Airbag externo, para salvar pedestres

Acessório de carro da Volvo abre na frente do para-brisa em caso de atropelamento

CHRISTIAN WÜST , DER SPIEGEL, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h07

Os engenheiros estão bem conscientes de que seres humanos e carros são adversários em situação de desigualdade numa colisão. A diferença, segundo Thomas Broberg, está na sua estrutura. "Carros são duros e seres humanos são frágeis", diz ele.

Broberg chefia o departamento de produtos de segurança da montadora sueca Volvo e atualmente trabalha num projeto para tornar os carros menos duros. O novo Volvo V40 será o primeiro carro de passageiros a ter um airbag externo que abre na frente do para-brisa do veículo no caso de ele atingir um pedestre.

Com o V40, a Volvo oferece algo há muito tempo preconizado por organizações e críticos do carro que defendem formas alternativas de transporte: melhorias na segurança para beneficiar as pessoas que estão dentro de um veículo, que são os indivíduos para os quais o carro representa o maior perigo.

O número de vítimas nas estradas na Alemanha, especialmente o de pedestres mortos, aumentou novamente no ano passado. Em 2011, 612 pedestres perderam a vida, 136 mais do que no ano anterior.

A União Europeia baixou regulamentos que estão em vigor há sete anos, mas as normas não atenderam absolutamente aos objetivos da Comissão Europeia. O capô e a parte dianteira dos carros agora devem ser mais flexíveis, mas medidas seriam introduzidas para solucionar o problema da armação de metal rígido em torno do para-brisa do veículo.

Pesquisadores especializados em acidentes sabem que essa é a área que provoca ferimentos mais graves na cabeça, com frequência fatais.

Mas não é fácil tornar o suporte do para-brisa mais flexível. Essa estrutura tem um papel importante na rigidez da carroceria como um todo. Ela protege os passageiros se o carro vira. Portanto, o airbag seria a única maneira viável para amortecer o impacto sofrido por um pedestre.

Mas os mesmos fabricantes que fornecem airbags laterais e dianteiros para proteger seus clientes não se mostram dispostos a ir mais longe para melhorar as chances de pedestres sobreviverem a um acidente.

Imagem de segurança. Agora a Volvo aumenta a pressão sobre o setor como um todo e ao mesmo tempo aproveita a oportunidade para melhorar sua imagem num segmento em que corre o risco de perder espaço.

Com seus famosos carros tipo tanque, a marca Volvo sempre foi considerada uma pioneira no campo da engenharia de segurança. Mas hoje quase todas as montadoras fabricam carros com carrocerias resistentes a impactos.

Com sede na cidade de Gotemburgo, na Suécia, a Volvo vende cerca de 450 mil carros por ano, o que a torna uma participante menor no setor. Mas, ao contrário da Saab, outra marca sueca que se desintegrou ao ser adquirida pela General Motos, a Volvo ainda é forte.

Depois de chegar quase à falência quando ficou sob o controle da Ford, a companhia agora é propriedade da montadora chinesa Geely, cujo produto mais visível até agora é uma grosseira imitação do Rolls-Royce.

Imperturbável, uma nova equipe de executivos formada principalmente por administradores alemães pretende reviver o último grande santuário da Escandinávia no campo da fabricação de carros. Peter Mertens, que trabalhou na Daimler e agora é vice-presidente sênior da Volvo, na área de pesquisa e desenvolvimento, adotou o conceito do "luxo escandinavo" como fórmula para desenvolvimento de produto. Ele caracteriza os clientes da Volvo como cidadãos-modelo - consumidores responsáveis, educados e sofisticados com um enorme poder de compra.

O que pode melhor se coadunar com a visão de mundo de um indivíduo como esse do que um solidário airbag? Claro que o novo airbag da Volvo implica um conjunto de incrementos engenhosos. Sete sensores na parte dianteira do carro deverão reconhecer se o veículo está de fato atingindo uma perna humana e não, por exemplo, um carrinho de supermercado; cápsulas de pólvora liberam o capô das juntas, abrindo uma fenda pela qual o airbag sai e se expande até chegar ao seu enorme volume de 120 litros numa fração de segundo.

O fato de uma pequena empresa fora da Suécia ser a única fabricante desse novo airbag faz com que o novo dispositivo seja visto com certa incredulidade pelos impérios do setor automobilístico, como a Volkswagen, companhia que contabiliza bilhões, mas não faz nada para proteger os pedestres.

É improvável que o orçamento inteiro da Volvo, destinado ao desenvolvimento desse airbag seja maior do que os US$ 23 milhões que o CEO da Volkswagen, Martin Winterkorn ganhou no ano passado.

A Volkswagen emitiu comunicado sobre sua posição a respeito do airbag externo, afirmando ser "impossível descartar a possibilidade de o airbag se abrir acidentalmente e tapar a visão do motorista na estrada". A Mercedes também expressou a mesma preocupação.

Parece, no entanto, que o airbag da Volvo vai dissipar essas reservas.

Ele se expande em forma de uma banana que cobre a armação do para-brisa, mas deixa grande parte desse mesmo para-brisa livre, já que, comparativamente, ele é uma superfície mole, e portanto não é a parte mais perigosa.

"Uma abertura acidental do airbag é tão prejudicial quanto improvável", diz Broberg, engenheiro da Volvo. E ele explica que a companhia testou muitos cenários possíveis. Bolas de futebol e carrinhos de mão, por exemplo, não ativaram o airbag.

Do mesmo modo, diz ele, preocupações de que pontapés num Volvo estacionado para ativar o airbag pode se tornar um novo hobby para os desocupados são infundadas. "O airbag só pode ser ativado quando o carro está em movimento, em velocidades entre 20 e 50 quilômetros por hora", portanto uma pessoa só pode dar um pontapé no carro, para acionar o airbag, quando ele estiver se movimentando. E ele conclui: "E qualquer um que fizer isso sem dúvida precisa de um airbag". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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