Felipe Rau/Estadão - 16/05/2022
Felipe Rau/Estadão - 16/05/2022

‘Crescimento do PIB no 1º tri não representa a saúde da economia”, diz economista do Goldman Sachs

O economista e diretor de pesquisas do banco Goldman Sachs para a América Latina afirma em entrevista ao 'Estadão' que as condições favoráveis para a economia tendem a perder a força até o fim do ano

Entrevista com

Alberto Ramos, diretor de pesquisas para a América Latina do banco Goldman Sachs

Filipe Serrano, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2022 | 10h00

O aumento das vendas no varejo e no setor de serviços tem levado economistas do mercado financeiro a revisar para cima as projeções para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2022. Um deles é Alberto Ramos, diretor de pesquisa macroeconômica para América Latina do banco Goldman Sachs, que elevou a sua estimativa de 0,9% para 1,2% recentemente. 

Segundo ele, a melhora tem relação com a reabertura da economia, o crescimento das exportações, o aumento do valor do Auxílio Brasil e com medidas tomadas pelo governo para estimular o consumo, como a antecipação do décimo terceiro salário dos aposentados e o saque extraordinário do FGTS. No entanto, o economista afirma em entrevista ao Estadão que esses efeitos são passageiros e não são um sinal de uma recuperação mais forte do PIB à frente. 

“O que aconteceu no primeiro trimestre não é representativo da fortaleza da economia. Temos pela frente um segundo semestre bastante complicado, com taxa de inflação em dois dígitos, bastante disseminada, e com condições financeiras e condições monetárias ainda mais apertadas”, disse Ramos, durante uma visita a São Paulo na semana passada. 

Para o economista, a inflação ainda em dois dígitos no Brasil, o aumento das taxas de juros no EUA e a desaceleração da economia mundial tendem a enfraquecer a economia no segundo semestre do ano, puxando a atividade para baixo. 

Além disso, ele ressalta que o Brasil não tem como contar com o impulso do consumo das famílias, nem do investimento público, uma vez que o governo tem um espaço cada vez mais limitado para investimentos e as famílias estão altamente endividadas. “É possível que o motor de crescimento também possa ter sofrido algum dano estrutural nos últimos anos. Já era um Fiat 600 e perdeu um carburador no caminho”, disse Ramos. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

Muitas casas de análise e bancos estão revisando a projeção do PIB para 2022 para cima. Por que essas projeções estão subindo?

O crescimento já surpreendeu um pouco no final de 2021 e a economia mostrou um grau de resiliência no primeiro trimestre. O fator número um foi o aumento do preço de commodities, que levou a uma transferência adicional de renda para a economia. O segundo fator tem a ver ainda com um efeito da reabertura da economia. Teve uma onda de (casos da variante) Ômicron, que afetou a economia em janeiro. Mas essa onda afetou menos a mobilidade e a atividade do que a gente esperava. As pessoas basicamente se esqueceram da Ômicron. Mesmo em janeiro, quando se esperava que tivesse um impacto mais profundo, não teve. E depois, em fevereiro e março, a melhora tem a ver com a reabertura adicional da economia e com uma transferência adicional de renda -- com o aumento do salário mínimo, a antecipação do décimo terceiro (dos aposentados), e o Auxílio Brasil mais parrudo. 

Qual foi o efeito das medidas de estímulo econômico do governo?

As transferências fiscais tiveram claramente algum impacto. Pensando só no Auxílio Brasil, é um auxílio que é mais de o dobro do Bolsa Família e é pago a 3 ou 4 milhões de famílias adicionais. É muita gente. E é um recurso que vai para famílias que têm uma propensão ao consumo bastante elevada. Houve um conjunto de fatores que levou a um crescimento melhor do que o esperado no primeiro trimestre. Tem algum efeito de arrasto para o segundo, mas não representa a saúde econômica do País. 

Por que não?

