Alemanha 'ganha' 20 bi com a crise

Forte migração de investidores para títulos de dívida da Alemanha provocou redução na taxa de juros paga pelo governo nos dois últimos anos

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2011 | 03h05

Enquanto Grécia, Itália, Portugal, Irlanda e Espanha sofrem para financiar suas dívidas e entram em 2012 sem saber como vão honrar os compromissos financeiros, a crise fez pelo menos um ganhador: a Alemanha. Cálculos da entidade de pesquisas Re-Define e do Bundesbank, o BC alemão, apontam que o país economizou nos últimos dois anos cerca de 20 bilhões no financiamento de sua dívida, enquanto a Europa se afunda na crise e vê sua dívida explodir.

A pressão sobre a taxa de juros de países que emitiram papéis de seus Tesouros estourou nas últimas semanas. Na Itália, na sexta-feira, a taxa chegou a 8%, praticamente fechando as torneiras de crédito ao país.

Na Espanha, o primeiro-ministro eleito, Mariano Rajoy, confessou à chanceler Angela Merkel que, com 7% de juros sobre a dívida, seu governo não teria como se financiar. Por dia, o Tesouro espanhol estaria pagando quase 100 milhões em juros, valor praticamente proibitivo. Para 2012, precisaria encontrar recursos de 110 bilhões de euros.

Já a situação da Alemanha é bastante diferente. Diante da pressão sobre os demais países, o Tesouro em Berlim registrou na prática uma migração de investidores em direção aos bônus emitidos pelo Bundesbank, o que acabou possibilitando que a Alemanha reduzisse as taxas de juros sobre sua dívida.

Nos últimos dois anos, isso gerou uma economia de nada menos que 20 bilhões aos cofres alemães em relação aos juros que deveria ter pago para se financiar. Isso graças ao fluxo de investidores que abandonaram papéis de maior risco na Europa e migraram para apostas menos arriscadas, como a Alemanha.

"A demanda cada vez maior por papéis alemães foi gerada tanto pela crise financeira quanto pela crise do euro", afirmou a entidade de pesquisa em seu relatório. "Investidores migraram de ações de papéis de alta rentabilidade e papéis soberanos na zona do euro para papéis relativamente mais seguros da Alemanha." Em média, a taxa paga pelo Tesouro alemão caiu de mais de 4,5% em 2008 para 2% em 2011.

Esse cenário foi regra durante meses, salvo na quinta-feira, quando a Alemanha fracassou na captação de recursos ao emitir 6 bilhões. No mercado, o fato marcou o fim de uma época e a constatação de que a crise chegou finalmente à Alemanha.

Mas, até então, Berlim havia lucrado. Para a Re-Define, isso explica por que Merkel se opôs a usar o Banco Central Europeu (BCE) para ajudar a periferia europeia e reduzir a tensão no mercado de papéis soberanos.

Contágio. Se em termos financeiros a crise deu lucro aos cofres alemães, seu contágio começa a minar a postura da diplomacia de Berlim em relação ao bloco e o projeto de integração da Europa. Políticos e analistas alertam que Merkel está cada vez mais isolada em tentar impor sua visão de Europa, enquanto o projeto do euro é engolido pelas dúvidas e pelo mercado.

Berlim insiste nos programas de austeridade e orçamentos em dia. Mas os pacotes dos últimos dois anos só ampliaram a crise: 2011 terminará com a dívida do bloco atingindo 8,7 trilhões, 84% do PIB do bloco. Há dois anos, era inferior a 7 trilhões.

George Papandreou, derrubado do governo na Grécia há menos de um mês, considerou que a Alemanha fez "pouco e tarde demais" para salvar o euro. A atitude de Berlim tem irritado todo um continente e até retomado um sentimento antigermânico. Na Grécia, analistas, jornais e mesmo piadas de bar passaram a ter a Alemanha como alvo.

No resto do continente, o mesmo sentimento ganha força, sob o argumento de que Berlim se beneficiou da criação de um bloco e hoje se recusa a salvá-lo. "Precisamos de uma Alemanha europeia e não de uma Europa alemã", alertou Manuel Marin, ex-vice-presidente da Comissão Europeia.

Em Berlim, a percepção é outra. Basta ter as contas em dia para enfrentar a crise, o que os alemães fizeram por anos. O temor é de que a obrigação de resgatar países falidos incentive a irresponsabilidade em seus orçamentos. Outro temor de Merkel é de que seus eleitores a castiguem nas urnas por usar o dinheiro deles para financiar quem passou anos sem controle.

Já analistas da Re-Define alertam que, em termos contábeis, a realidade é que deixar o mercado nervoso permite que a Alemanha financie sua dívida de 86% do PIB aos menores custos desde a criação do euro.

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