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Um mundo surreal tomou o espaço do que deveria ser seguro, sereno e previsível

Ana Carla Abrão*, O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2018 | 04h00

Desde 1989, quando toda uma geração foi às urnas pela primeira vez para eleger democraticamente um presidente que, a cada eleição, sonhamos com um Brasil melhor. A cada quatro anos, invariavelmente, corações e mentes se enchem de esperança e um certo sentimento de urgência toma conta de todos, imaginando que algum daqueles candidatos vai, finalmente, nos fazer justiça e nos levar pelo caminho do desenvolvimento que, afinal, nos está reservado. Invade-nos a ideia de um novo recomeço, de uma proposta transformadora, de uma direção mais clara. É como se nosso potencial como nação se renovasse na esperança de que desta vez o Brasil acontecerá. Até mesmo em 2014, aquela triste eleição em que o País iniciou sua divisão, ainda havia um sentimento positivo, bastava apenas escolher alguém que nos levasse pela mão.

Esse sentimento se esvaiu em 2018. Perdemos o pé, abandonamos a esperança, nos esquecemos do potencial adormecido e transformamos a mágoa e o ódio nos principais motores de decisão. Valores se perderam, de um extremo a outro, o vale-tudo tomou conta. O limite do respeito às leis e às instituições vem sendo perigosamente avançado. Não interessa se o País vai retroceder ou não. Propostas perderam o sentido no meio de um mar de mágoas. E nesse conjunto de sentimentos negativos o que emerge são extremos, que nos racham como sociedade. Perdemos a civilidade, o senso de união, a força como nação.

O Brasil caiu em um buraco em que um mundo surreal, com frases, personagens e acontecimentos estranhos e incompreensíveis, tomou o espaço do que deveria ser seguro, sereno e previsível. Parecemos submergidos no País das Maravilhas de Lewis Carroll, onde nada faz sentido, com ameaças de cabeças cortadas, onde ninguém sabe nada e onde, atrasados, o tempo passa sem que consigamos encontrar a saída.

Mas o país das maravilhas que os brasileiros sempre sonharam é outro, não esse. Sonhamos com um país que enfrentaria as reformas necessárias e caminharia na direção do desenvolvimento econômico e da justiça social. Nesse país, uma reforma do Estado iria garantir oportunidades mais equilibradas para todos. A educação pública seria de qualidade, com professores melhor qualificados e mais bem remunerados – e avaliados com base no aprendizado dos seus alunos. A saúde pública garantiria aos mais pobres um atendimento digno e humano. A segurança poderia contar com investimentos e a inteligência ganharia a batalha contra o crime, evitando que tantos policiais morram e que famílias pobres percam seus filhos para o tráfico. Ou seja, nesse país, o Estado deixaria de reforçar a nossa vergonhosa desigualdade de renda e fomentaria e festejaria uma sociedade diversa e igualitária.

Nesse país, transformações profundas definiriam outra forma de gerir o dinheiro público, com equilíbrio, transparência, priorizando ações e políticas públicas que beneficiariam o cidadão. Nesse país, a busca pela justiça social seria imperativa e não se permitiria que o sistema de Previdência continuasse transferindo renda dos mais ricos para os mais pobres.

Nesse nosso país, uma reforma política iria encerrar o loteamento e o aparelhamento do Estado. Nele, as políticas de habitação deixariam de pertencer a partidos ditos progressistas e passariam a ser feitas visando o bem-estar dos mais pobres; as políticas de trabalho deixariam de ser desenhadas e executadas por grupos partidários que expropriam o trabalhador; a Câmara dos Deputados passaria a representar o povo e não interesses particulares e o presidente governaria com uma agenda de Estado, buscando o bem da nação e não tentando agradar a bancadas que buscam abocanhar partes cada vez maiores de um poder fragmentado e distorcido.

Há de haver tempo para recuperarmos esse sentimento e fugir desse mundo surreal e ilógico em que despencamos. Há de haver tempo para acordarmos desse pesadelo de desunião e nos concentrarmos na possibilidade de um futuro de prosperidade. Estamos a menos de 15 dias da eleição e acredito, genuinamente, que esse país poderia se ver resgatado por uma grande coalização reformista, que se uniria em torno de um programa voltado para o Brasil. E só para o Brasil.

*ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN. O ARTIGO REFLETEEXCLUSIVAMENTE A OPINIÃO DA COLUNISTA

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