Alca não foi implodida, diz Bahadian

O diplomata brasileiro Adhemar Bahadian, em entrevista ao Jornal das Dez, da Globo News, esclareceu que suas palavras, no seminário sobre a Alca, na Câmara dos Deputados, não devem ser entendidas como um ultimato aos Estados Unidos em relação à criação da Área de Livre Comércio das Américas. Explicou que o termo "ambicioso", que utilizou em seu discurso no seminário, na realidade não revela o que está em discussão. Disse que a agenda das negociações é ampla e complicada, mas que em nenhum momento o Brasil considerou a possibilidade de rompê-las. "O que está ocorrendo é que os Estados Unidos consideram que há temas sistêmicos que só podem ser negociados na Organização Mundial de Comércio. Ocorre que são, exatamente, temas de grande interesse para o Brasil, como os subsídios agrícolas que incidem diretamente sobre a nossa capacidade de exportar para o mercado americano."Dificuldades reaisBadahian, que ocupa a co-presidência da Alca, juntamente com o representante de Washington, não acha correta a interpretação de que, com os discursos de ontem no seminário, a possibilidade de um acordo entre os dois países ficou mais distante. "Acho até o contrário, pois estamos colocando claramente para a sociedade brasileira, e também para a sociedade americana, as reais dificuldades em que nós nos encontramos, e mostrando que desta forma (como vêm ocorrendo as negociações) nós vamos chegar ao impasse". O diplomata brasileiro contestou, em seguida, que tenha comparado a Alca a um transatlântico em direção a um iceberg.Atitude de cautelaEle disse que já as negociações já duram seis anos e que não é fácil mudar o contencioso. Explicou que a aparente subida de tom, por parte do Brasil, na realidade é um atitude de cautela. "Nós não queremos que a reunião ministerial de Miami (daqui a três semanas) seja um fracasso, o que não interessa, nem aos Estados Unidos e nem ao Brasil."Possibilidade de choqueAdhemar Bahadian acentuou a responsabilidade que tem a Nação brasileira de negociar o que é melhor para ela. "Nós não estamos querendo nos bater contra os Estados Unidos. Nós estamos querendo chegar a um acordo possível no momento. Vamos bater se não fizermos o acordo, isso é que é importante saber. A possibilidade de bater existe hoje, mas ela pode ser transformada se houver o bom senso entre as duas co-presidênciais e, neste momento, terem a devida coragem - e isso exige uma certa coragem - de transformar a arquitetura da Alca. Se você tirar da Alca o que os americanos querem tirar, e nós estamos de acordo com eles, e o que o Brasil quer tirar, você provavelmente poderá, no ano de 2004, ter negociações muito interessantes, muito produtivas, e com uma Alca com bastante peso específico."O peso da AlcaPara o diplomata brasileiro, não se trata de esvaziar a Alca, a chamada "Alca light", pois a entidade terá bastante peso se ficar como o pretendido pelo governo Lula. "Eu tenho quase certeza que, na hora que as negociações começarem, em que você começar a colocar produtos no troca-troca normal de uma negociação, você vai ver que grandes setores industriais no Brasil também se preocuparão com o que poderá estar em jogo."A mais difícilSegundo Bahadian, as negociações sobre a Alca são as mais difíceis e complexas jamais enfrentadas pelo País. "A Alca não é uma coisa simples e não devemos ter este choque (com os EUA) se houver bom senso e responsabilidade. A proposta que o ministro Celso Amorim fez, através de mim, diretamente, ao co-presidente americano, é uma proposta flexível, e repito aqui as palavras do ministro: ´Nós não queremos impor nada aos outros, mas também não queremos que eles nos imponham coisas que nós não podemos negociar."O que está em jogoPara o representante brasileiro, está em jogo uma série de coisas, como a questão das compras governamentais. Explicou que, hoje, não há regras internacionais sobre isso. "Compras governamentais incluem, desde uma plataforma para a Petrobra até carteiras para alunos de escolas públicas. No momento em que você impõe essa obrigatoriedade para um país como o Brasil, ou seja, ter de fazer licitações em todas as compras internacionais, você perde uma capacidade muito grande de política de desenvolvimento, de política industrial, a troco de nada. Nós não temos por que fazer esse tipo de coisa, não há razão para isso.InvestimentoBahadian citou que também a questão dos investimentos está em jogo. Disse que a legislação brasileira é transparente neste ponto. "O investidor, qualquer que ele seja, vive muito bem no Brasil. Nossas leis funcionam muito bem, e qual é a proposta de investimento da Alca? É que o investidor possa, no caso de um conflito, seja com uma empresa seja com o Estado, ter o direito de recorrer a um tribunal arbitral, passando por cima de toda a legislação do País. Nós não podemos, obviamente, aceitar uma coisa dessa, inclusive porque não há parâmetros internacionais que nos obriguem a isso."ConclusãoE o negociador brasileiro concluiu: "Nós não queremos bater contra os americanos. Nós queremos chegar a um acordo, fazer com que a Alca seja possível e que a sociedade, como o próprio presidente Lula disse: nós temos de buscar uma negociação sem medo e chegar a uma Alca justa e equilibrada. Eu espero encontrar com vocês de novo, depois de Miami."

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