Alemanha luta contra a redução da população

País descobriu, no último censo, que havia perdido 1,5 milhão de habitantes; outros países europeus podem sofrer o mesmo problema

SUZANNE DALEY, NICHOLAS KULISH , THE NEW YORK TIMES, SONNEBERG, ALEMANHA, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2013 | 02h13

À primeira vista, Sonneberg, cidade da Alemanha central, com fileiras de casas grandes construídas quando ela era um bem-sucedido centro de fabricação de brinquedos, parece asseada e próspera. Mas Heiko Voigt, vice-prefeito, pode apontar dezenas de casas vagas que ele duvida que um dia serão vendidas.

A verdade é que a população alemã está encolhendo e cidades como esta estão trabalhando duro para ocultar o vazio. Voigt já supervisionou a demolição de 60 casas e 12 blocos de apartamentos, estrategicamente injetando espaços gramados em complexos que um dia foram densos. "Estamos tentando manter a boa aparência da cidade", disse.

Talvez não haja melhor lugar para se observar o impacto inicial da queda das taxas de fertilidade da Europa nas últimas décadas que a zona rural alemã, um problema com implicações assustadoras para a economia e a psique do Continente.

Em algumas áreas existem hoje quintais cobertos de mato, janelas fechadas com tábuas e preocupações com sistemas de esgoto demasiado vazios para funcionar corretamente. A força de trabalho está envelhecendo rapidamente, e linhas de montagem estão sendo redesenhadas para reduzir ao mínimo as exigências corporais dos trabalhadores.

Em seu censo mais recente, a Alemanha descobriu que havia perdido 1,5 milhão de habitantes. Segundo especialistas, em 2060 a população do país poderá ter encolhido outros 19%, para cerca de 66 milhões.

Os demógrafos dizem que um futuro parecido aguarda outros países europeus, e a questão se torna ainda mais urgente a cada dia na medida em que os problemas econômicos aparentemente intermináveis da Europa aceleram o declínio.

Atolados, porém, em bancos falidos e orçamentos minguantes, poucos estão em posição de fazer alguma coisa.

A Alemanha, contudo, uma ilha de prosperidade, está fazendo gastos pesados para encontrar saídas das previsões catastróficas, e parecia mais bem colocada para mostrar o caminho ao Continente. Por enquanto, apesar de gastar US$ 265 bilhões por ano em subsídios familiares, a Alemanha só conseguiu provar como isso será difícil. Isso, em parte, porque a solução está na reformulação de valores, costumes e atitudes num país que tem uma história complicada com a aceitação de imigrantes e onde mulheres trabalhadoras com filhos ainda são rotuladas como "mães de corvo", termo que em alemão conota negligência com os filhos.

Alternativas. Para a Alemanha evitar uma grande escassez de mão de obra, segundo especialistas, ela terá de encontrar maneiras de manter os trabalhadores idosos em seus empregos após décadas empurrando-os prematuramente para a aposentadoria, e terá de atrair imigrantes e fazê-los se sentir suficientemente bem-vindos para fazer sua vida aqui.

Precisará colocar mais mulheres na força de trabalho e, ao mesmo tempo, encorajá-las a ter mais filhos, mudança difícil para um país que glorifica de longa data a mãe dona de casa.

Restam poucas dúvidas sobre a urgência da crise para a Europa. Vários estudos recentes mostram que taxas de desemprego altas - acima de 50% entre jovens - em países como Grécia, Itália e Espanha, estão desestimulando ainda mais os jovens de ter filhos.

Segundo estudos da União Europeia, o total de nascimentos com vida em 31 países europeus caiu 3,5%, de 5,6 milhões para 5,4 milhões, entre 2008 e 2011. Em 1960, nasceram cerca de 7,5 milhões de crianças em 27 países europeus.

Antes mesmo dessas tendências serem detectadas, já se esperava o encolhimento de muitos países da Europa até 2060; alguns, como Letônia e Bulgária, ainda mais que a Alemanha. E a proporção de idosos se tornará onerosa. Há cerca de quatro trabalhadores para cada pensionista na UE. Em 2060, essa média cairá para dois, segundo um relatório da UE de 2012.

Alguns especialistas temem que a Alemanha já esperou demais para enfrentar o problema. Outros dizem, porém, que essa visão é excessivamente pessimista. Seja como for, na Alemanha a questão é crucial neste momento. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.