ALL é acusada de falhas na Argentina

Governo de Cristina Kirchner diz que ferrovias operadas pelo grupo brasileiro, que foram reestatizadas, sofreram 454 descarrilamentos

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2013 | 02h08

O governo da presidente Cristina Kirchner oficializou ontem a reestatização das ferrovias da América Latina Logística (ALL), por meio da resolução 469/13, publicada no 'Diário Oficial'. O anúncio havia sido realizado na terça-feira à noite pelo ministro do Interior e Transportes Florêncio Randazzo.

Poucas horas depois a ALL, com sede em Curitiba, emitiu um comunicado no qual ressaltava que vai recorrer à Justiça para reverter a decisão do governo argentino de anular a concessão. No entanto, Randazzo não se intimidou, e ontem respondeu em tom de desafio: "Se eles quiserem reclamar, que recorram às vias judiciárias".

O ministro também acusou a empresa de vários descarrilamentos nos últimos anos. Coincidentemente, na mesma noite do anúncio da reestatização, um trem da ALL carregado de pedras descarrilou nas proximidades da cidade de Palmira, na província de San Luis. A polícia local investigava ontem se o acidente havia ocorrido por um problema técnico ou se havia sido uma sabotagem.

O diretor da Auditoria-Geral da Nação (AGN), Leandro Despouy, afirmou ontem que entre 2007 e 2011 as linhas administradas pela ALL tiveram 454 descarrilamentos. Despouy também declarou que a ALL não investiu na reconstrução de locomotivas e na compra de vagões, contêineres, tratores e trailers.

Segundo ele, desde o início da concessão até outubro de 2012 a ALL acumulava dívidas de 237,48 milhões de pesos (US$ 45,5 milhões) com o Estado. O diretor da AGN diz que essa dívida supera em 866% a garantia de cumprimento do contrato.

Despouy também diz que "30% da frota de trens da concessão encontra-se sem possibilidades de uso por manutenção deficiente". Ele afirma que dos 5.246 vagões dados em concessão há uma década e meia, havia somente 3.654 em 2011. Das 143 locomotivas, restam 70.

Além disso, Despouy sustenta que a empresa não fez o total previsto de reparações pesadas dos trilhos, já que de 935 quilômetros apenas 162 quilômetros foram executados. "E este trecho, de forma parcial." O ministério do Interior e Transporte repassará as ferrovias para a Sociedade Belgrano Cargas e Logística S.A,, estatal criada em maio pela presidente Cristina.

Além da rescisão do contrato, a ALL pode ser levada à Justiça pelo governo Kirchner, já que o ministro Randazzo disse que a Secretaria de Transporte e a Comissão Nacional de Regulação do Transporte realizarão um inventário dos bens da concessão. Segundo Randazzo, o governo quer determinar a existência de eventuais danos ou prejuízos ao Estado argentino na concessão à ALL.

Apoios. Francisco Pérez, governador de Mendoza, onde estava a sede da ALL no país, festejou ontem a decisão da presidente, de quem é aliado: "Essa reestatização nos ajudará muito. É um divisor de águas na questão ferroviária argentina", Segundo ele, a reestatização possibilitará "um serviço eficiente".

Apesar da remoção da brasileira ALL da ferrovia, o governador afirma que a linha que chega até Mendoza, no sopé da Cordilheira dos Andes, na fronteira com o Chile, "poderia ser uma saída do Brasil para o Oceano Pacífico".

"La Fraternidad", o sindicato dos ferroviários, também comemorou a reestatização das linhas sob concessão. "O Estado argentino deveria reconstruir todo o sistema ferroviário do país", disse o porta-voz do sindicato, Horacio Caminos.

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