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Além do governo, Grupo Petersen também deve à Repsol

Por participação na petroleira, grupo argentino assumiu dívida com bancos e a Repsol, mas agora não há certeza de como o pagamento será realizado

Marina Guimarães, correspondente da Agência Estado,

24 de abril de 2012 | 17h22

BUENOS AIRES - Além de enfrentar dificuldades com o governo argentino para fixar "uma justa compensação" por sua saída da YPF, a Repsol, enfrenta outro problema: a dívida de seu sócio na petrolífera, o Grupo Petersen, da família argentina Eskenazi. Para comprar 14,9% das ações da Repsol, em 2008, o Grupo Petersen pagou US$ 100 milhões com recursos próprios e financiou US$ 1,108 bilhão com um pool de bancos formado pelo Credit Suisse, Goldman Sachs, BNP Paribas, e Banco Itaú Europa. Além disso, a Repsol concedeu um crédito à família no valor de US$ 1,015 bilhão.

Os números da operação constam dos documentos que as empresas apresentaram à Comissão Nacional de Valores e à Securities Exchange Commission (SEC, dos Estados Unidos), afirmou o ministro espanhol de Indústria da Espanha, José Manuel Soria. A operação teve a aprovação do ex-presidente Néstor Kirchner, que pressionou a Repsol para vender as ações ao grupo argentino porque queria "argentinizar" a maior petrolífera do país.

A segunda parte do acordo de aquisição para elevar a fatia do grupo argentino na petrolífera YPF de 14,9% para 25,46% foi realizada em 2011. O pacote adicional de ações foi fechado em US$ 1,4 bilhão, dos quais US$ 730 milhões financiados pela Repsol, e o restante pelo mesmo grupo de instituições financeiras que operaram na primeira etapa do acordo.

Desde 2008, os pagamentos destes empréstimos por parte do Grupo Petersen estavam atrelados aos lucros e dividendos da YPF. Para tanto, o contrato entre Repsol e o Grupo Petersen previa a distribuição de 90% dos lucros e dividendos. Isso ocorreu até novembro do ano passado, quando o governo decidiu frear a saída de dólares do país, e colocar uma lupa na remessa de lucros das empresas em geral. Com a nacionalização da fatia de 51% da YPF, o governo já não vai permitir a distribuição de dividendos da companhia e vai usar esse dinheiro para aumentar a produção de combustíveis, segundo informou o vice- ministro de economia, Axel Kicillof.

As mudanças nas regras do jogo levantaram suspeitas sobre como o grupo argentino vai pagar a dívida aos bancos e à Repsol. O Grupo Petersen já emitiu um comunicado, há alguns dias, informando que vai honrar seu compromisso e continuará pagando a dívida com recursos próprios. Entretanto, relatório recente do BNP Paribas aos investidores, o banco colocava dúvida a capacidade dos Eskenazi de pagar essa dívida. Estimativas do mercado apontam que a dívida pendente dos Eskenazi é de entre US$ 2 a US$ 2,8 bilhões, sendo que US$ 1,5 bilhão com a Repsol e o restante com os bancos.

Vencimento

O Grupo Petersen, proprietário de 25,46% das ações da YPF na Argentina, enfrentará em 2012 apenas o vencimento de US$ 400 milhões com o pool de bancos que financiou recursos para a compra das ações da YPF. É grande a expectativa do mercado para saber como será o comportamento do grupo em relação a esse compromisso. Se não honrar o pagamento, a Repsol pode retomar o controle das ações da família Eskenazi, conforme prevê o acordo de compra. A cotação do papel na bolsa de Nova Iorque mostra que a petrolífera valeria cerca de US$ 5,5 bilhões. Somente no ano passado, os lucros da YPF chegaram a US$ 1,3 bilhão, dos quais US5$ 630 milhões foram remetidos à Espanha.

No final do ano passado, o secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, que controla as exportações e a saída de divisas do país, alertou a presidente Cristina Kirchner sobre o volume de quase US$ 10 bilhões em importação de combustíveis em 2011, e sobre as remessas volumosas da Repsol, segundo relatam fontes do mercado. "Não adianta eu fechar a torneira, se a Repsol leva mais de US$ 600 milhões e se temos que importar quase US$ 10 bilhões de combustíveis", teria dito Moreno à presidente, em novembro. A partir daí, começou a cruzada contra a Repsol.

Ao saírem da empresas, os Eskenazi e a Repsol deixaram a YPF com uma dívida de US$ 9 bilhões referentes a créditos para financiar o fluxo de capital da petrolífera, porque todos os dividendos eram enviados a Madri. Os Eskenazi são donos de bancos no interior do país, inclusive em Santa Cruz, província natal de Néstor Kirchner, e sempre foram aliados do casal Kirchner.

Enquanto as repercussões sobre a expropriação das ações da Repsol continuam dando voltas ao mundo, desde janeiro, os papéis da YPF já perderam 60% em Buenos Aires, e os da Repsol-YPF, 70% em Nova Iorque, segundo análise do consultor Jorge Fedio. "Será difícil uma recuperação porque a YPF não é mais a mesma, ela é administrada agora por diretores que não inspiram confiança - hoje é a raposa que cuida do galinheiro", afirmou.

Segundo Fedio, Julio De Vido "é um dos responsáveis diretos pela crise energética porque aprovou todos os acordos envolvendo a YPF, enquanto Axel Kicillof, como administrador das finanças da Aerolíneas Argentinas mostra sua falta de experiência", arrematou. Antes de ser nomeado para a secretaria de Política Econômica do Ministério de Economia, em dezembro, cargo que lhe dá o status de vice-ministro, Kicillof foi o diretor de Finanças da companhia área estatal. De Vido e Kicillof foram nomeados interventores da YPF logo após a decisão de Cristina de nacionalizar a empresa no 16 de abril. 

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