´Alca exige urgência, mas sem superficialidade´ , diz Furlan

O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, define em uma única frase, extraída do latim, a forma como o Brasil deve conduzir as negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca): "Confie na paz e prepare-se para a guerra". Ele pretende retirar das discussões internas sobre a Alca a carga emocional, a superficialidade e os "palpites" e apresentar estudos concretos sobre a competitividade dos setores mais atingidos. Furlan alertou que o Brasil não tem tempo a perder no preparo dos setores, criticou a política industrial do governo anterior, indicou que refará os estudos sobre competitividade herdados e adiantou que encaminhará nova fórmula até agosto. Na área de comércio exterior, assegurou que não faltará crédito para os embarques. "Não tem erro nisso", garantiu. A seguir, os principais trechos da entrevista. Estado - Os exportadores reclamam que as pequenas e médias empresas não conseguem acesso às linhas do BNDES porque não contam com aval. Como resolver esse problema? Luiz Fernando Furlan - O BNDES se comprometeu a estudar caminhos para facilitar o acesso ao crédito. O banco atua por meio de agentes e não foi criado para tratar de pequena empresa. Mas há disposição operacional e determinação política de encontrar esses caminhos. Mais capilarizado, o Banco do Brasil conhece as empresas e seria o instrumento adequado. Estado - O governo anterior propunha a criação de um Eximbank, resultado da unificação das ações do BNDES e do Banco do Brasil na área de financiamento às exportações. O objetivo se mantém? Furlan - O governo entendeu que não seria politicamente oportuno fazer qualquer tipo de modificação nesse sentido. Operacionalmente, as duas principais atividades do BNDES são o comércio exterior, que representa 40% do orçamento neste ano, e o financiamento à produção e ao desenvolvimento. Agora, terá maior ênfase na área social, na redução de desigualdades. Estado - A escassez de crédito às exportações tende a se agravar no segundo semestre de cada ano. O senhor considera a necessidade de mais linhas emergenciais, além das anunciadas? Furlan - Tenho uma teoria de que sucesso gera sucesso. Tenho certeza de que a performance das exportações no primeiro semestre motivará a equipe de governo a encontrar caminhos para que essa trajetória continue. Estado - A possível suplementação dos recursos do Proex-financiamento, cujo orçamento já está quase todo comprometido, será tratada na reunião da Camex da próxima semana? Furlan - É um tema para o qual teremos de encontrar uma solução. O problema da verba virá mais para frente, até porque o Orçamento do governo não foi cortado, mas contingenciado. Nós encontraremos o caminho. Posso dizer claramente que, produzindo resultados, os caminhos vão se abrindo. Não tem erro nisso. Estado - Com a queda do dólar, algumas idéias começaram a ser ventiladas, até mesmo da criação de um câmbio para a exportação... Furlan - Isso é maluquice. O câmbio é flutuante. O exportador e o investidor não gostam de volatilidade excessiva. Isso inibe o investimento, deixa as pessoas com o pé atrás e faz com que o exportador não assuma riscos. Estado - Como o governo lidará com isso? Furlan - A volatilidade do câmbio teve a ver com o cenário político. Precisamos construir uma base sólida, manter as contas públicas tranqüilas, cumprir os compromissos e ser mais agressivos nas exportações, para gerar um saldo na balança comercial com aumento das importações. A volatilidade do câmbio está ligada à proporção entre o comércio exterior do País e o seu Produto Interno Bruto (PIB). Hoje, a nossa proporção é de cerca de 20%. Se subir para 30% ou 35%, teremos menor risco, como foi o México. Minha idéia é construir metas interligadas: qual o cenário para o PIB em quatro anos, quanto representarão as exportações, qual a relação do comércio exterior com o PIB. Não podemos querer que as importações caiam. Seria um tiro no pé. Meu objetivo é que cresçam, mas menos do que as exportações. Estado - Até o ano passado, o senhor era um dos diretores da Fiesp, entidade que reivindicou uma política industrial consistente ao governo. Furlan - Houve política industrial. A questão é se ela tem rumo, coerência, foco e visão estratégica. Quando o governo anterior decidiu a privatização, foi uma ação de política industrial. Nós vamos financiar a produção de plataformas de petróleo, que revolucionará um setor inteiro. A TV digital poderá induzir indústrias, tecnologia, desdobramentos. Queremos discutir esses temas ao longo das cadeias produtivas e avaliar como um setor influencia o outro. Para os próximos oito anos, podemos garantir que haverá uma política industrial. Estado - Oito anos? O mandato é de quatro, com possibilidade de reeleição. Furlan - Foi um lapso... Estado - Se as negociações comerciais forem concluídas nos prazos, o País terá uma nova onda de abertura em dois anos e plena liberalização em 2015. Alguns capítulos dessas negociações exigem maior clareza sobre segmentos ainda inexistentes, mas que podem surgir no futuro. Furlan - O ministério vai coordenar estudos de competitividade setorial, hoje dispersos, com universidades e com agremiações privadas. Queremos discutir competitividade na Alca, no acordo União Européia-Mercosul e na OMC com profundidade e visibilidade setorial e, ao mesmo tempo, sem emoção. Trata-se do oposto do que tem acontecido. Essas discussões são extremamente emocionais e superficiais. Estado - O governo mantém cautela e prudência nas negociações comerciais. A proposta do Mercosul de liberalização do comércio de bens para a Alca foi muito mais modesta do que a inicialmente imaginada. O senhor concorda com essa posição? Furlan - A frase de que mais gosto para a Alca vem do latim: "confie na paz e prepare-se para a guerra". As discussões sobre as vantagens e as desvantagens da Alca não nos tiram a responsabilidade de fazer uma avaliação mais profunda. O governo e o setor privado têm de fazer essa lição de casa para saber onde ceder, onde teremos vantagens. Mas não podemos perder tempo, porque 2005 está aí. É depois de amanhã. Nosso trabalho é não deixar ninguém acomodado neste período de calmaria, para não nos sentarmos à mesa com receio, com temor e sem foco.

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