Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Alta das commodities pode gerar US$ 53 bilhões em exportações

Mesmo que a guerra tenha reforçado a tendência de desaceleração da economia global, o Brasil possui boas previsões com os novos preços das commodities

Eduardo Laguna, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2022 | 10h00

A escalada recente das commodities tem potencial de gerar um impulso extra de até US$ 53 bilhões às exportações brasileiras deste ano, ajudando a amortecer o impacto na economia do choque de oferta com a invasão russa à Ucrânia.

Mesmo que a guerra tenha reforçado a tendência de desaceleração da economia global, o Brasil, vendendo seus principais produtos ao exterior a cotações mais altas, não terá que aumentar muito o volume das exportações para renovar o recorde na balança comercial. Se as previsões refeitas nos últimos dias por economistas estiverem corretas, os novos preços das commodities podem colocar pela primeira vez acima dos US$ 70 bilhões o superávit comercial.

Após a diferença das exportações para as importações alcançar o recorde de mais de US$ 61 bilhões no ano passado, 2022 começou com a perspectiva de menor tração do comércio internacional em razão da retirada dos estímulos monetários e fiscais lançados na pandemia para socorrer a economia global. Economistas passaram, porém, a revisar para cima projeções de balança comercial depois que os bombardeios na Ucrânia, com as consequentes sanções contra a Rússia, apertaram ainda mais a oferta global de commodities.

Ainda que o Brasil também tenha que pagar mais caro a partir de agora pelos produtos que traz do exterior, a avaliação é de que o saldo final será positivo, já que o País mais exporta do que importa. Mais de 70% das exportações brasileiras são commodities, conforme cálculo do Credit Suisse. Joga ainda a favor do País o fato de seu principal mercado no exterior, a China, ser uma economia que, ao contrário da maior parte do mundo, segue contando com estímulos.

Ao atualizar o cenário neste mês, o departamento de pesquisas e estudos econômicos do Bradesco elevou de US$ 286 bilhões para US$ 339 bilhões a expectativa às exportações deste ano. Ou seja, US$ 53 bilhões entraram na conta na esteira dos efeitos da guerra, um evento até então fora do radar.

Na XP Investimentos, a previsão de exportações subiu de US$ 299,5 bilhões para US$ 324,4 bilhões, uma diferença de US$ 24,9 bilhões. Já os economistas do Itaú Unibanco subiram de US$ 67 bilhões para US$ 74 bilhões a expectativa de superávit comercial.

O impulso ao comércio, e os investimentos decorrentes, pode não ser suficiente para anular por completo os estragos, de dimensão incerta, da crise no leste europeu no Brasil, sendo o primeiro deles a puxada na inflação, que contrata mais juros e condições financeiras mais restritivas. É de se esperar, no entanto, uma melhora das contas externas, onde o déficit das transações correntes com o exterior pode se aproximar do zero, bem como um alívio nas finanças públicas em meio aos movimentos de desoneração dos combustíveis.

Junto com a inflação doméstica mais alta do que o esperado, o salto das commodities indica que a arrecadação do governo seguirá elevada. Nas previsões tanto do Bradesco quanto do Itaú Unibanco, o déficit das contas públicas - incluindo União, Estados, municípios e estatais, exceção a Petrobras e Eletrobras - deve terminar o ano em 0,3% como proporção do Produto Interno Bruto (PIB).

Na revisão de cenário do Bradesco, a previsão ao déficit nas transações correntes com o exterior - aquelas que, além do comércio de produtos, incluem contratações de serviços e remessas de lucro - foi reduzida de 0,9% para 0,3% do PIB.

Economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato Barbosa diz que os prognósticos do banco têm como base as cotações atuais das commodities porque, mesmo que a guerra tenha um desejado fim rápido, as matérias-primas não devem retornar tão rápido aos preços de antes. "Os efeitos [sobre os preços] tendem a ser duradouros", comenta o economista.

"Mesmo que a guerra acabe amanhã, é improvável que as relações do Ocidente com a Rússia voltem ao patamar de confiança de antes. Não será também trivial a Ucrânia retomar a produção de trigo em duas semanas. Fora isso, a produtividade no campo deve ser prejudicada pelo aperto na oferta de fertilizantes", acrescenta Honorato.

De acordo com Rafaela Vitória, economista-chefe do banco Inter, as exportações devem responder por cerca de 16% do PIB em 2022. O banco considera rever de US$ 65 bilhões para US$ 75 bilhões a previsão de superávit comercial deste ano. Em paralelo à valorização das commodities, as importações devem ser limitadas pela produção industrial mais fraca e a redução nas compras externas de gás natural, fonte das usinas térmicas de energia, por conta da recuperação dos níveis nos reservatórios das hidrelétricas.

"A elevação das commodities tende a ser positiva para a economia, apesar da alta na inflação, que, em parte, deve ser amenizada pela valorização do câmbio", avalia Rafaela.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.