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Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

Alta da Selic era esperada pelos analistas

Assim como esperava a maioria dos analistas, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu elevar a taxa básica de juros (Selic) de 16,25% para 16,75% ao ano, sem adoção de viés, ou seja, até a próxima reunião do Comitê, em 19 e 20 de junho, a taxa ficará nesse patamar.Segundo comunicado do Comitê, "a persistência das pressões já existentes sobre a taxa de inflação e os prováveis efeitos secundários da crise de energia" foram os motivos para a decisão. A ata da reunião deve ser divulgada na quinta-feira da próxima semana.Os analistas concordam que a pressão de alta sobre os índices de inflação é muito preocupante, principalmente porque as cotações do dólar mantêm-se em patamares muito elevados. "O dólar em alta provoca uma alta no preços de produtos e insumos importados, além dos produtos exportáveis no mercado interno", explica Hugo Penteado, economista-chefe do ABN Amro Bank.No dia 18 de abril, quando o Copom passou a taxa Selic de 15,75% para 16,25% ao ano, o dólar oficial fechou cotado a R$ 2,1750. De lá para cá, a moeda norte-americana continuou em alta, devido às incertezas em relação à Argentina e, mais recentemente, ao problema do racionamento de energia no Brasil. Hoje, a cotação do dólar oficial foi de R$ 2,3417.O estrategista do Deutsche Bank, José Cunha, acredita que o Comitê deveria ter sido mais agressivo na alta da taxa de juros. "O problema da falta de energia no Brasil impede que o governo tenha uma visão mais clara do que pode acontecer com a inflação e o cumprimento da meta de inflação é muito importante para o Brasil, avalia. Já o sócio-gerente da BankBoston Asset Management, Márcio Verri, acredita que a alta de 0,5 ponto porcentual foi correta. "O governo deve manter o objetivo de controlar a inflação, cumprindo a meta estabelecida. Porém, o crescimento econômico não pode ser desprezado, principalmente porque o racionamento de energia é uma fator desfavorável nesse momento", explica.Crise de energia: impacto direto na inflaçãoApesar de já constar em várias análises realizadas por bancos e consultorias, o problema de falta de energia no Brasil só começou a ser levado em conta pelo governo federal agora. De acordo com Penteado, nos últimos relatórios do governo, havia uma sinalização de que a demanda e a oferta de energia estavam equilibradas.Mas, com o problema do racionamento, o governo admitiu que a oferta de energia cairá, o que pode provocar uma pressão de alta ainda maior sobre os índices de inflação. "O custo de produção das empresas tende a aumentar, influenciando o preço dos produtos. Esse é o primeiro choque da falta de energia. Em uma segunda fase, pode haver uma redução no consumo, devido ao desaquecimento econômico", afirma Penteado.Apesar de reconhecer que dimensionar o problema em números é muito difícil, devido às inúmeras variáveis, o economista-chefe do ABN Amro reduziu sua perspectiva para o PIB desse ano de 3,7% para 1,0% a 1,5% e projetou uma queda na arrecadação federal de impostos em torno de R$ 12,5 bilhões nos seis meses de racionamento. "Considerando que a arrecadação mensal da União fica em torno de R$ 15 bilhões, é praticamente um mês de recolhimento perdido", analista o economista. Meta de inflação corre o risco de não ser cumpridaCunha aponta perspectivas muito pessimistas para a inflação. Segundo ele, a trajetória de inflação deve continuar indicando uma alta, mas não é possível prever até quanto possa chegar. "Já foi aprovado um aumento das passagens de ônibus em São Paulo. Os combustíveis, assim como as tarifas de água e esgoto, também devem aumentar nos próximos meses. São reajustes que não aconteceram em 2000, quando a meta de inflação era mais folgada, de 6% com variação para cima ou para baixo de dois pontos porcentuais", afirma.Nesse ano, a meta estabelecida pelo governo é de 4% com possibilidade de alta ou baixa de dois pontos porcentuais. Até abril, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) - usado como referência para a meta de inflação - acumula uma alta de 2,00 e, segundo a análise de Cunha, pode chegar a 7%, o que ultrapassa a meta em um ponto porcentual.O estrategista lembra que, segundo o acordo estabelecido entre o Brasil e o Fundo Monetário Internacional (FMI), no acumulado dos últimos 12 meses, até o mês de setembro, a inflação não pode superar o patamar de 6,10%. Para se ter uma idéia de como a meta é ambiciosa, o IPCA acumula nos últimos 12 meses, até abril, uma alta de 6,61%.Caso o Brasil não cumpra esse patamar, segundo Cunha, o Fundo pode pedir a prorrogação do acordo por mais um ano, o que obrigaria o País a cumprir novas metas fiscais. O resultado seria uma provável diminuição de recursos destinados à geração de energia - outra ponta do problema econômico brasileiro hoje.Penteado tem uma visão menos catastrófica. "O governo brasileiro pode pedir uma revisão do acordo. Além disso, as metas de inflação não são consideradas critério de performance, ou seja, o País não é obrigado a cumpri-las, o que abre a possibilidade de renegociação, caso não sejam cumpridas", explica.Dólar não deve ceder no curto prazoOs analistas concordam que a cotação da moeda norte-americana deve permanecer em patamares elevados, o que dificulta o recuo dos índices de inflação. Pedro Ammar Forato, gerente do BNL Asset Management, lembra que há pouco tempo uma cotação do dólar acima de R$ 2,10 era considerada um absurdo. "Hoje, ninguém mais acredita que a moeda norte-americana possa ficar abaixo de R$ 2,30", explica.Penteado afirma que o problema de falta de energia é crucial para o cenário do mercado de câmbio. Isso porque, com o desaquecimento econômico previsto para o País, o volume de recursos estrangeiros deve diminuir, reduzindo a oferta de dólares no mercado interno. Os resultados desfavoráveis da balança comercial, ou seja, importações maiores que exportações, não contribuem para um alívio sobre a pressão de alta sobre o dólar. E esse quadro deve se agravar com uma redução da produção, que diminuirá as exportações e pode até elevar as importações. Além disso, o cenário na Argentina também pode provocar instabilidade no mercado de câmbio, pois, em momentos de incerteza, os investidores tendem a aumentar o volume de dólares em carteira como forma de proteção (hedge).

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