DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Alimentos podem fechar o ano com deflação histórica

Oferta gerada por supersafra no campo deve fazer com que alimentação no domicílio registre decréscimo de até 4% nos preços

Maria Regina Silva e Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2017 | 15h11

A queda dos preços de alimentos tem surpreendido constantemente o mercado e já é o principal responsável pela queda nas projeções para inflação no ano, medido oficialmente pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

A expectativa de economistas ouvidos pela reportagem é que o conjunto de preços de alimentação no domicílio, que representa pouco mais de 16% da cesta de produtos e serviços usada para integrar o IPCA, termine 2017 no nível mais baixo desde o Plano Real. A oferta abundante por causa da safra inédita de grãos é o principal fator a empurrar os preços dos alimentos para baixo.

Depois de fechar com altas de 10,38% em 2015 e de 9,4% em 2016, o segmento de alimentação no domicílio deve terminar o ano no campo negativo, podendo ficar entre -3% e -4%, conforme os analistas. A última vez que foi registrada queda nessa categoria foi em 2006, de -0,13%, o resultado mais baixo da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 1994.

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Esse cenário contraria até mesmo a estimativa mais otimista do início do ano, que era de taxa positiva na faixa de 2%. Além da boa oferta de alimentos, o câmbio comportado também vem permitindo um cenário mais favorável para os preços alimentícios e, em magnitude menor, a recessão econômica e até mesmo a crise deflagrada pela JBS.

Para alguns, a queda esperada em alimentação no domicílio pode fazer o IPCA fechar este ano abaixo de 3%, que é a banda inferior da meta inflacionária (4,50%). Essa marca aquém de 3,00%, se confirmada, seria o menor nível desde 1998 (1,65%).

Essa forte deflação esperada para a categoria de alimentos em casa, que acumula -5,19% em 12 meses até agosto, deve produzir inércia para baixo nos outros preços da economia, diminuindo os riscos da política monetária seguir estimulativa por mais tempo.

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Como não descarta novas surpresas em Alimentação, o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otavio Souza Leal, vê bastante chance de a inflação terminar abaixo de 3,00% em 2017, embora sua projeção atual seja de 3,10%.

A estimativa do economista do ABC Brasil é de retração de 3,70% em alimentação no domicílio este ano, número que não tinha nas suas planilhas no começo do ano. "Pensando em um bom ano de alimentos, esperávamos anteriormente cerca de 3% de alta. Foi surpreendendo mais e mais até chegar nessa queda tão forte."

"Em quatro momentos ao longo do ano o mercado chegou a antecipar que haveria uma normalização dos preços, mas seguiu surpreendendo", lembra o economista João Fernandes, da Quantitas Asset Management, que prevê queda de 4% para o segmento.

Para o economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, a "inércia boa" trazida pela forte deflação de alimentos no IPCA acumulado em 12 meses deve perdurar nos outros preços da economia durante bastante tempo, puxando a inflação toda para baixo. "Sempre trabalhamos com a inércia maligna, com o Banco Central (BC) tendo que combater subindo juros", lembra. Agora, diz, o efeito baixista deve possibilitar a política monetária a permanecer "frouxa". "O BC vai poder manter a taxa de juros estimulativa por mais tempo."

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O próprio BC vem ressaltando que a dinâmica favorável dos alimentos "persiste até o momento", conforme retrata a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) deste mês. Segundo o Banco Central, "essa queda intensa dos preços de alimentos constitui uma substancial surpresa desinflacionária". Ainda de acordo com a ata, o recuo do grupo responde por parcela relevante da diferença entre as projeções de inflação para 2017 e a meta de 4,5%. Em 12 meses até agosto, o IPCA acumula 2,46%.

Conforme Fernandes, as dúvidas que ficam se dão em relação à intensidade e à duração do ciclo de queda da Selic. "Será que haverá normalização dos preços em 2018 ou a queda se estenderá?", questiona. A Quantitas já vê Selic caindo para 6,50% no ano que vem.

Caso continue sendo surpreendido, o economista Leonardo França Costa, da Rosenberg Associados, não descarta a possibilidade de a taxa de juro terminar 2018 aquém da estimativa atual de 7,00%, que também é esperada para o fim deste ano. "Só passamos a esperar recuo em alimentação no domicílio no meio do ano. Chegamos a esperar alta de cerca de 4%. Agora, estimamos queda de 3%. Será histórico", afirma, levando em consideração projeção de 2,80% para o IPCA em 2017.

Contudo, para o economista do Fibra, outras surpresas desinflacionárias dos alimentos não devem ter força para provocar cortes mais agressivos da Selic pelo BC. Na opinião de Oliveira, o hiato do produto, que deve se fechar ao longo do próximo ano, é o principal fator que o BC está monitorando. "Por mais que exista espaço de pressão baixista por mais tempo que o BC imagina, o hiato do produto se fechando nos próximos trimestres é muito importante", diz ele que estima 3,7% de alta do PIB em 2018 e 4,5% em 2019.

"A discussão agora não é mais se o juro vai atingir 7% no fim do ano, mas por quanto tempo a taxa será mantida nesse nível e para qual patamar vai subir quando começar o ciclo de alta. O grupo Alimentação não entra nessa discussão", completa Souza Leal.

Prato feito. A despeito da lista de alívio nos preços englobar uma gama de produtos, o arroz e o feijão são os mais lembrados pelos economistas. Depois de o feijão ficar mais caro 56,56% em 2016, só o do tipo carioca - um dos mais consumidos, acumula queda de quase 28% de janeiro a agosto deste ano. O arroz, que subiu 16,16% em 2016, já cai 8,58% neste ano até agosto. "Feijão, hortaliças e legumes, frutas e até mesmo as carnes estão caindo. É uma mistura de fatores: safra recorde, restrição orçamentária e os problemas da JBS após a delação dos seus empresários", afirma o economista da Rosenberg. 

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