Aliados de Lula brigam pelo pré-sal

Candidatos à reeleição, Sérgio Cabral (RJ) e Eduardo Campos (PE) também tentam reforçar bases eleitorais

Luciana Nunes Leal, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

Dois governadores candidatos à reeleição e que estão entre os mais próximos aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva travam uma dura disputa pelos recursos do petróleo da camada do pré-sal, e não são movidos apenas pela contabilidade dos royalties. Na defesa dos interesses de seus Estados, Sérgio Cabral (PMDB), do Rio de Janeiro, e Eduardo Campos (PSB), de Pernambuco, levam também bandeiras políticas e partidárias, para as eleições de 2010.

No plano estadual, eles têm a oportunidade de reafirmar suas lideranças. Cabral luta para que o Rio e o Sudeste não percam receita no futuro. Campos quer que Pernambuco e o Nordeste passem a ganhar com a nova exploração. Independente do resultado final, deixam claras suas posições para correligionários e eleitores.

No plano nacional, PSB e PMDB discutem como vão se posicionar em relação à pré-candidata do PT à Presidência da República, a ministra Dilma Rousseff, e disputam a condição de parceiros preferenciais de Lula. Os socialistas vão optar entre o lançamento da candidatura do deputado Ciro Gomes (CE) a presidente e o apoio a Dilma já no primeiro turno. Eternamente dividido, o PMDB não dá garantias de coligação formal com o PT.

Quando decidiu quebrar o silêncio e anunciar que não aceitaria o "assalto" ao Rio de Janeiro na definição das regras do pré-sal, Sérgio Cabral procurou evitar que a aliança com o presidente Lula, um dos pontos que mais gosta de destacar em seu governo, se transformasse em motivo de desgaste.

O governador não queria parecer submisso ao presidente diante de um projeto prejudicial ao Estado, pois alterava as regras de distribuição dos royalties futuros e tirava recursos dos Estados produtores. Disse que o interesse do Rio de Janeiro está acima das afinidades partidárias, procurou a bancada fluminense, com quem sempre manteve uma relação distante, e comprou briga com os ministros de Minas e Energia, Edison Lobão, e da Comunicação Social, Franklin Martins.

Alguns aliados chegaram a se preocupar com a radicalização da posição de Cabral, mas ele sustentou que era preciso agir antes que o projeto chegasse ao Congresso. Conseguiu mudanças na proposta original, durante reunião com o presidente Lula da qual participaram também os governadores de São Paulo, José Serra (PSDB), e do Espírito Santo, Paulo Hartung (PMDB). Na semana passada, Cabral comemorou o fim da urgência na votação, inicialmente determinada pelo presidente.

Ex-senador, Cabral escalou os secretários de Fazenda, Joaquim Levy, e de Desenvolvimento, Júlio Bueno, como articuladores no Congresso. A estratégia do governador é adiar ao máximo a votação do projeto referente à distribuição dos royalties. Cabral espera que a discussão em torno dos outros pontos - como a capitalização da Petrobrás e a criação do Fundo Social - diminua a pressão sobre o Rio. "Há uma falsa dicotomia entre Nordeste e Sudeste. Essa briga interessa a político de quermesse. A União pode fazer o que quiser com os recursos que vai receber do pré-sal, defendo até que invista no Norte e no Nordeste. Só não vai tirar do Rio de Janeiro", reage Cabral.

Ex-deputado e ex-ministro do governo Lula, Eduardo Campos lançou-se porta-voz dos governadores nordestinos como resposta a Cabral e iniciou a campanha pela distribuição igualitária dos royalties entre todos os Estados. Agora, aposta no isolamento do governador do Rio. Campos deverá se reunir com Hartung nos próximos dias. Vai reforçar a posição de que não está contra os Estados produtores, mas que todos têm direito a uma fatia da nova riqueza, até porque o pré-sal está a 300 quilômetros da costa e a justificativa de pagamentos de royalties para compensação de danos ambientais aos produtores não se aplica neste caso. Campos, que preferia a permanência do regime de urgência, tem bom trânsito no Congresso, onde pretende ganhar apoio com o discurso do pré-sal como instrumento de redução das desigualdades entre o Nordeste pobre e o Sudeste rico.

"Querer insistir nesse modelo concentrador de riqueza não é mais possível. O Rio vai ter que fazer uma inflexão. Se não, vamos ganhar no voto", diz o deputado Maurício Rands (PT-PE), um dos aliados de Campos no esforço para alterar o projeto do governo no Congresso.

Embora não seja um Estado produtor, Pernambuco tem apostado no petróleo para impulsionar a economia. Ficará no Estado a primeira refinaria construída pela Petrobrás no Brasil desde os anos 70. Apesar das suspeitas de superfaturamento - apontadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e negadas pela estatal -, a refinaria Abreu e Lima terá investimentos de pelo menos US$ 10 bilhões, em parceria com a venezuelana PDVSA. Além disso, Pernambuco terá dois novos estaleiros para atender, entre outras, a indústria petrolífera.

Enquanto Cabral e Campos fazem o embate público, José Serra mantém distância do tema. Provável candidato do PSDB à Presidência, Serra quer evitar que qualquer crítica ao projeto do governo seja interpretada não como uma ação em defesa do Estado, mas como discurso para se contrapor à adversária Dilma, uma das responsáveis pela proposta.

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