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Ajuste suficiente?

A eventual retirada da GM do mercado brasileiro produziria graves transtornos não apenas nas cidades onde está instalada, mas, também, no mercado de trabalho e na rede de concessionários

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2019 | 21h00

A coluna de ontem (A GM quer mais bondades) procurou lembrar ao leitor que a indústria de veículos (e não só a GM) é um setor de pedintes, sempre à procura de favores do governo.

Talvez tenha sido melhor dizer que se trata de um setor que opera com o combustível produzido por lobbies poderosos cujo objetivo principal é arrancar benefícios dos governos. Apoia-se na imagem de que oferece os melhores empregos e de que garante o funcionamento de enorme cadeia produtiva, o que não deixa de ser seu pedaço de verdade, mas quando os negócios não produzem os resultados desejados, procuram socializar as perdas.

Neste momento, a GM reivindica não apenas antecipação de créditos acumulados de ICMS, mas, também, pretende que seus funcionários aceitem reduzir seus direitos trabalhistas, como o corte de 30% do piso salarial e aumento da jornada de trabalho. Se não for atendido, o presidente da GM para o Mercosul, Carlos Zarlenga, ameaça fechar fábricas no Brasil e abrir negócios onde puder receber melhor tratamento.

É preciso acrescentar duas observações. A rigor, ambas são perguntas. A primeira delas tem a ver com os resultados. Qual é a garantia de que a antecipação dos créditos acumulados de ICMS mais a redução dos direitos trabalhistas será suficiente para garantir a reversão dos maus resultados da empresa? Não há nenhuma garantia, até porque ninguém conhece a real situação das finanças da GM. Trata-se de uma sociedade limitada, dispensada de publicar balanços no Brasil.

Os problemas de administração e de estratégia de negócios da GM não são de agora e não se limitam ao Brasil. Em 2009, a matriz norte-americana alegou encargos excessivos com planos de saúde dos funcionários para pedir injeção de US$ 50 bilhões em recursos do tesouro dos Estados Unidos. E conseguiu.

Há dois meses, a presidente mundial da GM, Mary Barra, advertiu que preparava o fechamento de cinco unidades nos Estados Unidos e no Canadá, demitiria 15 mil funcionários até o fim de 2019 e as transferiria para outros países. Depois da pronta repulsa à manobra pelo presidente Trump, Mary Barra parece ter apontado sua tesoura para outra direção, mais precisamente para o Hemisfério Sul.

Sabe-se, também, que a GM norte-americana está atrasada em relação à concorrência no desenvolvimento de veículos elétricos e autônomos, o que parece ter acumulado problemas.

A outra pergunta tem a ver com a ameaça de retirada do Brasil se os pleitos da GM não forem atendidos. Se as autoridades brasileiras resolvessem pagar para ver e, assim, estancassem suas fontes de bondades, será que a GM, que tem 94 anos de Brasil, estaria mesmo disposta a se retirar do oitavo mercado do mundo acrescido do resto do Mercosul? Este é um campo aberto para as apostas.

Mesmo que outra montadora se dispusesse a ocupar qualquer espaço deixado pela concorrência, a eventual retirada da GM do mercado brasileiro produziria graves transtornos não apenas nas cidades onde está instalada (São Caetano, São José dos Campos e Gravataí), mas, também, no mercado de trabalho e na rede de concessionários.

Mas, para evitar esses transtornos, será mesmo que valeria a pena aceitar as pressões da GM que obviamente se seguiriam de pressões das outras empresas do setor?

CONFIRA

» Receitas federais

A arrecadação das receitas federais em 2018 aumentou 7,16%. Descontada a inflação, o aumento (real) foi de 3,41%. Mas, em dezembro, o avanço real sobre dezembro do ano passado apresentou queda real de 1,46%. É um desempenho que mostra claro enfraquecimento da atividade econômica a partir de outubro, provavelmente em consequência dos sobressaltos produzidos pelas eleições. Por aí se vê que a queda da arrecadação em dezembro não necessariamente se repetirá nos meses seguintes.

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