Nilton Fukuda | ESTADÃO CONTEÚDO
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Ajuste ocorre sem ‘anestesia’, diz analista

Para economista, País não tem condições, no momento, de adotar medidas mais eficazes contra a crise, que destrói empresas e empregos

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2016 | 03h00

O ajuste doloroso enfrentado pela economia brasileira destrói empresas e empregos, avalia o diretor de pesquisas econômicas da consultoria GO Associados, Fabio Silveira. Uma forma de amortecer esse quadro, diz ele, seria a emissão de moedas, mas o Brasil não tem condições de fazer isso.

“Foi a emissão de moedas e o crédito que impediu o desmonte da indústria americana na crise de 2008 e 2009”, afirma Silveira. “Com isso, o governo amorteceu o tombo de montadoras, de empresas da construção civil e do mercado financeiro”. O Brasil, diz, “não pode se dar a esse luxo, até porque a inflação poderia ser ainda maior”.

Para o economista, o País não tem outro mecanismo de regulação da economia e de amortecimento desse forte ajuste e, portanto, “não tem como escapar do aumento do desemprego e do fechamento de empresas”.

Além disso, no ambiente atual, com a crise econômica sendo agravada pela crise política, “os empresários não vão colocar seu dinheiro para reativar o nível de atividade”, acredita Silveira. “Estamos conhecendo um dramático ajuste feito via mercado sem anestesia.”

Lava Jato. A operação Lava Jato, da Polícia Federal, também tem efeitos indiretos na indústria. O presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Pedro Wongtschowski, lembra que a Petrobrás reduziu dramaticamente seus investimentos, o que afeta um setor imenso de fabricação de bens de capital, serviços de engenharia e de apoio marítimo.

“Uma parte considerável da economia brasileira anda em torno da Petrobrás, que chegou a representar, no pico, mais de 10% da formação de capital bruto no Brasil”, ressalta o executivo. A estatal, afirma ele, arrasta um grande conjunto de setores industriais – construção civil, montagem mecânica, fabricação de bens de capital, manutenção, serviços marítimos, e mesmo indústrias que não estão diretamente ligadas a ela, como as empresas de componentes para a produção de papel e celulose, química e farmacêutica.

Na opinião do executivo, “a queda da demanda da Petrobrás e a redução dos investimentos em geral está fazendo com que muitas indústrias que se estabeleceram no País há alguns anos fechem as portas”.

Segundo ele, o Brasil vai voltar a ser importador desses componentes pois a maior demanda vinha da indústria de petróleo. “Na medida em que essa fonte secou, os produtores perdem escala, a despeito do câmbio, e já tem muita gente saindo do Brasil.”

O presidente do Iedi ressalta ainda que os investimentos das empresas de óleo e gás também pararam – exceto os que já tinham sido contratados –, em razão da falta de novos leilões da Agência Nacional de Petróleo (ANP).

“Os investimentos em infraestrutura (portos, aeroportos, rodovias e ferrovias) reduziram dramaticamente por força da dificuldade do governo de fazer essas licitações. E isso, indiretamente, também é efeito da lava jato, afirma Wongtschowski. Ele ressalta, contudo, ser “obvio que a purificação do sistema dos negócios brasileiros tem de ser feita”.

Para Silveira, uma mudança no quadro político pode induzir a uma melhora da percepção econômica e uma melhora, ainda que mínima, em 2017. “É preciso fazer um ajuste aceitável pela sociedade e desenvolver uma política orientada a fortalecer as exportações para que o País não fique a mercê da China e da alta das commodities”.

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