O que aconteceu no primeiro trimestre não é representativo da fortaleza da economia. Temos pela frente um segundo semestre bastante complicado, com taxa de inflação em dois dígitos, bastante disseminada, e com condições financeiras e condições monetárias ainda mais apertadas. A economia mundial está desacelerando. É possível ainda que a economia venha a contrair no segundo semestre. Olhando um pouco para o crescimento para o biênio de 2022 e 2023, acho que estamos ainda em uma toada bem modesta do crescimento, provavelmente perto de 1%, mas inferior a 1%, em média nesses dois anos. 

Por que esses efeitos do primeiro trimestre não devem continuar?

Alguns dos fatores que levaram a esse crescimento no primeiro trimestre são efêmeros. Não são fatores permanentes. O segundo é que o Brasil está numa armadilha de baixo crescimento, baixo investimento e baixa produtividade já há vários anos, se não for há várias décadas. Gosto sempre de citar alguns números, porque eles ilustram bem essa realidade. A última vez que o Brasil cresceu mais de 3% foi em 2013, há quase 10 anos. O crescimento médio trimestral dos últimos 33 trimestres é 0%. O crescimento médio dos últimos 42 trimestres, que são 10 anos e meio, é de -0,1%. O PIB per capita do Brasil no final de 2021 está 9% abaixo comparado ao primeiro trimestre de 2014. Se for medir em dólares, mesmo com paridade de poder de compra, o número é ainda pior. Então, Houston, we have a problem. Temos um problema estrutural de crescimento. Digo que esse é o problema endêmico do Brasil. Tivemos a pandemia. Temos um problema pandêmico. E temos um problema endêmico, que é um problema estrutural que só se resolve com reformas pró-crescimento, reformas que resolvam a parte fiscal. Essa continua a ser a grande agenda pendente, para este governo e para o governo que virá. 

Vê algum movimento nessa direção?

Não. Infelizmente, não. E até me preocupa se há algum efeito cicatriz na economia. É possível que o motor de crescimento também possa ter sofrido algum dano estrutural nos últimos anos. Já era um Fiat 600 e perdeu um carburador no caminho. 

Em que sentido?

O setor público perdeu capacidade de investir. Isso ocorreu pela própria expansão do gasto que hoje é tomado em grande medida pelo gasto corrente, e não pelo investimento. Não é o setor público que vai alavancar o crescimento, porque não tem capacidade financeira de fazer. O outro fator é que as famílias estão altamente endividadas. Temos hoje um nível recorde de endividamento das famílias. Também não vai ser um crescimento alavancando. Quer dizer, pedindo empréstimos para gastar, para consumir. Não vai por aí. E um terceiro ponto é que estamos a sete anos com uma taxa de desemprego em dois dígitos. Hoje temos 3,5 milhões de brasileiros desempregados há mais de dois anos. O que isso significa para além do drama social de estar desempregado? É que quanto mais tempo você está fora do mercado de trabalho, você vai perdendo habilidades de trabalho. O mundo evolui. Você está desemprego por mais de dois anos, quando volta o seu trabalho é menos produtivo. São esses fatores que me preocupam. Se os motores de crescimento já eram muito débeis, eles podem ter se debilitado ainda mais no caminho. 

O PIB potencial do Brasil diminuiu?

