Ajuste continua rápido, mas padrão deixa a desejar

Embora o saldo comercial tenha batido um novo recorde em março, com o maior superávit mensal desde 2002, a marcha das exportações e das importações não mudou de direção. Continua, como ocorre desde a virada de 2014 para 2015, a ser determinada por uma contração acentuada das importações ante quedas mais suaves nas exportações.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2016 | 22h27

Desta vez, enquanto as importações recuaram nada menos do que 30% sobre março de 2015, as vendas externas, depois de uma ligeira e isolada alta em fevereiro, voltaram a cair, mas em ritmo muito menor, de 5,8%, em comparação com março do ano passado. O fato explica porque o saldo comercial só aumenta, podendo fechar o ano com históricos US$ 50 bilhões positivos, mas a corrente de comércio (soma de exportações e importações) se mantém retraída. Considerando o acumulado do primeiro trimestre, o fluxo total do comércio externo, em 2016, é 20% menor do que o do mesmo período de 2015 e representa apenas um terço do valor registrado no pico de 2010.

Não havendo mudança no padrão de formação dos saldos comerciais, não há também mudanças nos fatores que determinam o quadro atual. Retração prolongada e acentuada da atividade econômica e taxa de câmbio mais desvalorizada se combinam para impor barreiras às importações e estimular as exportações.

Os superávits não têm sido ainda maiores porque a situação do comércio internacional não é exatamente favorável. Os mercados de commodities vivem uma fase de restrição de demanda e acúmulo de estoques que deprimem os preços, enquanto tradicionais compradores de manufaturas dificuldades econômicas e escassez de divisas. Por isso, o aumento das quantidades vendidas não se reflete, proporcionalmente, nas receitas de exportação.

É notável, de todo modo, o ajuste por que passa o setor externo brasileiro. De um déficit em transações correntes superior a US$ 100 bilhões, em 2014, na altura preocupante de 4% do PIB, a conta caiu pela metade em 2015 e de novo deve recuar pela metade, em 2016, não devendo ultrapassar US$ 25 bilhões. Há algum tempo, todas as projeções apontam o equilíbrio já no próximo ano.

Com a manutenção do ritmo de ingresso de investimentos diretos externos, o problema do financiamento dos déficits em conta corrente, que pareceu voltar a ganhar importância em 2014, deixou de preocupar, no momento. Seja pelo barateamento em dólares do ativos brasileiros, seja pela taxa de juros doméstica muito acima das médias internacionais ou pela abundância de liquidez lançada nas praças financeiras pelas políticas de juros muito baixos ou mesmo negativas das economias mais maduras, as projeções de ingressos em divisas superam com folga as necessidades de pagamento.

Essa folga externa opera, positivamente, não só na imunização do setor externo contra ataques especulativos à moeda, mas também na mitigação da recessão. É um elemento que ajuda a evitar mergulhos ainda mais profundos da atividade, ainda que insuficiente para compensar e a forte retração da demanda e dos investimentos, revertendo o quadro recessivo.

De todo modo, nunca é demais lembrar que a consistência do ajuste externo, obtido, basicamente, pelo encolhimento das importações, deixa a desejar. Abrir mão de importações, sobretudo de máquinas e equipamentos, como vem ocorrendo, significa retardar a modernização do parque produtivo, dificultando o tão necessário aumento da produtividade e da competitividade.

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