Alemães ligam crise grega à unificação

Reprovação aos planos de socorro da União Europeia para a Grécia movia os protestos de 4 em cada 10 alemães

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2011 | 00h00

"Só não entendo por que não fazemos como os gregos", reclamou na última quinta-feira a recepcionista alemã Veronika Bastürk, 33 anos. Funcionária em tempo parcial de um restaurante rápido em Potsdamer Platz, mãe de um menino, casada com um taxista cujas jornadas de trabalho duram 12 horas, ela é uma entre uma legião de alemães insatisfeitos com os bilhões de euros "transferidos" dos países do norte da Europa para a "periferia" do bloco.

Para sustentar seus argumentos, Veronika repete informações nem sempre verdadeiras, mas bastante difundidas em Berlim. "Na Grécia, as estradas não têm pedágios e as escolas e os jardins de infância são totalmente gratuitos. As pessoas têm até 18 salários e os programas sociais chegam a ? 1 mil por mês", enumera. "Você chama isso de falência? Eu não chamo."

A reprovação de Veronika sobre os esforços para evitar a bancarrota da Grécia e do euro não é isolada, segundo a reportagem do Estado pôde constatar na capital. Durante boa parte dos últimos 18 meses, a maior parte da opinião pública da Alemanha não entendia as razões pelas quais o país deveria auxiliar, com seus impostos, a livrar o sul da Europa do aperto.

Pesquisa realizada pelo instituto Ifop há 10 dias indicou que 41% dos alemães ainda pensa dessa forma - uma percepção em queda em relação aos 76% de março de 2010 ou aos 59% de junho passado, mas ainda bastante presente no país.

Reunificação. São diversos os fatores elencados por cidadãos e analistas econômicos para explicar a rejeição. Dois, contudo, são mais recorrentes. O primeiro diz respeito a um trauma financeiro alemão: o custo da reunificação. Há exatos 20 anos Berlim realiza uma maciça transferência de recursos públicos do oeste para o leste, em busca do equilíbrio entre as "duas Alemanhas", o que até aqui não aconteceu como esperado.

No imaginário de parte do país, os quatro pacotes de salvamento à Grécia, Irlanda e Portugal - que totalizam ? 382 bilhões - são uma transferência de renda do norte da Europa, disciplinado, ao sul, visto como laxista pelo desregramento de suas contas.

Envelhecimento. O segundo aspecto tem a ver com o envelhecimento da população. Um estudo do Instituto de Pesquisa do Consumo (GfK) revelou em 2010 que 76% dos alemães temem que o Estado não consiga reembolsar seus credores, mesmo que a dívida do país, de cerca de 75% do PIB, esteja entre as menos ameaçadoras do continente.

Por trás desse receio, está o temor de que o governo não consiga sustentar os programas de bem-estar social, em especial o sistema de aposentadorias. Não é uma preocupação descabida, porque em 2010 o governo federal teve de encher os cofres das caixas de aposentadoria com ? 80,8 bilhões para suprir o déficit do setor. Mas a consequência do temor é uma cultura da economia que se espalhou pelo país: em média, 15% da renda dos alemães - uma das taxas mais elevadas do mundo - é poupada todos os meses, o que não estimula o consumo no mercado interno.

Soma-se a isso o fato de que a Alemanha é o país da União Europeia onde a massa salarial teve menos avanço nos últimos dez anos, segundo constatação do Escritório Federal de Estatísticas (Destatis). Em 2010, os salários brutos eram 21,8% maiores do que em 2000, enquanto o avanço do custo do trabalho foi de 18,9% - as taxas mais baixas entre os 21 países usados na comparação. No mesmo período, o avanço médio da renda foi de 35,5% e de 36,1% no custo do trabalho na União Europeia.

A conjunção desses fatores - a cultura da poupança interna e o achatamento salarial -, entretanto, não impediu que a Alemanha revertesse o impacto negativo da unificação na primeira década e obtivesse nos dez anos seguintes os melhores índices de crescimento do bloco.

Enquanto grandes potências da UE patinam, como Reino Unido, Itália e Espanha, o PIB alemão não crescerá menos de 2,5% em 2011, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). A conjuntura é tão favorável que a revista The Economist falou em "milagre alemão" para descrever suas estatísticas de crescimento, que se completam com um dos menores déficits da Europa: 3,3%.

Aperto salarial. A década de sucesso econômico, segundo especialistas, tem relação direta com o aperto na política salarial iniciado pelo ex-chanceler Gerhard Schröder. Em sua gestão, entre 1998 e 2005, o social-democrata limitou as despesas públicas e liberalizou o mercado de trabalho. O país não tem um salário mínimo nacional, mas isso não parece fazer tanta falta: entre 80 milhões de alemães, 18% vivem com renda abaixo de ? 800 por mês, considerado o limite de pobreza. Mas eles são contemplados por programas sociais que elevam a orçamento em mais ? 700, soma do auxílio-moradia e do programa nacional de renda mínima.

Em contrapartida, a moderação salarial permitiu ao país recobrar a competitividade perdida quando da reunificação. Hoje a indústria da Alemanha não depende da taxa de câmbio do euro, desfavorável em relação do dólar, para continuar exportando. O resultado prático é um excedente comercial de 7% do PIB, superior ao da China. O problema: grande parte desse sucesso é obtido com exportações para outros países da zona do euro, que vivem déficits sucessivos nas balanças comerciais.

Essa realidade fez com que os europeus do sul denunciassem a política salarial alemã e a falta de incentivos ao consumo como equivalente a uma "desvalorização competitiva" do câmbio. O modelo de desenvolvimento teria criado os desequilíbrios na UE, com a perda de competitividade de países de indústria frágil, como Grécia e Portugal, fator supostamente na origem da crise das dívidas soberanas na periferia do bloco.

Para alguns experts, a avaliação é pertinente, mas a maioria pensa como Christian Dreger, diretor do Departamento de Conjuntura do Instituto Econômico de Berlim (DIW), para quem as críticas são "totalmente injustificadas". Seu argumento é simples: não se pode recriminar um país por ser competitivo.

Recuperação dos salários. Consistente ou não, a crítica ganhou corpo desde 2010, quando o tema foi incorporado ao discurso da então ministra da Economia da França, Christine Lagarde, hoje diretora-geral do FMI. Desde então, a Alemanha de Angela Merkel deu início a uma política de recuperação do bolo salarial - uma alta de até 6% é "desejável", na opinião de Peter Bofinger, um dos cinco membros do Conselho Alemão de Experts em Economia, órgão que assessora a chancelaria.

Além disso, Merkel passou a conviver com questionamentos sobre sua postura dura em relação aos países em crise de dívidas, assim como por sua resistência a mecanismos para resistir à turbulência na Europa.

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