Lula: André Dusek/Estadão | Bolsonaro: Gabriela Biló/Estadão
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Albert Fishlow
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Há uma desconfiança crescente em relação aos políticos no poder, como se vê na França, EUA e Brasil

Apenas líderes mais autoritários parecem capazes de sobreviver aos testes das urnas; no Brasil, a próxima eleição é coerente com esse padrão

Albert Fishlow*, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2022 | 04h00

No domingo de Páscoa, e também em um dos dias de celebração da Páscoa judaica, é mais do que oportuno começar lembrando do discurso do papa Francisco há três semanas, quando ele pediu por uma intervenção divina milagrosa para dar fim à invasão da Ucrânia pela Rússia. Quase não há países que não tenham sido afetados negativamente. As sanções têm sido severas e amplas. E isso sem levar em conta o surgimento de, mais uma vez, uma nova variante do vírus causador da covid-19. 

Os economistas estão mais preocupados com a ameaça da inflação e o rápido aumento das taxas de juros. Um futuro mais sombrio já levou o Fundo Monetário Internacional (FMI) a diminuir suas expectativas iniciais de crescimento.

Há uma desconfiança crescente em relação aos políticos, sobretudo com aqueles no poder. Macron está à frente por pouco na França, já que Marine Le Pen conseguiu um apoio muito maior que há quatro anos. Nos EUA a aprovação de Biden não subiu, e a perda da maioria na Câmara e no Senado parece provável. Apenas líderes mais autoritários parecem capazes de sobreviver aos testes das urnas.

No Brasil, a próxima eleição é coerente com esse padrão. As pesquisas mostram dois candidatos bem à frente tentando destacar sua posição de centro. Lula e o atual presidente Bolsonaro superam todos os demais. Em um segundo turno, Lula tem uma vantagem considerável.

As pessoas lembram dos velhos tempos de crescimento em alta e expansão significativa de uma classe média baixa deixando a pobreza para trás. Bolsonaro tem uma alta taxa de rejeição, mas seu apoio se beneficia de orçamentos que permitem subsídios aos pobres. As taxas de crescimento em 2022 devem começar a melhorar no final do ano, o que pode ajudá-lo.

Embora os demais candidatos ainda acreditem que uma única alternativa poderia derrotar Bolsonaro, as pesquisas também sugerem que Lula ganharia facilmente contra qualquer um deles. Isso já levou o Eurasia, empresa de pesquisa e risco político, a dar a Lula 70% de probabilidade de vitória em um segundo turno contra Bolsonaro. 

Mas eu me pergunto: será que Bolsonaro estará disposto a reconhecer o voto popular e abrir mão do seu desejo de continuar sendo presidente? Embora a proposta de voto impresso de Bolsonaro tenha sido rejeitada pelo Congresso e Supremo Tribunal Federal (STF), será que ele vai fazer lembrar o quanto o Brasil demorou, mais de um mês, para reconhecer a vitória de Biden? / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

* ECONOMISTA E CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR EMÉRITO NAS UNIVERSIDADES DE COLUMBIA E DA CALIFÓRNIA EM BERKELEY

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