Ajuda é maior do que a dada a agricultores da África

ONU quer fomentar produção local para diminuir dependência de doações estrangeiras

Jamil Chade, Acra, O Estadao de S.Paulo

21 de abril de 2008 | 00h00

Em meio ao calor de 40 graus, mosquitos e falta de higiene, o hospital infantil na periferia de Acra, em Gana, é obrigado a distribuir alimentos produzidos na França e subsidiados pelo governo de Paris.Sem uma agricultura capaz de fornecer comida à população, os países africanos vêm apelando cada vez mais para as doações internacionais. Agora, a ONU quer acabar com essa prática que deixa o setor agrícola africano fragilizado.Por dia, os produtores dos países ricos recebem mais subsídios que o Banco Mundial (Bird)destina por ano para toda a agricultura africana nos 54 países do continente. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, quer acabar com os esquemas dos governos dos EUA e da Europa de distribuir alimentos aos países mais pobres com produtos cultivados pelos seus próprios agricultores. Além de pedir a abertura dos mercados, Ban defendeu mais incentivos para a produção de comida na África e admitiu rever a estratégia de distribuição da ONU.Até hoje, grande parte dos produtos enviados às regiões mais miseráveis são cultivados nos países ricos. O governo americano promete recursos para alimentar os países na África. Mas, na realidade, esse dinheiro vai para os bolsos de seus agricultores. O governo compra os alimentos nacionais e os envia às populações famintas. Para os mais críticos, o esquema serve para subsidiar de forma indireta os próprios produtores americanos e europeus. Agora, a ONU quer rever esse esquema, até mesmo dos pacotes de alimentos vindos da França.Segundo a Unicef, até hoje os pacotes de alimentos franceses com um preparado de leite, legumes, açúcar e vitaminas custavam mais barato que comprar alimentos locais. Mas, com anos de práticas parecidas a essa, o setor agrícola africano foi à falência. Com a alta nos preços dos produtos e o aumento do número de crianças malnutridas, os pacotes de alimentos franceses estão pesando cada vez mais nas contas da ONU e do Ministério da Saúde local."Nunca vimos tantas crianças chegando abaixo do peso", afirmou Peace Gyoki, enfermeira do hospital visitado pelo Estado em Gana. Representantes da Unicef revelaram que os pacotes passariam a ser produzidos localmente e que a própria ONU faria investimentos em fábricas. A iniciativa faz parte do que o Bird chama de o "New Deal da Agricultura mundial", para incentivar a produção local.

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