Aldeias, castelos e palácios à mão de simples mortais

Não precisa ser europeu para comprar um imóvel, reforça um agente imobiliário; grandes propriedades vão de 60 mil euros a 3,5 milhões de euros

GIRONA, ESPANHA, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2013 | 02h14

"O brasileiro que chegar aqui com dinheiro leva um aldeia inteira se quiser." A frase não é apenas uma maneira exagerada de um vendedor em busca de compradores, mas realidade que hoje vive parte da Espanha.

A crise, o abandono e o êxodo de uma população inteira em direção às grandes cidades deixaram cerca de 3 mil aldeias abandonadas por todo o país, um dos mais afetados na Europa. Agora, com um mercado doméstico asfixiado pelos cortes de salários, os preços de verdadeiras obras de arte despencam e aldeias inteiras podem ser compradas por uma fração do que chegaram a valer.

"Esse é o momento de comprar", disse Rafael Canales, agente imobiliário especializado em aldeias, castelos e palácios que, em seu tempo, eram mansões da elite. Conhecido como "o vendedor de aldeias", Canales insiste que nunca viu tanta facilidade e um preço tão baixo por propriedades que incluem pequenos povoados.

"Os preços estão em seu momento mais baixo em décadas. Por 60 mil, uma pessoa pode hoje levar uma aldeia inteira", declarou. Sua agência administra cerca de 80 imóveis e aldeias à venda. "São pérolas que, por conta do tempo, das mudanças e da crise, estão hoje abandonadas."

Canales confirma que tem sido procurado especialmente por estrangeiros. Segundo o agente, 70% dos compradores vêm de fora do país e, cada vez mais, tem recebido pedidos e consultas de brasileiros. "Hoje, são os estrangeiros que estão repovoando algumas das regiões abandonadas na Espanha", disse. Ele garante que, mesmo não sendo um europeu, um comprador terá "tapete vermelho" se quiser comprar uma aldeia.

"Basta chegar com dinheiro. Hoje, por 800 mil pode-se comprar um palácio na Galícia", declarou. Ele admite que muitos dos povoados precisam passar por ampla reforma. Mas conta como arquitetos do Canadá e profissionais de diversos países têm apostado em adquirir essas casas por conta do preço.

Canales também oferece produtos mais caros. Por 3,5 milhões, o comprador leva um povoado em Igualada, na região de Barcelona. São 500 hectares, nove casas, 14 armazéns e até uma igreja.

Nas proximidades de Girona, o Estado visitou um castelo do século 11 ao lado de casarões e ruelas. Todo o conjunto está sendo vendido. A aldeia fica no município de Arenys d'Empordà. Nos 15 mil metros quadrados de terreno, Canales admite que muito trabalho precisa ser feito. Mas, como bom vendedor, garante que o negócio compensa. Muitos desses locais estão sendo transformados por estrangeiros em hotéis de luxo, casas que são vendidas para milionários e mesmo escolas.

'Salvação'. Para os municípios, as vendas estão sendo a salvação. Muitos estão quebrados e ainda sendo obrigados a reduzir seus investimentos. Em 2012, a dívida dos municípios espanhóis atingia 17 bilhões. Só Madri acumulava um buraco de 7,5 bilhões. Mas é para as pequenas cidades que o peso é maior.

A venda de aldeias, castelos e igrejas, portanto, permite tirar das costas patrimônios que deveriam ser administradas por esses governos que torcem pela chegada dos novos moradores ou pela transformação desses locais em hotéis e uma nova fonte de impostos seja criada. / J.C.

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