Alemanha teme pelo euro

"A chanceler alemã Angela Merkel caiu na armadilha grega", é a manchete da revista Der Spiegel. Qual a armadilha? Na sexta-feira, Atenas, absolutamente encrencada, pediu que o plano de salvamento da Grécia idealizado pela Europa e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) fosse ativado. Sem isso, a Grécia, endividada até os ossos, arriscava-se a falir.

, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2010 | 00h00

O plano prevê um empréstimo de 45 bilhões à Grécia. A Alemanha será a maior contribuinte ( 8,4 bilhões). Mas Merkel reluta em seguir adiante.

A Grécia, a seus olhos, é um poço sem fundo. É preciso ser louco para jogar euros num poço sem fundo. Guido Weserwelle, o ministro das Relações Exteriores, foi claro: "A Alemanha não dará um cheque em branco à Grécia". Merkel exige que a Grécia aplique um plano de austeridade radical.

Atenas já apertou as cravelhas e vai reduzir seu déficit em 4 pontos a partir de 2010. "Insuficiente", dizem os alemães. Mas o povo grego, sangrado até a morte, está nas ruas. A extrema direita e a extrema esquerda se refestelam. Atenas apertou o cinto de seus cidadãos até quase sufocá-los. Um furo a mais e será preciso escolher entre a síncope e a revolução.

Angela Merkel faz corpo mole. Ela está sob vigilância porque 70% dos alemães rejeitam dar dinheiro a um país que canta, dança, faz amor, a sesta e mente: a Grécia falsificou suas estatísticas para ingressar no esquema do euro.

Mesmo dentro do Partido Democrata-Cristão (CDU) da chanceler, algumas vozes propõem uma solução extrema: que a Grécia seja excluída da zona do euro. O chefe da bancada do CDU no Parlamento Europeu em Estrasburgo disse: "Atenas deve sair da zona do euro. Assim ela poderá desvalorizar sua moeda e voltar a ser competitiva adotando reformas estruturais sérias."

A chancelaria não vislumbra soluções tão radicais, percebendo o quanto a Europa está enfraquecida, fragilizada, tanto que o menor sopro de vento pode abalar a União Europeia e, em especial, sua moeda única. O euro, que deveria ser a sua joia, está prestes a se tornar o seu calvário e, talvez, a razão do seu fracasso.

A Alemanha, que foi um dos pilares históricos da Europa, não cessa de lamentar a perda do seu marco alemão. Ele era tão grande, tão forte, tão brilhante! Agora está contraindo a gripe "União Europeia".

E há ainda a questão da Grã-Bretanha. Dentro em breve, em 6 de maio, o Reino Unido terá suas eleições legislativas que lhe darão uma nova maioria e, sem dúvida, um novo governo.

Mesmo que o liberal-democrata Nick Gregg, um estranho na disputa que ameaça tanto seus adversários trabalhistas como conservadores, seja um "verdadeiro europeu", espécie em via de extinção na Grã-Bretanha, o próximo primeiro-ministro será provavelmente o conservador David Cameron, que utiliza o mais pedante dos sotaques de Oxford para falar mal do euro e da União Europeia.

O desastre grego chega, pois, no pior momento para a UE. E os especuladores financeiros, que não têm páreo quando se trata de farejar o bom cheiro da carniça, já estão à procura de outra presa depois da Grécia. Há alguns dias, já se notam aves negras traçando largos círculos sobre Portugal, como se pensassem que, após haver dilacerado e digerido a Grécia, elas teriam ali uma nova guloseima. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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