá quem queira fazer um MBA em Harvard, em Chicago ou na London Business School. São as escolas menos afamadas que passam por maiores dificuldades. Mais de dois terços dos programas cujo custo total fica abaixo de US$ 40 mil por ano dizem que o número de candidatos permaneceu estável ou caiu em 2015. Já no caso das instituições que cobram mais de US$ 40 mil por ano, o número de candidatos aumentou.

Isso indica um excesso de oferta de programas de MBA. Mas no mundo das escolas de administração, esse tipo de lei não parece valer. Por mais reduzido que seja o número de alunos que um curso de MBA atraia, poucas instituições se dispõem a fechar o programa: uma escola de administração de empresas se define por seu MBA. Como diz Stephen Hodges, presidente da Hult International Business School: "Uma escola de administração de empresas é digna desse nome se não oferece um MBA?".

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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