Alta da Selic não surpreende analistas

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de elevar a Selic, a taxa básica referencial de juros da economia, em 0,5 ponto porcentual não surpreendeu os analistas. Com a alta, a taxa que estava em 15,75% ao ano subiu para 16,25% ao ano. O Comitê também decidiu não colocar um viés, ou seja, até a próxima reunião, em 22 e 23 de maio, a Selic não sofrerá alteração. A ata da reunião deve sair no dia 26 de abril. Em nota divulgada ao final da reunião, o Comitê justificou sua decisão: "de forma a consolidar o movimento iniciado na reunião de março e realinhar a inflação com a trajetória das metas estabelecidas, o Copom decidiu fixar a Selic em 16,25% ao ano, sem viés". A preocupação do Comitê com o impacto da alta do dólar sobre os índices de inflação já se verificava na última reunião mensal do Copom, em 21 de março, quando foi anunciada uma alta da Selic de 0,5 ponto porcentual - de 15,25% para 15,75% ao ano. A alta persistente do dólar tende a pressionar o preço de produtos importados e também produtos brasileiros exportáveis, o que influencia os índices de inflação. No acumulado do ano, até hoje, a valorização do dólar em relação ao real está acumulada em 11,23%. Já a inflação está acima do previsto para o primeiro trimestre desse ano, segundo os analistas. Nos três primeiros meses do ano, o Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), está em 1,42%. Esse Índice é usado como base para a meta anual de inflação, de 4%, admitindo-se alta ou baixa de dois pontos porcentuais em relação a esse patamar. De acordo com José Júlio Senna, ex-diretor de política monetária do Banco Central (BC) e sócio-diretor da MCM Consultores, tecnicamente o BC não teria motivos para elevar os juros hoje, pois, no mercado futuro, as taxas estão muito elevadas. "Os investidores já está negociando com juros futuros altos, o que provoca uma redução da atividade econômica e da demanda por crédito. Dessa forma, as condições para um recuo da inflação já estariam dadas", explica. No dia 20 de março, um dia antes da última decisão do Copom, os contratos de juros de DI a termo - que indicam a taxa prefixada para títulos com período de um ano - fecharam o dia pagando juros de 17,600% ao ano. De lá para cá, as taxas de juros no mercado futuro subiram muito e chegaram ao patamar máximo de 21,40% na segunda-feira. Hoje, no fechamento dos negócios, a taxa ficou em 21,100% ao ano. Decisão vale mais como sinalização para o mercadoPorém, segundo o ex-diretor do BC, a decisão do Copom deve ser avaliada apenas como uma confirmação da autoridade monetária, ou seja, um apoio do Banco Central à tendência de alta de juros no mercado futuro, que pode inibir a alta do dólar e conter a inflação. "A política de juros é a única ferramenta viável que o BC tem hoje para tentar segurar a alta do dólar, já que a intervenção direta da instituição no mercado, seja pela venda direta de dólares ou de títulos cambiais não são boas alternativas. No caso dos títulos cambiais, isso pode elevar a dívida do País, pois o dólar ainda pode subir mais, o que aumento o risco do Brasil na visão dos investidores", avalia Senna.Queda dos juros nos EUA é positivaA decisão do Fed - Banco Central dos Estados Unidos - de reduzir a taxa de juros norte-americana em 0,5 ponto porcentual - de 5,0% para 4,5% ao ano -, anunciada hoje, é um fator novo no cenário que também pode provocar um recuo das cotações do dólar."A queda nos EUA, aliada à alta das taxas no Brasil, pode provocar uma entrada maior de recursos estrangeiros no mercado financeiro brasileiro, já que a diferença entre as duas taxas será maior, ampliando o ganho do investidor que preferir direcionar recursos para o Brasil. Nesse caso, a tendência é de recuo das cotações do dólar", diz Odair Abate, economista-chefe do Lloyds TSB.Reação do mercado é decisivaA opinião de Senna é que mais importante do que a decisão do Copom será a reação dos investidores. Segundo ele, se os juros futuros continuarem elevados, a atividade econômica e a demanda tendem a recuar e isso contribui também para o controle dos índices de inflação. Por outro lado, esse controle inflacionário pode ser ameaçado pela continuidade da alta do dólar, que vem sendo provocada em grande parte pela instabilidade externa, devido à situação argentina, e à crise política interna.Amanhã, os mercados podem reagir à decisão do Comitê, mas o efeito deverá ser apenas pontual. Segundo Júlio Ziegelmann, diretor de renda variável da BankBoston Asset Management, atualmente o cenário argentino é o que mais pesa na tendência para o dólar e para os juros no mercado futuro. "Com uma melhora no país vizinho, as taxas de juros no mercado futuro tendem a cair. Nesse mesmo cenário, o dólar recua", avalia Ziegelmann. Porém, não há nenhuma certeza de que isso aconteça, já que a situação na Argentina ainda é muito nebulosa, dificultando qualquer previsão.

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