JF Diorio/ESTADÃO
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Aliado da Odebrecht, banco suíço teve escritório clandestino em SP

Documentário da TV pública suíça revela os bastidores do esquema de lavagem de dinheiro da construtora

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

22 Novembro 2018 | 20h25
Atualizado 26 Novembro 2018 | 09h40

GENEBRA - Um banco suíço chegou a ter escritórios clandestinos em São Paulo para auxiliar a Odebrecht a lavar dinheiro e seus gerentes receberam propinas para garantir o esquema de pagamentos milionários de subornos da construtora pelo mundo. 

Isso é o que revela um documentário produzido pela TV pública da Suíça, RSI, e conduzida por Anna Bernasconi e Federico Franchini. A produção foi ao ar na noite desta quinta-feira,22, na Suíça e aponta para as irregularidades conduzidas pelo banco PKB, de Lugano.

A reportagem confirmou que o banco é alvo de um inquérito criminal, assim como um ex-diretor e um ex-funcionário. Pelo PKB passaram US$ 420 milhões dos US$ 440 milhões que a Odebrecht movimentou pela Suíça. 

No início do ano, o banco foi multado pela agência reguladora de Berna em US$ 1,3 milhão por seus problemas em lidar com os clientes brasileiros. Agora, o banco enfrenta um processo criminal. 

Falando de forma oculta, esse ex-funcionário insiste que foi ele quem pagou o preço pelo envolvimento com a Odebrecht, mas insinua que o banco sabia o que ocorria. “Não vamos ser ingênuos. O banco sabia de tudo”, disse o ex-funcionário, chamado apenas de “Victor” durante a transmissão. 

Em seu depoimento, ele confessa que tinha como função trazer clientes da América Latina. Mas insiste que não tinha como saber que o dinheiro da Odebrecht era de corrupção. “Impossível saber”, justifica, apontando que nunca houve suspeita. 

Segundo ele, a Odebrecht era “o cliente que todos queriam ter”. “Imagine uma empresa com receita de US$ 100 bilhões por ano. O banco estava muito satisfeito em ter clientes como eles”, disse. 

Questionado sobre o uso de codinomes por parte dos funcionários da Odebrecht que lidavam com as contas, o ex-funcionário do banco justificou que a medida ocorria por uma questão de “máxima segurança”. Mas ele admite que “todos no banco sabiam quem eram as pessoas”. “O código não existia para nós”, afirmou. 

O ex-funcionário também confirmou que aceitou pagamentos pessoais da Odebrecht em seu próprio benefício. “Sim, aceitei. Mas isso me custou muito mais”, lamentou.

Segundo ele, foi a Odebrecht quem o ofereceu dinheiro pelos serviços e ele teria resistido ao pagamento durante dois anos. Ele só acabou aceitando depois que seus superiores o autorizaram. “Se você trouxer clientes, faça o que quiser no Brasil. Isso não me interessa”, disse o ex-funcionário, citando seu chefe. 

Ele ainda apontou que decidiu dar parte do que ele recebia para Fernando Miggliacio, um dos chefes do Departamento de Operações Estruturadas da Odebrecht, uma espécie de divisão que se ocupava da corrupção. “Parecia muito para mim”, justificou. 

O banqueiro recebia 1% da movimentação. Mas garantiu que devolvia metade do que recebia e admitiu na transmissão que foi um “erro”. 

De acordo com a TV suíça, o ex-gerente do PKB lucrou US$ 1,5 milhão com o esquema. Nos emails trocados com a empresa brasileira, o mecanismo era chamado de "Clube Português de Genebra" e o dinheiro era enviado para Bahamas. 

Seu apartamento em Lugano também foi pago pela Odebrecht e hoje está confiscado pela Justiça.  

Fernando Migliaccio admitiu em sua delação premiada que chegou a pagar comissões para um gerente do PKB, Hector Duarte. No documentário, porém, o ex-funcionário do banco não tem seu nome revelado. 

Clandestino

O sistema de operação do banco suíço começou, segundo o ex-funcionário, graças aos contatos feitos pelo escritório do BGL em Montevideo. Seu chefe, Fernando Belhot, foi quem apresentou a Odebrecht ao banco.  

Mas o esquema também operava a partir de São Paulo. O banco, sem autorização das autoridades brasileiras, operava na clandestinidade.  Existia até mesmo um funcionário que recebia um salário “indireto” do banco. “O banco não tinha autorização para trabalhar”, admitiu o ex-funcionário. 

Segundo ele, a cúpula do banco sabia de local secreto usado por sete anos em São Paulo. Tratava-se da empresa Queluz, de onde os banqueiros suíços operavam.

Entre os clientes do PKB ainda estava o ex-diretor da Petrobrás, Paulo Roberto da Costa. Apesar de ter um cargo numa estatal, ele declarou uma renda de US$ 20 milhões ao banco, que o aceitou como cliente. No PKB, ele teve doze contas. 

“(Costa) era muito respeitado”, confessou o ex-funcionário. “Ele ia para Genebra e falava diretamente com os acionistas do banco”, completou. 

Um dos entrevistados no documentário é Rodrigo Janot, ex-procurador-geral. Para ele, é “impensável” que Costa possa ter justificado sua renda ao banco. “A circulação de tal volume de dinheiro não é justificável”, disse.

Outro entrevistado é Sérgio Moro, futuro ministro da Justiça. Ele apontou para as falhas no controle de contas na Suíça. “Criminosos em geral estão procurando paraísos. No passado, eram piratas quem procuravam portos reais”, disse. “Muitos desses criminosos tinham contas offshore em bancos suíços”, afirmou, numa referência a casos que ele já julgou. 

“Recebemos muita ajuda das autoridades suíças. Isso foi muito positivo. Mas, de outro lado, é possível que existiam brechas no sistema de combate à lavagem de dinheiro em alguns bancos suíços”, apontou.

Ele, durante a entrevista, ainda defendeu seu trabalho de juiz. “Sou só um juiz fazendo seu trabalho. Não posso virar as costas para evidências”, declarou. “O que ocorre fora das cortes, não acho que é minha responsabilidade”, disse.  

O documentário ainda traz uma entrevista com a ex-presidente Dilma Rousseff. Questionada se a corrupção havia sido infiltrada em seu governo, ela respondeu. “Acho que não infiltrou meu governo. Mas estava infiltrada no sistema por muito tempo. O que fizemos foi revelá-la”, disse. 

“Criamos as condições para lutar contra a corrupção em todos os níveis. A ironia é que isso se virou contra nós”, disse. 

Ela também ataca o sistema suíço. “Os principais corruptos desse país tem contas na Suíça. Por exemplo, Eduardo Cunha, que presidiu sobre meu processo de impeachment, o senador José Serra, Paolo Preto”, disse, numa referência ao ex-diretor da Dersa e suspeito de ser operador do PSDB. “Um dos grandes centros de lavagem de dinheiro é a Suíça”, declarou. 

Segundo ela, a “árvore da democracia está sendo corroída por dentro por parasitas”. Dilma ainda insiste que está “muito preocupada” diante do fato de a população estar pagando um preço alto. “A população hoje não tem um acesso de qualidade a nenhum serviço público”, completou.

Resposta

Em nota, a Odebrecht afirma que "continua colaborando com a Justiça e reafirma o seu compromisso de atuar com ética, integridade e transparência".

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