Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Alta das carnes pesa mais sobre os mais pobres em novembro; quadro deve se manter

Inflação das famílias de baixa renda subiu 0,54% em novembro, segundo o Ipea; para a renda mais elevada, o custo de vida aumentou 0,43%

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2019 | 14h39

RIO - A inflação das carnes pesou mais sobre os mais pobres em novembro e, só não foi pior, porque a alta desses preços foi compensada pelo barateamento de outros itens da alimentação, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O Indicador Ipea de Inflação por faixa de renda, divulgado nesta terça-feira, 10, mostra que as famílias com renda mais baixa tiveram inflação de 0,54% em novembro. No mesmo período, o custo de vida aumentou 0,43% para as famílias de renda mais elevada.

Segundo Maria Andreia Parente Lameiras, pesquisadora do Ipea, o orçamento das famílias mais pobres deverá seguir pressionada pela inflação nos próximos meses. Isso porque a alta nos preços das carnes, puxada pelo aumento das exportações da produção brasileira para a China, deverá continuar - os chineses estão importando mais porque seus rebanhos foram atingidos pela peste suína africana. Ao mesmo tempo, os meses do verão são sazonalmente marcados pela elevação dos preços dos alimentos in natura.

“Devemos ter um período de pressão nos preços”, afirmou Maria Andreia, ponderando que, como a inflação corrente está baixa, o movimento não deverá se espalhar pelos preços como um todo. “Como estamos partindo de um ponto de inflação baixa, dá para os preços acelerarem sem atingir um patamar desagradável.”

Mesmo que a inflação não suba tanto a ponto de se tornar desagradável, o movimento será sentido de forma mais contundente pelos mais pobres, como já ocorreu em novembro. Isso porque os gastos com alimentação pesam mais na cesta de consumo das famílias de menor renda.

“Como os pobres consomem menos coisas, cada item tem um peso maior (na cesta de consumo). E os alimentos são sempre prioridade. Por isso, eles pesam mais para os mais pobres”, explicou a pesquisadora.

Isso não quer dizer que os ricos não gastem com alimentos, mas os gastos com esse item acabam diluídos num orçamento que inclui mais itens, como mensalidades escolares, plano de saúde, lazer, entre outros.

Em novembro, os preços dos alimentos e da moradia ditaram o tom da inflação mais elevadas para os mais pobres. “A alta de 8,1% das carnes em novembro contribuiu com 0,28 ponto porcentual para a inflação das classes mais baixas”, diz um trecho da nota divulgada pelo Ipea.

O impacto da inflação dos alimentos só não foi maior para os mais pobres porque outros produtos da cesta básica ficaram mais baratos. Em novembro, houve queda média de 12,2% nos preços dos tubérculos. As frutas ficaram, também em média, 0,5% mais baratas, enquanto o subgrupo “hortaliças e legumes” registrou queda de 2,2%. O conjunto “leite e derivados” recuou 0,9%.

O problema, alertou a pesquisadora do Ipea, é que a maioria desses itens tendem a encarecer entre dezembro e os primeiros meses de 2020, por causa da sazonalidade do verão.

Os itens que mais pesam na inflação dos mais pobres, além da alimentação, são outros gastos básicos, como conta de luz, aluguel e botijão de gás. Em novembro, a energia elétrica ficou mais cara. O reajuste de 2,2% das tarifas de energia elétrica repercutiu a mudança da bandeira tarifária (cobrança adicional na conta de luz quando as usinas térmicas são acionadas) de verde para amarela. Para os próximos meses, segundo Maria Andreia, não são esperadas bandeiras mais caras na conta de luz, mas a alta do dólar poderá levar a reajustes no gás.

O indicador do Ipea desagrega por faixa de renda os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e usado pelo governo nas metas perseguidas pelo Banco Central (BC). Na classificação do indicador do Ipea, a faixa mais baixa tem renda familiar de até R$ 1.638,70 por mês, enquanto a faixa de renda mais elevada tem renda mensal familiar acima de R$ 16.391,58.

A taxa de inflação das famílias de renda mais baixa acumulada em 12 meses até novembro de 2019 ficou em 3,40%, ainda mais elevada que a da faixa de consumidores mais ricos, de 3,26% no período. O IPCA acumulado em 12 meses até novembro de 2019 foi de 3,27%. Em novembro, o IPCA subiu 0,51%.

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