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Alemanha lucra com sofrimento dos vizinhos

Em meio à crise, o governo alemão desfruta da vantagem de juros negativos sobre os títulos, desemprego baixo e exportações crescendo

STEFAN, SCHULTZ, DER SPIEGEL, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2012 | 03h05

Artigo

Seus vizinhos enfrentam dificuldades, mas a crise do euro criou condições que na realidade beneficiam a economia alemã. Não só o governo desfruta da vantagem dos juros negativos sobre os títulos, como o desemprego é baixo e as exportações crescem consideravelmente.

É o sonho de todo país devedor. Quando se pede um empréstimo, os bancos não só o concedem, como na realidade pagam ao tomador pelo seu patrocínio. Parece um conto de fadas, como se as leis da economia de mercado tivessem sido suspensas. No entanto, na segunda-feira, isso aconteceu de fato.

O devedor no caso foi o governo alemão, que tomou emprestados 3,9 bilhões (US$ 5 bilhões) pelos próximos seis meses ao juro inacreditável de -0,01%. A própria Agência das Finanças alemã ficou estupefata. "Isso nunca aconteceu antes", disse um porta-voz.

O Ministério de Finanças deve estar satisfeito. Nos últimos quatro anos, teve de pagar cerca de 1,8% em juros sobre estes títulos. Mas nos últimos tempos, até os juros sobre os títulos alemães com vencimento a prazos mais longos decresceram consideravelmente. O governo federal está economizando muito. Qual é o motivo desse benefício? Na crise atual do euro, a Alemanha é um dos poucos tomadores considerados um porto seguro. Muitos investidores prefeririam emprestar dinheiro ao governo a juros de pechincha em vez de correr o risco de sofrer prejuízos.

A metade da Europa sofre enquanto a Alemanha lucra

Outros países podem apenas fantasiar a respeito desta sorte desmedida.

A Itália atualmente está sendo forçada a pagar juros recordes de cerca de 7% a títulos do governo de dez anos porque os investidores não confiam no governo de Roma. Várias indagações continuam sendo feitas quanto à possibilidade de o primeiro-ministro Mario Monti reduzir uma dívida gigantesca de 1,9 trilhão sem asfixiar a economia.

Ao mesmo tempo, os rendimentos dos títulos em países estrangulados pela crise, como Espanha e Irlanda, subiram também consideravelmente.

Esta se tornou uma regra na crise do euro: enquanto vários países da zona do euro sofrem, a Alemanha lucra. A crise poderá frear o crescimento econômico alemão, mas há também mecanismos de salvamento que ajudam o país a lucrar à custa de outras nações. Enquanto uma grande catástrofe na zona do euro não se materializa, esses instrumentos permitem amortecer os efeitos da crise na Alemanha.

Uma recente projeção do Instituto de Pesquisa Econômica Ifo de Munique concluiu que, em 2012, as economias da França, Espanha, Itália, Bélgica, Grécia, Portugal e Chipre provavelmente encolherão. A economia alemã, por outro lado, ainda deverá crescer 0,4% este ano.

Entretanto, o desequilíbrio entre a Alemanha e muitos outros países da zona do euro é mais evidente no mercado de trabalho. Na zona do euro, o desemprego agora é em média 10,3%, mas na Alemanha o número caiu para 7,1% em 2011. No ano passado, havia menos de 3 milhões de desempregados registrados, de 82 milhões de habitantes na Alemanha. Em contraposição, o número de desempregados na Espanha atingiu recentemente 4,42 milhões, numa população de 45 milhões.

As empresas alemãs lucram com o euro fraco

Enquanto na Espanha se preparam protestos em massa por causa do elevado desemprego entre os jovens, a Alemanha é beneficiada pelo ingresso de novos profissionais especializados. Há um fluxo crescente de europeus do sul que se dirigem para o norte em busca de trabalho na próspera Alemanha. O número de imigrantes gregos subiu 84% no primeiro semestre de 2011, chegando a cerca de 4.100 pessoas, segundo o Departamento Federal de Estatística. O total de imigrantes cresceu 19% ano a ano no mesmo período, chegando a 435 mil.

Mas isso não é tudo. Indiretamente, a Alemanha também se beneficia com um simples sintoma da crise - o euro fraco, que caiu para cerca de US$ 1,27, o menor valor desde setembro de 2010.

Para as companhias alemãs, a desvalorização do euro funciona como uma espécie de amortecedor da crise. Embora reduza a demanda de produtos alemães na zona do euro, esta adquire apenas cerca de 40% das exportações do país. Mas para o resto do mundo, o euro fraco significa produtos alemães mais baratos, o que implica que são mais competitivos.

Na realidade, em novembro, as exportações alemãs cresceram 2,5% mês a mês , chegando a 94,9 bilhões. Em comparação com o mesmo período do ano anterior, as exportações cresceram impressionantes 8,3%. Apesar da crise, em 2011 as exportações como um todo superaram a marca histórica de um trilhão de euros, que não havia sido alcançada nem mesmo no ano do boom de 2008. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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