Bento Nociti/Banco Central do Brasil - 15/09/2015
Bento Nociti/Banco Central do Brasil - 15/09/2015

'É mais factível trazer a inflação para a meta em 2024', diz Aldo Mendes, ex-diretor do BC

Em entrevista, o economista afirma que levar a inflação para a meta não depende só da política de juros do BC neste ano, mas também do Legislativo e do presidente eleito para governar a partir de 2023

Entrevista com

Aldo Mendes, economista e ex-diretor do Banco Central

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2022 | 19h16

O economista Aldo Mendes, ex-diretor do Banco Central (BC), vê um cenário complicado para a inflação brasileira neste ano, que, na sua avaliação, poderá beirar 10%. Fatores externos incontroláveis, a reativação de mecanismos de indexação e as expectativas domésticas deterioradas por conta do quadro eleitoral e da própria atividade são fatores que devem continuar  pressionando os preços.

Mesmo com o forte aperto na taxa básica de juros, a Selic, que deve chegar a 14% ao final do ciclo de alta, Mendes acredita que será factível trazer a inflação para a meta (3%) em 2024.

Na sua opinião, atingir esse objetivo não depende só da política apertada de juros empreendida pelo BC neste ano, mas também da postura do novo presidente da República, empossado a partir de 2023.  “Seja lá quem for eleito, ele tem que dar, logo no começo, uma mensagem muito clara que pretende readequar a questão das finanças públicas e retomar o controle sobre o Orçamento, que hoje, em grande parte está na mão do Legislativo.” A seguir os principais trechos da entrevista.

Como o sr. vê a inflação brasileira hoje?

Não se trata de um processo simples, mas intrincado. Tem um componente importado, por conta da guerra (entre Rússia e Ucrânia) e da desarticulação da oferta em virtude da pandemia. Há um componente inercial de indexação ou da memória inflacionária, muito característico do Brasil. E um componente de expectativas internas por um conjunto de fatores, seja de política ou de expectativa econômica, que faz com que alguns agentes comecem a fazer remarcações preventivas (de preço) por causa da incerteza à frente.

A inflação está descontrolada?

Acho que ainda não. Mas é um quadro que gera muita preocupação.

Por quê?

Hoje temos um único instrumento que está sendo utilizado para lidar com esse quadro, que é o aumento de juros, que é a política monetária executada pelo Banco Central. Ele está sozinho nessa cruzada. O governo está muito envolvido na campanha eleitoral e o Orçamento está sendo usado. O pior é que há uma falsa ilusão monetária pelo lado da receita do governo, onde a inflação está fazendo com que se arrecade mais.

Como assim?

Os preços aumentam e muitos impostos são baseados em preços das mercadorias vendidas. Isso, no curto prazo, aumenta a arrecadação. Essa ilusão monetária pelo lado da receita virou quase uma licença para gastar e está se gastando com uma cabeça eleitoreira. Mas, é óbvio que, lá na frente, o gasto do governo vai aumentar também por conta da própria inflação.

Qual é a sua expectativa de inflação para este ano?

Acima de 8%, perigando chegar a 10%. Corremos esse risco porque temos um componente estrangeiro (na inflação) que não controlamos, um componente fiscal que está solto e flutuando em torno da uma questão eleitoral. Também tem o componente da realimentação dos preços.

 

 

Até onde o Banco Central deve subir os juros para conter a inflação?

Olhando os núcleos, (da inflação) vemos que a alta de preços é razoavelmente generalizada. Corremos o risco de terminar esse ciclo alta de juros com a Selic perto de 14%.

Quando a inflação voltará para a meta?

Esse é o segundo grande desafio do BC: tentar trazer as expectativas de volta para a meta. Em 2022, a gente está fora e, em 2023, estamos correndo um sério risco. 

É factível voltar para a meta em 2023?

Acho mais factível trazer a inflação para a meta em 2024, mas é preciso começar esse trabalho em 2023. O trabalho tem que ser muito forte no sentido de recoordenar as expectativas. Isso vai depender muito do tom do novo governo que teremos a partir do ano que vem. Seja lá quem for eleito, ele tem que dar, logo no começo, uma mensagem muito clara que pretende readequar a questão das finanças públicas, retomar o controle sobre o orçamento, que hoje, em grande parte está na mão do Legislativo. Isso evidentemente não é fácil do ponto de vista político, mas tem que ser feito. Se conseguirmos jogar forte com as expectativas inflacionárias a partir de 2023, retomando o controle do orçamento, estabilizando a relação dívida/PIB, passaremos a ter algo mais racional do ponto de vista do gasto público. Com isso, certamente a gente melhora as expectativas em 2023 e a possibilidade de o Banco Central ancorar (a inflação) em 2024.

O aperto monetário iniciado pelo banco central dos Estados Unidos, o Fed, tem impacto na inflação brasileira?

A alta dos juros nos Estados Unidos pode impactar a inflação brasileira, principalmente pelo câmbio. Quando os juros sobem nos EUA, o dólar se fortalece. Certamente o real sofre em relação a isso. Esse é mais um motivo para que o Banco Central aumente os juros aqui dentro.

Qual é o impacto na atividade de uma Selic que pode chegar a 14% frente uma inflação que pode atingir 10%?

Se, hipoteticamente, a taxa de juros em termos reais for de 4%, é uma notícia ruim para a economia real. No curto prazo, a atividade esfria. Mas se conseguirmos gerar a expectativa de que a inflação será controlada lá na frente, haverá condições melhores até para o crescimento. Paga-se um preço no curto prazo, a atividade esfria, a inflação é controlada. Mas gera-se um ambiente propício para o futuro, com o investimento nacional e estrangeiro voltando. Supondo uma taxa real de juros no Brasil de 4% ou qualquer valor igual, maior ou que seja o dobro da taxa de juros real dos Estados Unidos, é possível atrair capitais de volta ao País, isso se conseguirmos ter um ambiente confiável. Não faltam setores para investir no Brasil. Mas tem que haver confiança. E confiança depende de estabilidade das regras e previsibilidade.

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