Marisa Cauduro/LCA Consultores - 1/10/2021
Fábio Romão, economista da LCA Consultores.  Marisa Cauduro/LCA Consultores - 1/10/2021

Alívio de preços será mais lento em 2022, diz economista Fábio Romão

Para Romão, alívio na alta das cotações internacionais de matérias-primas parece mais lento, mantendo a pressão por reajustes de preços

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2022 | 15h17

RIO - Com a alta de 0,58% no IPCA-15 de janeiro, informada nesta quarta-feira, 26, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a LCA Consultores elevou sua projeção para a inflação oficial de 2022 para 6,0% no fechamento do ano, ante a estimativa anterior de 5,5%.

Segundo Fábio Romão, economista da LCA, o alívio na alta das cotações internacionais de matérias-primas parece mais lento, mantendo a pressão por reajustes de preços. 

 

O IPCA-15 veio acima do que apontavam as projeções. O que chamou a atenção? 

Um destaque foi o aluguel (residencial). Embora tenha perdido a importância, o IGP-M (índice de preços calculado pela Fundação Getulio Vargas, comumente usado como referência para reajustes nos contratos de aluguel) ainda é preponderante. (A alta do aluguel no IPCA-15 de janeiro) É um claro reflexo da indexação, já que o IGP-M subiu bastante no ano passado, uma alta 17,8%. Outra coisa foram os serviços para automóveis. Apareceu também um reajuste na educação. Sazonalmente, esses reajustes têm mais força em fevereiro, mas teve um aumento importante de cursos diversos. Pode ser a anunciação de que esses reajustes vêm pesados em fevereiro.

Esses destaques negativos têm mais a ver com a normalização do funcionamento dos serviços ou com choques de oferta, como safra de grãos e cotação do petróleo?

São os choques e também o efeito da indexação, que são ligados. É um choque clássico de oferta. As expectativas em relação às “commodities” (matérias-primas com cotação internacional) para 2022 têm sido frustradas. O petróleo vai ficar acima do que se imaginava. Não estamos falando de um terceiro ano com altas extraordinárias de “commodities”, mas as projeções são bem menos alvissareiras.

Isso tem efeito no ano como um todo?

Estamos mudando a projeção de inflação. A projeção para o IPCA (de 2022) foi de 5,5% para 6,0%. Essa pressão maior que vem do atacado, que aparece no IGP-M, vai ter efeito.

Os choques de oferta são mais duradouros do que se imaginava?

A discussão é se é um novo choque ou se o alívio é aquém do que se imaginava. A resposta é a segunda opção. Vai ter um alívio, provavelmente, mas é mais lento do que se imaginava. Quando se olha para as “commodities”, temos novas pressões ou alívios menores para todos os lados. Os alimentos vão continuar aliviando, mas cheguei a ter deflação, de -1,0%, e passei para uma alta de 3,5% (nos preços agrícolas no atacado). Isso tem desdobramento na alimentação para o consumidor. Passamos (a projeção para) o IPCA para 6,0%, incorporando o recado importante desse IPCA-15 e olhando para o que está acontecendo com as “commodities”. Não estou vendo trevas, mas não é tão bom quanto se imaginava.

Se os choques de oferta preocupam mais, adianta o BC seguir subindo os juros, para segurar a demanda?

O ajuste (na taxa básica Selic, hoje em 9,25% ao ano) até agora não foi pouco. A política monetária é um remédio parcial para os choques de oferta. A queda de 18% nas passagens aéreas não é normal. Janeiro normalmente registra quedas, após as altas de dezembro, mas costumam ser de 5,0% ou 7,0%. O aluguel somos obrigados a pagar, mas as viagens, não. Então, o espaço para reajustes está um pouco menor em alguns serviços. O rendimento real está apanhando da inflação, os trabalhadores ainda estão afetados pela pandemia. Isso, evidentemente, de algum modo pode contribuir para mitigar algum reajuste naquela parte da inflação mais ligada à demanda. Aparentemente, esse ajuste na Selic parece já ser suficientemente forte, tendo em vista que sua eficácia é moderada.

Temos um quadro de estagflação então?

Sim, o IPCA acumulado em 12 meses deverá ficar em dois dígitos até maio, a menos que ocorra algo discricionário, como o governo antecipar a mudança na bandeira (taxa extra cobrada na conta de luz quando as usinas térmicas são acionadas) da energia elétrica ou a PEC dos combustíveis (ideia de Proposta de Emenda à Constituição que permitiria ao governo federal zerar os impostos sobre combustíveis sem um aumento de receita correspondente). É tirar coelho da cartola, de eficácia modesta, porque são muitas coisas (por trás da inflação). Mesmo esses coelhos da cartola não vão segurar muito. O que vai segurar, mais adiante, é um baixo crescimento (econômico), que não permite ou mitiga reajustes (de preços).

O dólar elevado agrava a persistência dos choques de oferta?

O câmbio é outra questão. As cotações elevadas das “commodities” poderiam ter o efeito de reduzir o dólar, mas as eleições jogam contra. 

