Imagem José Roberto Mendonça de Barros
Colunista
José Roberto Mendonça de Barros
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Ajuste na economia global?

Impacto no Brasil de todos os eventos no mundo não será favorável

José Roberto Mendonça de Barros *, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2018 | 04h00

Alguns dias no exterior deixam a sensação de que algo maior está para acontecer na economia global, e não parece coisa boa. Várias causas estão em ação e, conjuntamente, apontam para a elevação da chance de um ajuste significativo no mundo.

Em primeiro lugar, a política externa (diplomática e econômica) de Trump é, simultaneamente, agressiva, desestabilizadora e inconsistente. Brigar com todo mundo, ao mesmo tempo, não deve levar a um bom final, mesmo sendo a maior potência global. A perda de credibilidade e a destruição do “soft power” americano são imensas, especialmente porque atingem os mais tradicionais aliados dos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial. A Europa, por exemplo, está profundamente desconfortável com a agressividade e a natureza das políticas diplomáticas dos americanos.

Do ponto de vista econômico, está cada dia mais claro que caminhamos para um desequilíbrio nos Estados Unidos, tendo como base o enorme estímulo fiscal decorrente da redução de impostos e do aumento de gastos do governo. Com isso, os mercados antecipam com maior convicção que os juros básicos serão elevados nos próximos meses, ainda que os sinais de maior inflação não tenham se materializado mais claramente.

A inflação vai ser ainda impactada pelas decisões de política comercial já tomadas pelo presidente americano. Por exemplo, a colocação de impostos na importação de aço já aumentou o preço de bobinas a quente em 37% neste ano. Segundo o presidente de uma grande companhia, o mercado de alumínio vive o maior tumulto de muitos anos.

As incertezas políticas também estão crescendo e a tensão no Oriente Médio voltou a escalar após a retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã. Em consequência, a situação do mercado de petróleo ficou ainda pior nestes dias, o que levou as cotações a encostar em US$ 80 o barril, cedendo na última sexta-feira, após o anúncio da Opep e da Rússia de que elevarão a oferta de óleo em 1 milhão de barris/dia para compensar a quebra da produção na Venezuela e o impacto de sanções ao Irã. Ainda assim, os preços permanecem elevados. Mais pressão inflacionária ainda.

O cancelamento do encontro entre o presidente dos Estados Unidos e o da Coreia do Norte, em 12 de junho, também não ajuda muito, mesmo levando-se em conta que as portas para marcação de uma nova data foram cuidadosamente mantidas abertas.

Assim, é perfeitamente possível imaginar que caminhamos para um ajuste para baixo no crescimento americano (que talvez já tenha começado em alguns países), o que vai reforçar o movimento em curso de enfraquecimento de boa parte das economias da Europa. No caso da Itália, o inusitado acordo entre partidos populistas e anti-Europeu, de esquerda e de direita, com uma proposta de elevação de gastos e redução de impostos, num governo liderado por um inexperiente primeiro-ministro, não parece sustentável.

Finalmente, a expectativa de alta dos juros leva a um fortalecimento do dólar, a uma eventual reprecificação de ativos e a impactos negativos nos mercados emergentes, especialmente nos mais vulneráveis, como Argentina e Turquia.

Naturalmente, o impacto no Brasil de todos esses eventos não é favorável. Em primeiro lugar, o comércio global vai sentindo a tensão diplomática, os atritos comerciais e a provável redução no crescimento dos países ricos. Embora nós possamos ter alguns pedidos a mais na carteira de vendas (fruto de desvio de comércio, como o interesse do México pelo milho brasileiro ou a eventual preferência da China pela soja brasileira), o fato é que menores transações globais afetam um país como o nosso, que exporta para todas as regiões. Além disso, a piora da situação de parceiros como a Argentina deve ter efeitos consideráveis.

Em segundo lugar, a piora nas condições financeiras globais também afeta nossas contas, incluindo investimentos externos e captações de empresas brasileiras. Podemos estar próximos de um ajuste na economia global, o que não facilitará em nada o trabalho do próximo governo.

* ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

Mais conteúdo sobre:
José Roberto Mendonça de Barros

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.