'Alimentos é nossa grande aposta'

A compra da Etti por R$ 180 milhões foi só a primeira. O que a Bunge que é ser uma das maiores produtoras de alimentos do País Adalgiso Telles,

Entrevista com

LÍLIAN CUNHA, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2011 | 03h06

Na manhã do domingo dia 11 de dezembro, a Bunge Brasil confirmou a compra da Etti, divisão de alimentos da Hypermarcas, por R$ 180 milhões. Mas esse não é o único negócio no qual a Bunge tem interesse. A companhia que se concentrou em agronegócios, é, segundo fontes, uma das candidatas à aquisição da Marilan, de biscoitos, e da Yoki (leia texto abaixo). De fato, diz Adalgiso Telles, diretor de assuntos corporativos e sustentabilidade da Bunge Brasil, a Etti foi só a primeira de uma série de investimentos que a multinacional realizará nos próximos anos nessa área. O objetivo não é só aproveitar o crescimento da nova classe média e do mercado nacional. "É uma estratégia global. Queremos que a Bunge Brasil seja uma das maiores em alimentos processados para o mundo todo." A seguir, os principais trechos da entrevista:

No mercado, reclama-se muito que as margens são baixas no varejo de alimentos. Por que a Bunge quis investir nesse setor?

As margens são baixas mesmo. Mas estamos acostumados a isso. Somos uma empresa de commodities e sabemos trabalhar com margens achatadas. O segredo é ter grande escala, com uma boa distribuição e o uso eficiente dos ativos para operar na maior capacidade possível com o menor custo.

Por que uma fábrica de atomatados em Araçatuba (a Etti) interessa à Bunge?

A Etti tem 122 itens de produtos que vão de goiabada a pratos prontos, molho de tomate e sopas. É muito produto. A Bunge, por exemplo, tem na divisão de alimentos ao consumidor cerca de 100. Por isso vamos analisar todas essas linhas da Etti para ver quais oferecem mais retorno para operar na capacidade máxima. Alimentos para o consumidor é hoje nossa grande aposta. É uma atividade complementar ao agronegócio.

Complementa como?

Por exemplo: a soja. Se o mercado internacional está promissor, exportamos o grão ou o óleo. Caso o câmbio mude, direcionamos a soja para a cadeia de produção de alimentos no mercado interno, para vender em reais.

Assim, o negócio de alimentos ao consumidor parece meio secundário para Bunge, não?

Não. Esse é só um aspecto de uma estratégia bem maior. Houve uma época, na década de 90, em que a Bunge se questionou se alimentos ao consumidor era um negócio que tinha a ver com seu negócio principal. Hoje temos certeza que tem e estamos investindo nisso.

Que estratégia bem maior?

Em 2050, pelas projeções da FAO (a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), 70% da população mundial será urbana. Como vamos alimentar toda essa gente? Com agricultura eficiente. Mas, para isso, é preciso ter terras, clima e água. Onde, no mundo, temos hoje tudo isso? Na América Latina, mais precisamente no Brasil. A África sofre com problemas geopolíticos que inviabilizam essa atividade. Por isso o Brasil é chave. Hoje há 50 milhões de hectares livres para o plantio no País. Nenhum país do mundo apresenta isso que o Brasil tem. E a Bunge vai atuar tanto na agricultura quanto no processamento de alimentos. Será toda a cadeia: do campo para a mesa, como diz nosso "slogan".

No setor de alimentos, em que segmento vocês querem se concentrar?

Alimentos básicos, de primeira necessidade. Não vamos entrar em produtos muito elaborados.

A Yoki, de alimentos básicos, seria uma opção? E a Marilan?

Estamos abertos a todas as oportunidades.

Como é negociar com o Júnior, João Alves de Queiroz Filho, controlador da Hypermarcas?

Todo mundo diz que é difícil negociar com a Bunge, que a Bunge não cede. Não é bem isso. Somos uma empresa de commodities e em commodities qualquer centavo conta. Somos assim com qualquer coisa. E também usamos critérios técnicos para precificar um ativo, como o Ebitda, o peso da marca. Se a negociação não tiver esse perfil, não interessa.

diretor corporativo de comunicação e sustentabilidade da Bunge Brasil

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