Além dos fundamentos

São em geral curiosas, digamos assim, as justificativas dos porta-vozes dos mercados de ativos para o vaivém das cotações, no cotidiano dos mercados. Essas explicações, raramente, explicam de fato o que está em jogo. Quando os mercados se agitam e as cotações passam por ciclos curtos de fortes altas ou fortes baixas, os motivos alegados para tais movimentos são ainda mais curiosos - e menos convincentes.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2015 | 02h04

Em momentos de instabilidade nos mercados de câmbio globais, as cotações do dólar ficam particularmente sensíveis no Brasil. É aí que o mercado brasileiros se torna vítima de justificativas que pouco ou nada justificam aquele determinado movimento. Não tem sido diferente no atual episódio de volatilidade no mercado cambial.

Desde o começo do ano, as cotações da moeda americana têm apontado para uma valorização do dólar, aqui e no exterior. Isso se deve às perspectivas de que o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, iniciasse, ainda no primeiro semestre, o processo de retomada das altas nas taxas de referência, em resposta à aceleração da economia local.

Em comparação com outras moedas, sobretudo de economias emergentes comparáveis com as do Brasil, o real, nesses primeiros três meses do ano, tem apresentado desvalorização mais intensa. O fato é justificado por analistas e porta-vozes do mercado pela situação de fragilidade dos chamados fundamentos da economia brasileira e pelo clima político conturbado, que dificulta a execução do programa de ajuste fiscal, base, por sua vez, da manutenção do "grau de investimento" concedido pelas classificadoras de risco para a nota de crédito brasileira.

Tudo isso é verdade incontestável. Ainda que, no médio prazo, as perspectivas sejam de melhora nas contas externas, até mesmo em razão das desvalorizações do real, os déficits em transações correntes e o perfil de seu financiamento são, no momento, desconfortáveis. Também é verdade que o ambiente político não se mostra favorável à negociação das medidas de corte nas despesas e de elevação da carga tributária contidas no programa de ajuste fiscal.

Não é, porém, nenhuma novidade que o real seja a moeda emergente com desvalorização mais acentuada na hora em que as moedas emergentes se desvalorizam em relação dólar. Destacar que o grau de desvalorização do real é o maior no conjunto das moedas emergentes é chover no molhado histórico e pode induzir a erro de interpretação porque nem tudo, nesses casos, se deve à situação estrutural de fragilidade da economia brasileira. Há um elemento - o grande volume de derivativos de câmbio, na BM&F, que é, surpreendentemente, o segundo maior do mundo, só perdendo para o negociado nos Estados Unidos - que confere farta liquidez ao pouco regulado mercado brasileiro dessa modalidade de aplicação cambial e justifica os movimentos mais intensos do real ante o dólar. Para cima e também para baixo.

Desde fins da semana passada, contudo, o quadro sofreu uma mudança significativa. Talvez temeroso de uma repetição dos efeitos desastrosos da retomada afoita da alta dos juros em 1937, que acabou estendendo a Grande Depressão até a entrada dos Estados Unidos na II Guerra, o Fed acena agora com o início das altas de juros um pouco mais à frente e, mais importante do que isso, em doses cautelosas e homeopáticas.

Isso fez o vento mudar no mercado cambial, revertendo, pelo menos por enquanto, a tendência de valorização do dólar mundo afora. Assim, sem qualquer alteração expressiva no grau de vulnerabilidade da economia brasileira ou nas dificuldades políticas para encaminhar o ajuste fiscal, e apesar da redução das intervenções do Banco Central, o real passou a ser, já nos últimos pregões, a moeda emergente com valorização mais intensa. Só mesmo algo além dos fundamentos para explicar o fenômeno.

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