Algodão de qualidade ganha mercado externo

Quando o agricultor Alberto Schlatter começou a plantar algodão na chapada do Sul, em Mato Grosso do Sul, seus vizinhos acharam que ele tinha ficado louco. "Todo mundo plantava soja, nunca tinham tentado o algodão - eles diziam que precisava de muito investimento, que a terra não servia e o preço da pluma era um lixo", conta Schlatter. Isso foi em 1988. Hoje, Schlatter e seus três filhos cultivam 5,5 mil hectares de algodão no município de Costa Rica, a 350 km de Campo Grande, com produtividade de 310 arrobas por hectare (nos Estados Unidos, o índice fica em torno de 160). No ano passado, os Schlatters ganharam o prêmio Abit de melhor fornecedor de pluma (algodão antes de passar pela fiação) para a indústria e chegaram a um faturamento de R$ 40 milhões. Agora, aos 70 anos, Schlatter se prepara para mais um desafio: quer exportar grande parte de sua produção. País importador de algodão durante grande parte da década de 90, o Brasil voltou a ter exportações significativas, impulsionadas pela produtividade do algodão altamente mecanizado que surgiu em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Bahia. O País vendeu 147 mil toneladas no ano passado para Índia, Europa, Indonésia e Tailândia. "O Brasil foi um tradicional exportador de algodão porcaria, mas estamos mostrando que nosso produto mudou, fruto de uma visão empresarial e de muita pesquisa em parceria com a Embrapa", diz o vice-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Adilton Sachet. Mas muitos produtores torcem o nariz para essa segunda aventura de Schlatter, a exportação. Os subsídios ao algodão americano e a supersafra chinesa estragaram a festa dos cotonicultores brasileiros no ano passado. O preço do algodão chegou à baixa histórica de US$ 0,35 por libra-peso em 2001. Com isso, os produtores reduziram a área plantada e neste ano a produção deve cair de 950 mil toneladas para 740 mil toneladas, com uma exportação de 100 mil. O Brasil deverá ter importações de 120 mil, superando as exportações. Blairo Maggi, o maior plantador de soja do Brasil, está entre os produtores que estão fugindo do algodão. Maggi reduziu sua lavoura de 8,5 mil hectares em 2001 para 2,5 mil este ano. "Algodão é muito complicado, demora para dar dinheiro, os preços estão deprimidos", diz Maggi. "O mercado externo é um patrimônio", persiste Schlatter. Com a exportação, os produtores pretendem fechar contratos futuros e fugir um pouco da volatilidade dos preços, além de conquistar compradores fiéis. Os contratos futuros de algodão ainda são muito raros, tudo é feito no boca-a-boca e o produtor tem de se contentar com o preço que consegue logo após a colheita. "A exportação aumenta o poder de barganha dos produtores, antes restritos ao mercado doméstico", diz Antônio Esteve, presidente da Associação Nacional de Exportadores de Algodão (Anea). Além disso, os agricultores querem se proteger da flutuação cambial - com parte da receita em dólar, eles garantem o pagamento de insumos e máquinas, atrelados à moeda americana. Ao insistir na exportação, Schlatter usa a experiência de quem vem participando da epopéia do algodão brasileiro. Ele foi criado no antigo modelo da cotonicultura, que dominava São Paulo e Paraná - pequenas propriedades familiares, colheita manual, com baixa produtividade e má qualidade. "No Paraná, colhi algodão com a mão durante 10 anos, os dedos sangravam porque a casca entrava nas unhas", lembra Schlatter. No fim dos anos 80, o algodão migrou para as propriedades de agricultura empresarial do Centro-Oeste. A cultura chegou no cerrado somente para servir de rotação para a soja, e acabou ficando, com uma lavoura altamente mecanizada e produtiva. Schlatter chegou ao cerrado em 1981, época de terra farta: um hectare no Paraná era trocado por 11 em Mato Grosso do Sul. Como todos os outros desbravadores da região, ele começou plantando soja e só depois se aventurou no algodão. "Não tem lugar no Brasil em que se fatura como no cerrado, basta olhar os carros das pessoas: nossos funcionários aqui têm carros cinco anos mais novos que os os produtores médios no Paraná", conta. TeimosiaMas algodão não é tarefa para amador. Reza o ditado que soja é cultura de preguiçoso, é só plantar e colher. Já o algodão é lavoura de teimoso, requer tecnologia e coragem. Para começar, exige um investimento três vezes superior. Máquinas caras, controle de qualidade, beneficiamento, tudo isso custa dinheiro. Schlatter, que não chegou a completar o primário, foi o primeiro a reconhecer a necessidade de modernização. Desembolsou sem dó R$ 2 milhões para comprar uma máquina Lummus de beneficiamento de algodão, das mais modernas. As colhedeiras de sua fazenda só faltam falar. Ao preço de R$ 650 mil, vêm equipadas com GPS, sensores que monitoram as quantidades colhidas, além de ar-condicionado. Uma máquina dessas equivale ao trabalho de 400 lavradores. Schlatter não está sozinho. Muitos produtores estão insistindo no algodão e fazendo altos investimentos. "Plantador de algodão é como a torcedor de time pequeno, sofre mas não desiste", diz José Pupin, dono da fazenda Marabá, em Campo Verde, Mato Grosso. Em sua propriedade, onde cultiva 6,3 mil hectares de algodão, ele está construindo uma hidrelétrica ao custo de R$ 5 milhões e comprou máquinas de beneficiamento por R$ 6 milhões. A SLC Agrícola, empresa que divide com o Grupo Maeda o título de maior produtor de algodão do Brasil, plantava 500 hectares de algodão em 1997. A área saltou para 22 mil hectares, em sete fazendas. O faturamento da SLC, que também cultiva soja e milho, é R$ 150 milhões. "É simples: gostamos de dinheiro, por isso queremos exportar", diz Álvaro Gonçalves, gerente da SLC. "Em ano de preço bom, o lucro é cinco vezes superior ao da soja."

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