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Alexis, Dilma e renúncia

Na Grécia, o primeiro-ministro Alexis Tsipras decidiu renunciar oito meses depois de eleito e convocar nova eleição para dentro de um mês, no qual ele próprio é o candidato favorito. Qual o sentido de sair e voltar? O propósito de Tsipras é provar a força e o apoio popular para seu projeto de tirar a Grécia da falência e cimentar respaldo político para enfrentar opositores no Parlamento e dentro de seu partido, que têm dificultado a aprovação de medidas para recuperar a economia. Na televisão ele definiu sua intenção: “Buscar um claro mandato para um governo forte”.

Suely Caldas, O Estado de S. Paulo

23 de agosto de 2015 | 08h45

No Brasil, a presidente Dilma Rousseff - como o grego, em oitavo mês de mandato - enfrenta a pior crise política vivida pelo País desde o fim da ditadura militar, que paralisa e debilita a economia e tem desafiado apoiadores e opositores a encontrarem uma saída que leve o Brasil ao reencontro da estabilidade política e da recuperação econômica. Com diferenças no plano econômico, Dilma e Tsipras vivem dilemas parecidos no plano político: ambos vêm de partidos da esquerda e precisam quebrar barreiras políticas (também ela no Congresso e no PT) para recolocar a economia nos trilhos e tirar seus países do atoleiro.

Na conversa que mantiveram na quinta-feira, em Brasília, Dilma revelou ter ouvido da chanceler da Alemanha, Angela Merkel, que: longe de ser um problema, a renúncia de Tsipras é a solução para a Grécia. Estaria Merkel sugerindo caminho igual para Dilma?

Nos últimos dias a política esquentou em Brasília e a economia esfriou no País. A presidente cobra dos brasileiros otimismo, mas como ser otimista com notícias que pioram a cada dia? Em um único dia, na quinta-feira, era vasta a lista: O IBC-BR do Banco Central despenca e projeta queda de 3% no PIB em 2015; a taxa de desemprego dispara de 6,9% em junho para 7,5% em julho, atingindo empregos com carteira assinada - entre os jovens de 18 a 24 anos a situação é pior, para eles, a taxa de desemprego subiu de 12,9% para 18,5% em um ano; a Bovespa atinge o menor patamar desde março de 2014; o governo socorre a indústria automobilística com R$ 14 bilhões de crédito subsidiado - além de ser um balde de gelo no já frágil ajuste fiscal, o favor às montadoras tira dinheiro do contribuinte e prejudica o conjunto da economia; já o ministro das Micro e Pequenas Empresas, Guilherme Afif Domingos, pede ao BNDES mais crédito ao setor que administra e recebe de volta “um ensurdecedor silêncio”; o preço do petróleo continua caindo e projeta recuar a US$ 15/barril em 2016, inviabilizando retirar o óleo do pré-sal; universidades públicas federais estão em greve e alunos não têm aulas há três meses - o Ciência sem Fronteiras acabou e o Fies minguou; à beira da falência, Estados querem aumentar impostos e subtrair dinheiro dos contribuintes, para reforçar seus cofres. A lista continua com o dólar e o euro em alta, mas vamos parar por aí.

Brasil e Grécia precisam caminhar rumo ao equilíbrio nas contas públicas, como condição básica para recuperar suas economias. Com uma diferença a nosso favor: o Brasil tem sua dívida externa controlada, embora na interna possa perder o título de bom pagador. Já a dívida da Grécia é externa - faliu e foi salva pelo Banco Central Europeu e por países da zona do euro, com socorro financeiro (o maior da Alemanha), que lhe deu fôlego para reorganizar a economia e readquirir capacidade para pagar dívidas. Com dor e sacrifício da população, mas desta vez - se a estratégia der certo - com um líder político disposto a fazer o que precisa ser feito, com o apoio popular, confiança dos credores e eleitores e esperança de um futuro melhor.

No Brasil, Dilma recorreu ao ministro Joaquim Levy para recuperar a confiança perdida de investidores, empresários e quem mais toca a economia, mas sua popularidade despencou com o País em frangalhos, desemprego, recessão - decorrentes de muitos erros de gestão - e confiança no chão. Crise política agravada e economia sem rumo, ela acabou perdendo o apoio e a credibilidade para tocar o País, gerando a sensação de um futuro incerto e sem esperança.

É JORNALISTA E PROFESSORA DE COMUNICAÇÃO DA PUC-RIO. E-MAIL: SUCALDAS@TERRA.COM.BR

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