Alimentos sobem em dose tripla nos países pobres

Inflação média em 12 meses é de 5,3% nos países ricos e de 14,3% nas nações em desenvolvimento

Márcia De Chiara, de O Estado de S. Paulo,

15 de junho de 2008 | 23h47

Os países pobres são os que pagam a maior parte da conta da inflação dos alimentos, hoje um dos principais problemas da economia global. A taxa média de inflação dos alimentos nos países emergentes acumulada em 12 meses é quase o triplo da média registrada em países ricos. E o estrago fica ainda maior nos países pobres porque a alimentação tem um peso muito grande no orçamento da população, apesar de vários emergentes serem grandes produtores de alimentos, como o Brasil.  Veja também:Entenda os principais índices de inflação  Entenda a crise dos alimentos   Isso é o que mostra com números um estudo da consultoria MB Associados, feito a partir de dados da FAO, órgão das Nações Unidas para alimentação. Enquanto a taxa média da inflação de alimentos acumulada em 12 meses até fevereiro numa amostra de 10 países ricos foi de 5,3%, a média registrada para 16 países pobres, na mesma base de comparação, atingiu 14,3%.  "O peso da inflação dos alimentos é maior nos países emergentes", observa Sergio Vale, economista-chefe da consultoria. Ele pondera que os cálculos feitos foram uma média aritmética simples e não levaram em conta importância de cada país no Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Apesar dos cálculos terem sido simplificados, a tendência é similar se houvesse ponderação. Entre os países emergentes, o Sri Lanka registrou a maior taxa de inflação de alimentos no período (25,6%), seguido pela China (23,3%) e o Quênia (24,6%). Nesse ranking, o Brasil ocupa a décima segunda posição, com 11,32% de elevação nos preços dos alimentos e peso de 21,9% da comida no orçamento familiar, segundo o indicador oficial de inflação, que é o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). No Sri Lanka, os alimentos representam 62% dos gastos da população; na China, 27,8% e no Quênia, 50,5%. No rol dos países ricos, a maior taxa acumulada de inflação dos alimentos no período de 12 meses até fevereiro foi a da Alemanha (7,4%), seguida pela Espanha (7,1%). Nesses países, a comida representa 10,4% e 21,9% do orçamento familiar, respectivamente. Nos Estados Unidos, a inflação dos alimentos no período foi de 5,1% e o gasto com comida no orçamento familiar é de 9,8%. Renda Além da disparada dos preços das commodities, o forte crescimento da renda nos países pobres registrado nos últimos anos impulsionou os gastos com alimentação, observa o economista. Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostram que o PIB dos países emergentes cresceu acima de 7% ao ano desde 2004, o dobrou da década de 90. Enquanto isso, o PIB dos países desenvolvidos cresceu abaixo de 3% ao ano. "O crescimento dos emergentes potencializou o problema da inflação. Tanto é que esses países estão com taxas de inflação razoavelmente fortes", observa Vale. A renda está crescendo vigorosamente e isso, em termos históricos, explica o aumento da inflação dos alimentos num ritmo maior nos emergentes que nos países desenvolvidos. Em 12 meses até maio deste ano, a inflação ao consumidor na China acumula alta de 7,7%. Só os alimentos subiram 19,9% no mesmo período. Se a alta da comida fosse expurgada do indicador, a inflação ao consumidor teria sido de apenas 1,7%, ressalta Vale. "Isso significa que são os alimentos que estão puxando para cima a inflação na China." Desde 2006, o que impulsionou a inflação chinesa foi a comida. A China, diz ele, é um país que investe muito e não tem sentido em falar em inflação de outros produtos. A taxa de investimento é 40% do PIB, destaca o economista. Entre os vilões da alta da inflação dos alimentos na China, ele aponta a soja e a carne de porco, ambos muito consumidos no país. Os preços desses dois itens subiram mais de 70% no período. Já nos países da zona do euro, a inflação total acumulada até abril foi de 3,3% e os alimentos subiram 5,4% no mesmo período, segundo dados do Banco Central Europeu. Excluídos alimentos e energia, a inflação da zona do euro foi de apenas 2,4% em 12 meses até abril. A variação dos preços dos alimentos supera a inflação geral e reflete a alta das commodities agrícolas. Mas, comparativamente aos países emergentes, a taxa é bem menor. Vale ressalta que esse movimento ocorre com mais intensidade nos emergentes devido ao ganho de renda. "A renda cresce e aumenta o consumo de alimentos e, conseqüentemente, há um impacto maior nos preços." Para Flávio Serrano, economista do BES Investimento, os emergentes também são mais afetados pela inflação elevada porque a maioria não tem sistemas mais consolidados de metas de inflação. "As estruturas não são tão perfeitas como nos países desenvolvidos, onde há estabilidade de preços e monitoramento das políticas de crédito e renda." Nem mesmo o fato de os emergentes serem grandes produtores de alimentos, como Argentina e Brasil, por exemplo, atenua o impacto da inflação das commodities nos índices de preços. "Os preços são globalizados e cotados no mercado internacional", lembra Serrano, acrescentado que, em vários casos, há influências do mercado local.

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