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Alemanha vai adotar salário-mínimo

Política de arrocho da renda foi a base do crescimento da competitividade do país nos últimos 15 anos e provocou queixas na UE

Andrei Netto, correspondente, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2013 | 02h17

PARIS - Um dos pilares da política econômica da Alemanha está prestes a mudar. Depois de 15 anos de arrocho na renda dos trabalhadores - uma estratégia para aumentar a competitividade da indústria -, a chanceler Angela Merkel anunciou ontem a criação de um salário mínimo no país.

A remuneração geral de base era uma reivindicação antiga dos demais países da União Europeia, que se queixavam do impacto que a baixa remuneração alemã causava nas exportações industriais de nações vizinhas.

 

O anúncio foi feito por Merkel durante discurso a empresários em Berlim e encerra meses de pressões, tanto da oposição interna quanto de Bruxelas e do governo da França. Merkel deixou claro o desconforto com a medida que terá de adotar. "Nós vamos decidir coisas que, considerado o meu programa de governo, eu não considero justas, entre as quais o salário mínimo generalizado", admitiu.

Segundo ela, a medida tem relação direta com as negociações para um governo de coalizão com os social-democratas do SPD, que resistem a se aliar à chanceler. Merkel venceu as eleições de 22 de setembro com 41,55% dos votos válidos, contra 25,74% do ex-ministro Peer Steinbrück, do SPD - mas até hoje não conseguiu formar uma maioria parlamentar. "Uma apreciação realista mostra que os social-democratas não vão concluir as negociações sem o salário mínimo", ponderou.

Demonstrando sintonia com a preocupação dos empresários, a chanceler garantiu que ela e seu partido, a União Cristã-Democrata (CDU), de centro-direita, farão o que for necessário para atenuar o impacto da medida sobre o mercado de trabalho, o desemprego e a competitividade do país.

O projeto ainda não tem data para virar lei nem valor da remuneração definido. A expectativa é de que chegue a € 8,50 por hora de trabalho - o valor chega a € 9,43 por hora na França, segunda potência do bloco. Um estudo realizado pelo Instituto Alemão para Pesquisa Econômica (DIW) indicou que o impacto sobre a economia vai aumentar em 35% o custo horário de 5,6 milhões de trabalhadores com salários mais baixos, em especial mulheres - 17% da população ativa. "Um salário mínimo de € 8,50 por hora prejudicará a economia alemã e destruirá um número considerável de empregos", disse Ferdinand Fitchner, economista do DIW.

No mesmo sentido, o Instituto Leibniz para Pesquisa Econômica (IFO), da Universidade de Munique, afirmou que a medida pode impedir a criação de 1 milhão de empregos, a maior parte na ex-Alemanha Oriental, onde a mão de obra é menos qualificada. Por outro lado, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) foi bem menos pessimista, ao estimar que € 8,50 por hora é "muito razoável" e terá efeito benéfico para a demanda interna e para a UE.

Nos últimos 15 anos, desde o governo do social-democrata Gerhard Schröder, sucessivos governos apertaram a margem de barganha dos sindicatos e, com isso, impediram um aumento maior da massa salarial na Alemanha, inaugurando um período de crescimento da competitividade da indústria, aumento das exportações e crescimento - para muitos, à custa dos parceiros europeus.

Ontem, a medida foi elogiada na França, que há três anos reclama do nível salarial alemão. "É um sinal de uma abordagem talvez mais cooperativa das políticas econômicas na Europa", afirmou o ministro de Finanças, Pierre Moscovici.

Dos 28 membros da União Europeia, 21 têm salário mínimo, segundo o Escritório Estatístico das Comunidades Europeias (Eurostat). O mais elevado é o de Luxemburgo: € 1.874,19.

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