Além deste PIB
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Além deste PIB

Apesar do resultado positivo, os problemas e as incertezas à frente continuam grandes

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2022 | 19h15

Os resultados da atividade econômica do primeiro trimestre foram melhores do que vinha sendo esperado, mas não é para sair festejando porque os problemas e as incertezas à frente continuam grandes.

O Produto Interno Bruto (PIB) avançou 1,0% neste primeiro trimestre de 2022 em relação ao trimestre anterior. Esse desempenho é alguma coisa mais baixo em relação às projeções mais recentes, mas bem maior do que os especialistas esperaram no fim do ano passado, quando temeram pela recessão – perspectiva que se acentuou com o início da guerra na Ucrânia. O valor de tudo quanto foi produzido no Brasil no primeiro trimestre foi algo superior a R$ 2,2 trilhões.

 


É preciso ir devagar com as projeções para o resto do ano porque o crescimento do PIB está fortemente montado sobre o desempenho do setor de serviços, o mais castigado pela pandemia, que hoje corresponde a mais de 70% da economia. Indústria, agropecuária e mineração poderão enfrentar mais problemas.

Analistas de prestígio ainda falam mais de recessão neste 2022 do que de economia em crescimento. Mas as expectativas começam a melhorar, especialmente entre economistas-chefes de grandes bancos, que vêm cravando avanços do PIB brasileiro entre 1,5% e 1,8%.

As incertezas estão embaralhando as previsões. A crise do petróleo agravada pela guerra na Ucrânia pode abater a economia mundial e, com ela, a brasileira. Os fluxos de produção e distribuição estão sendo prejudicados pelos distúrbios produzidos pelo conflito. Já há notória crise alimentar pelos bloqueios aos fornecimentos de grãos pela Rússia e pela Ucrânia. Enquanto isso, os grandes bancos centrais seguem puxando pelos juros, operação que deve reduzir o crescimento global ou, até, provocar certa recessão. O único fator favorável nesse quadro externo é a retomada da atividade econômica da China, depois de alguns meses de reclusão geral para conter novo surto de covid-19.

Aqui, no Brasil, o desemprego afrouxou para 10,5% no trimestre encerrado em abril. Mas a inflação vai corroendo o poder aquisitivo à proporção de 12% em 12 meses. Esta é a principal razão pela qual não se pode contar com desempenho consistente do consumo e da indústria.

E há a incerteza ainda não mensurável da crise energética em curso, que pode agravar-se. Não há como saber até que ponto o risco de faltar óleo diesel aqui no Brasil poderá prejudicar a produção industrial e o escoamento das safras.

E tem o fator eleitoral/político. O presidente Jair Bolsonaro mostra grande aflição com o provável impacto negativo sobre sua candidatura a ser produzido pela quebra do poder aquisitivo e forte alta dos combustíveis no mercado interno. Sabe-se lá que desatinos econômicos poderá cometer para tentar reverter a provável rejeição do eleitor e, com isso, prejudicar o PIB do ano.  

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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