Ajuda a bancos nos EUA terá de ser usada para crédito

Governo vai injetar US$ 250 bilhões na compra de ações, inclusive das nove maiores instituições do país

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON, O Estadao de S.Paulo

15 Outubro 2008 | 00h00

O secretário do Tesouro, Henry Paulson, divulgou ontem o plano de recapitalização dos bancos americanos, com injeção de US$ 250 bilhões do governo, e advertiu as instituições que os recursos terão de ser usados para restabelecer a concessão de empréstimos. O governo vai comprar ações preferenciais (sem direito a voto) nos nove maiores bancos americanos - Citigroup, JP Morgan, Bank of America (com Merrill Lynch) e Wells Fargo (com Wachovia) vão receber US$ 25 bilhões cada, Morgan Stanley e Goldman Sachs recebem US$ 10 bilhões cada, Bank of New York Mellon e State Street levam entre US$ 2 e US$ 3 bilhões cada. Trata-se da maior intervenção do governo na economia desde a Grande Depressão dos anos 30. "O governo ser dono de qualquer empresa americana é um fato desagradável para a maioria dos americanos, inclusive para mim", disse Paulson ao anunciar as medidas. "Mas a alternativa, deixar essas empresas e consumidores sem acesso a crédito, é totalmente inaceitável." Depois, o secretário deixou claro que espera dos bancos uma reativação da concessão de empréstimos, embora isso não conste da regulamentação do pacote. "É preciso que nossas instituições financeiras peguem esse capital e o empreguem, em vez de guardá-lo", advertiu o secretário do Tesouro. Os recursos sairão do pacote de US$ 700 bilhões de resgate do sistema financeiro, aprovado há duas semanas pelo Congresso. Serão US$ 125 bilhões para os nove grandes bancos e os restantes US$ 125 bilhões para instituições menores entre os 8,4 mil bancos americanos. A idéia é fazer com que a injeção de capital restabeleça a confiança no sistema financeiro e leve os bancos a voltarem a conceder empréstimos. Os bancos têm até 14 de novembro para entrarem no programa. "Esses esforços foram desenhados para beneficiar diretamente o povo americano ao estabilizar nosso sistema financeiro e ajudar nossa economia a se recuperar", disse o presidente George W. Bush em pronunciamento no jardim da Casa Branca. Além disso, autoridades vão garantir todos os empréstimos e novos títulos emitidos por bancos, para restabelecer o crédito interbancário e com o tempo levar à redução da taxa Libor. O governo vai oferecer seguro para todas as contas correntes não remuneradas, e não apenas aquelas com até US$ 250 mil. A medida é uma forma de proteger pequenas empresas, que normalmente mantêm seus recursos nessas contas e começavam a sacar seu dinheiro por falta de confiança no sistema. O presidente Bush anunciou também a implementação do programa de compra pelo Fed de dívida de curto prazo emitida por empresas, para restabelecer o crédito a essas companhias. O programa começa em 27 de outubro. Os bancos participantes do programa sofrerão restrições sobre a remuneração de seus executivos - não podem estabelecer pacotes de saída milionários para funcionários contratados a partir de agora. As ações do governo nos bancos terão remuneração de 5% ao ano, que sobe para 9% depois de cinco anos - como forma de incentivar os bancos a recomprarem essas ações e encontrarem investidores privados. Muitos dos bancos grandes resistiram a vender participações para o governo americano, mas concordaram sob pressão de Paulson, em reunião na segunda-feira. A idéia é que eles sirvam de exemplo a instituições menores, tirando o estigma do resgate do governo.Alguns críticos questionaram por que o Tesouro não optou em primeiro lugar pela injeção de capital nos bancos e passou semanas tentando aprovar o pacote para compra de ativos podres das instituições, que muitos consideram uma medida mais lenta e menos eficiente. Paulson se opunha ao investimento direto do governo em bancos, enquanto o presidente do Fed, Ben Bernanke, achava que seria inevitável. O Tesouro ainda mantém o programa de compra de ativos podres.

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