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IPCA-15, prévia da inflação, desacelera em janeiro, mas mostra inflação disseminada

Indicador teve alta de 0,58% no mês, acima do previsto por economistas, mas menor do que no mês anterior; para especialistas redução reflete queda pontual da gasolina

Vinicius Neder, Cícero Cotrim, Marianna Gualter e Eduardo Laguna, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2022 | 09h45
Atualizado 26 de janeiro de 2022 | 21h37

RIO E SÃO PAULO - A inflação começou o ano com alta de 0,58% no IPCA-15, prévia do indicador oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), abaixo da alta de dezembro (0,78%), especialmente por que a gasolina e as passagens aéreas baratearam. O alívio já era esperado, mas, tido como pontual, foi menor do que se supunha, com reajustes de vários preços para além de gasolina e bilhetes de avião. A pesquisa do Projeções Broadcast com analistas apontava para uma alta ainda menor, de 0,45%.

Segundo economistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast, os números mostram inflação disseminada e pressionada e mantêm a perspectiva de continuidade na estratégia do Banco Central (BC) de subir os juros – a taxa básica Selic chegou, em dezembro, a 9,25% ao ano, saindo de 2,0% ao ano, em março de 2021. 

 

“O dado surpreendeu negativamente, a composição segue desfavorável e as surpresas negativas foram principalmente os serviços, com aluguel residencial, aluguel de veículo e combo de telefonia”, disse o economista João Savignon, da gestora de recursos Kínitro Capital.

Os preços dos serviços citados por Savignon aceleraram na passagem do IPCA-15 de dezembro para o de janeiro. O aluguel residencial foi de uma alta de 0,82% para 1,55%, o aluguel de veículo passou de -2,43% para 12,94% e combo de telefonia saiu de variação nula para alta de 3,04%. Outro serviço importante, a alimentação fora de casa, passou de ligeira alta de 0,08% no IPCA-15 de dezembro para um avanço de 0,81% em janeiro.

Os preços dos alimentos pressionaram também no consumo doméstico, para além de bares, restaurantes e lanchonetes. O grupo Alimentação e Bebidas subiu 0,97% no IPCA-15 de janeiro, taxa quase três vezes maior do que a registrada em dezembro (0,35%). Sozinho, o grupo contribuiu com 0,20 ponto porcentual (p.p.) na variação agregada do índice. Segundo o IBGE, os itens de maior impacto na inflação de alimentos foram a cebola (alta de 17,09%), as frutas (7,10%), o café moído (6,50%) e as carnes (1,15%)

Para a economista-chefe da corretora Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack, essa aceleração na inflação de alimentos também preocupa. “A gente já viu uma leitura preocupante de preços agropecuários nos IGPs (índices calculados pra Fundação Getulio Vargas, que incluem preços no atacado), e temos notícias de que a safra de grãos no Sul pode frustrar até 50% do que foi projetado”, disse Abdelmalack, numa referência aos efeitos da estiagem e do calor na produção agropecuária na região Sul.

O economista João Leal, da gestora Rio Bravo Investimentos, chamou a atenção ainda para o avanço nos preços dos bens industriais, que passaram de uma alta de 0,64% no IPCA-15 de dezembro para um avanço de 1,44% na leitura de janeiro.

“Neste começo de ano, vemos pressão de ‘commodities’ (as matérias-primas com cotação internacional) e também de bens industriais. Com avanço da (variante do novo coronavírus) Ômicron teremos uma piora na cadeia de suprimentos, ainda que transitória”, afirmou Leal, ponderando que, ao longo de 2022, a alta de juros e o arrefecimento esperado para as commodities devem fazer efeito nos preços.

As surpresas negativas falaram mais alto do que a desaceleração do IPCA-15 de janeiro ante dezembro porque ela “foi muito puxada por fatores que sabemos que não vão durar, ligados a combustíveis”, disse Savignon, da gestora Kínitro.

Após ser a vilã da inflação em 2021, a gasolina ficou 1,78% mais barata no IPCA-15 de janeiro. Sozinha, a gasolina teve impacto negativo de 0,12 ponto porcentual (p.p.) na variação agregada do índice. Outros combustíveis também ficaram mais baratos. O etanol recuou 3,89% na leitura de janeiro do IPCA-15, enquanto o gás natural veicular recuou 0,26%.

Os combustíveis tiveram a ajuda dos preços das passagens aéreas, que também puxaram a desaceleração do IPCA-15 em janeiro. Os bilhetes ficaram 18,21% mais baratos. Com isso, tiveram impacto negativo de 0,12 p.p. na variação agregada do índice, igual ao efeito da gasolina.

Apesar desses alívios, com serviços, alimentos e bens industriais ficando mais caros, economistas classificaram a inflação deste início de ano como disseminada. Leal, da Rio Bravo, calculou em cerca de 74% o índice de difusão, que mede a quantidade de preços em alta, como proporção do total de itens pesquisados.

A disseminação é um dos motivos citados para sustentar a aposta de que o BC seguirá aumentando os juros. Para Leal, os dados do IPCA-15 de janeiro não mudam a expectativa de mais um aumento de 1,5 ponto na Selic, na reunião de fevereiro do Comitê de Política Monetária (Copom). Abdelmalack, da Veedha Investimentos, aposta em alta da mesma magnitude.

Em palestra durante evento on-line da XP Investimentos, Samuel Pessôa, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV) e sócio da gestora Julius Baer Family Office, disse que, dada a disseminação da inflação, o BC poderá ser obrigado a elevar a Selic a um nível ainda mais elevado do que o esperado atualmente.

“Ainda acreditamos que a inflação vai cair para 5,5% neste ano, mas a composição pior talvez indique um ciclo monetário (de aumento dos juros) mais longo”, afirmou Pessôa.   

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