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Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

Ajuda chinesa será limitada

Nicolas Sarkozy, logo que encerrou a reunião de cúpula de Bruxelas que salvou (momentaneamente) a Grécia e a zona do euro, telefonou para o presidente chinês Hu Jintao. No dia seguinte, o diretor do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (Feef), Klaus Regling, já estava em Pequim para uma reunião com o próprio Hu Jintao.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2011 | 03h07

Essa pressa é emocionante. Mostra como a Europa está sedenta por euros, mesmo tendo que ir buscá-los numa fonte impura: a China. Esse país longíquo, emergente, comunista e, ao mesmo tempo, capitalista dá "água na boca" dos políticos e banqueiros europeus. Todos sonham com os US$ 3,2 trilhões que Pequim esconde nos seus cofres.

A China ascendeu ao status invejável de "terra prometida". O inconveniente é que ela é um país comunista, apesar de tudo. Mas e daí? Seus dólares e euros não são marxistas.

Recorrer aos chineses não agrada todo mundo. O "perigo amarelo" está também inscrito em euros. Pequim não estaria em vias de comprar por partes a Europa? Os chineses já se apoderaram do porto de Atenas e de uma parte importante da Islândia. E continuam a "fazer seu mercado" propondo fornecer dinheiro à zona do euro. Perigo! A verdade é menos diabólica. Mas uma coisa é certa: a Europa é o principal mercado para produtos chineses. Uma desaceleração da economia europeia e, uma razão mais forte, uma recessão ou um caos na Europa, significariam um golpe fatal à economia chinesa. Pequim, portanto, tem interesse em fornecer munição para a Europa, de maneira que o Velho Continente continue absorvendo a enorme produção chinesa.

Além disso, a China só consentirá em abrir seus cofres-fortes (a conta-gotas, e não mais do que 70 bilhões) se a Europa oferecer contrapartidas. E a mais urgente é essa: Pequim quer obter o estatuto de "economia de mercado" imediatamente e não esperar até 2016, como foi previsto pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Esse pedido já tinha sido apresentado em setembro pelo primeiro-ministro Wen Jiabao. E foi rejeitado pela Europa, que teme ser invadida pelas quinquilharias chinesas. Mas os chineses são obstinados. Os cofres-fortes de Pequim somente se abrirão se lhe for concedido o estatuto de "economia de mercado".

Uma outra exigência: a União Europeia decretou um embargo sobre vendas de armas para a China, para punir o país depois da sangrenta repressão do movimento democrático de 1989, na Praça Tiananmen. A França é favorável à suspensão do embargo, mas, entre os 27 membros da União, nem todos concordam.

Portanto, é flagrante que a China não virá facilmente em socorro do euro. A negociação será ainda mais tensa porque a China, por seu lado, começa a sofrer uma desaceleração da sua economia. A crise começa a rondar o país. Pequim tinha um programa de trens de grande velocidade ambicioso. Foi suspenso. A interrupção desse programa colossal deixou 3 milhões de operários desempregados, pois os quatro bancos do país se recusam a fornecer mais empréstimos para o ministério de estradas de ferro.

Será o momento, é o que pensa uma população cuja renda é precária, de emprestar bilhões de euros aos europeus? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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