Pode ter diminuído na margem. Não sei quanto é, mas é baixo. O Brasil precisa entrar um ciclo de crescimento e, para isso, precisa de muita coisa. A agenda é conhecida. Não precisa chamar um comitê de prêmios Nobel para analisar por que o Brasil não cresce. Todo mundo é bem conhecedor dessa agenda. É preciso equacionar o problema fiscal, a sustentabilidade fiscal de médio e longo prazo ainda é um tema pendente. Isso afeta as decisões de investimento de médio e longo prazo. Outra agenda é que o Brasil tem uma carga tributária enorme, mal distribuída, gasta muito e investe pouco. A produtividade do gasto público é baixíssima. O efeito multiplicador do gasto público é muito baixo. O Brasil tem que se inserir mais nas cadeias de produção globais. Ainda é uma economia extraordinariamente fechada ao comércio. E tem que investir mais. Tem que investir mais em capital físico e capital humano. Não é preciso reinventar a roda. É preciso avançar nessas agendas. Não vai mudar do dia para a noite. Mas a agenda é conhecida. Não está escrito em pedra que o Brasil não pode crescer mais do que 1%. O que é triste nessa narrativa é que o potencial do Brasil é muito grande. É uma economia enorme, continental, autossuficiente em energia, que não tem os problemas sociais, religiosos e eu diria até  políticos que muitos outros mercados emergentes. Pensa Turquia, África do Sul, Rússia. A gente podia fazer muito melhor. Neste país com um outro tipo de política macro poderia aspirar a muito mais. Tem potencial de crescer muito mais. 

O presidente Jair Bolsonaro e Lula culpam a regra do teto de gastos pela falta de recursos para o investimento público. O teto gastos é o culpado nesse sentido?

Essa narrativa não está correta. O teto de gastos não limita o investimento. O teto de gastos limita o gasto. E quando olhamos para a composição do gasto, mais de 95% não são investimentos. São gastos correntes. Dado que o Brasil já tem uma carga tributária enorme, e dado que o gasto é ainda maior que essa carga tributária, porque a gente tem um déficit fiscal, o Brasil deveria olhar um pouco para a despesa. Não me convenço de que em um Orçamento de R$ 1,5 trilhão por ano não haja onde cortar e todos os programas governamentais são bem estruturados e têm um impacto social fantástico. É óbvio que o investimento é necessário. Mas também é necessário não ir à falência. Então vamos cortar o gasto. 

Como vê a discussão sobre uma possível flexibilização do teto de gastos no Congresso? Isso preocupa?

Preocupa. Os dois candidatos mais competitivos dessa eleição basicamente já afirmaram que o teto do gasto vai ser modificado e tem os dias contados. O teto do gasto é uma âncora fiscal que dá alguma credibilidade e previsibilidade à política fiscal. Se vai acabar com o teto de gastos, me diga o que vai substituí-lo. Sem âncora, me parece arriscado. Tirar o teto do gasto e gastar mais, usando a velha ladainha de que é o investimento é baixo, (não funciona). A gente já viu esse filme, especialmente dado que o setor público é muito mau gastador -- não estou falando de corrupção, mas de alocação de recursos mesmo.

Para o ano que vem vocês estão vendo um crescimento menor. Isso é o efeito da taxa de juros mais elevada?

Sim. É o impacto defasado de uma política monetária bastante restritiva, com o Banco Central com espaço limitado para cortar os juros. E esse espaço é limitado por duas razões. Porque a inflação vai continuar ainda bastante alta. A gente vê inflação em dois dígitos até outubro deste ano, e provavelmente acima de 8% até o segundo trimestre de 2023. Num contexto em que, embora  a inflação venha a ser menor no final do ano, e progressivamente menor em 2023, ainda vai demorar bastante tempo para trazer a inflação de volta à meta. E o outro fator é que o Fed está começando a subir os juros. Existe um risco crescente de que os juros nos EUA também avancem para campo restritivo. Isso limita o espaço para o Banco Central cortar o juro. Se ele quer cortar o juro, mas o Fed está subindo não elimina o espaço, mas limita. Significa que, mesmo em 2023, a política monetária provavelmente será restritiva, acima do neutro. E como a gente espera um segundo semestre de 2022 bastante difícil, isso gera um carrego para 2023 próximo de 0% e possivelmente até negativo. E aí não vamos ter o efeito de Auxílio Brasil, saques do FGTS. Os preços de commodities devem estar na base. O efeito residual da abertura da economia terá passado. Vai ser um ano mais normal e o normal tem sido anos de crescimento baixo. Mas com a política monetária ainda segurando o freio. 

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