''Alta de 0,5 ponto não é muito pesada''

Para analista da MCM Consultores, demanda forte faz economia operar acima da capacidade, o que causa inflação

Renée Pereira, O Estadao de S.Paulo

17 de abril de 2008 | 00h00

Ex-diretor do Banco Central (BC) e economista da MCM Consultores, José Júlio Senna acredita que a alta do juro foi correta diante das pressões na economia. Ele pondera, entretanto, que o combate à inflação deveria ser uma tarefa de todos, inclusive do governo federal, que deveria reduzir os gastos públicos.A alta de 0,5 ponto na Selic não foi muito pesada?Acho que não. Alta de 0,25 ponto era uma opção boa para iniciar o ciclo. Mas 0,5 ponto também está correto. A situação do Brasil é de pressão significativa sobre os recursos da economia, que opera entre 1,5% e 2% acima do se imagina ser o nível do produto potencial. O grau de capacidade da indústria, próximo dos níveis históricos, também indica pressão dos recursos (mão-de-obra, capital). A demanda interna tem crescido em ritmo chinês, muito superior ao PIB potencial. Para completar, as surpresas no campo da inflação desde novembro do ano passado têm sido desfavoráveis. Trata-se de medida preventiva?A decisão é uma reação para tentar impedir a deterioração adicional das expectativas. Mas não tenho mais tanta certeza de que esse movimento possa ser considerado tão preventivo assim. Isso porque a inflação corrente já está em 4,7% (a meta de inflação é de 4,5%) e a expectativa já é de 4,7%. Tudo isso num contexto de uma alta continuada. Dois fatores que contribuem para evitar que a inflação piore ainda mais são o dólar e o bom comportamento dos bens administrados.Essa alta dos juros vai conter a demanda?Um aumento de 0,50 ponto não é suficiente para produzir efeito significativo na demanda. Essa alta deve ser vista como o início de um ciclo de aperto monetário. Vejo elevação de até dois pontos neste ano. Toda essa celeuma em torno dos juros poderia ser evitada se o combate à inflação não fosse tarefa só do BC. O sr. está se referindo aos gastos públicos? A taxa de crescimento do gasto público federal está assustadora, da ordem de 15% ao ano. Isso contribui para pôr mais lenha na fogueira. Se o governo contivesse seus gastos e, principalmente, conseguisse reduzir a carga tributária, daria uma contribuição extraordinária. Contribuiria para dar mais estímulo à capacidade produtiva do País. A economia interna teve uma melhora significativa nos últimos anos. Mas isso é universal. Estamos até mesmo aquém de outros países emergentes. E isso nos faz perceber que a oferta produtiva do Brasil roda com o freio de mão puxado. Sofre de deficiências enormes, como infra-estrutura ruim, carga tributária elevada e falta de mão-de-obra. O vento externo tem estado tão bom que não tem discriminado nem mesmo quem tem adotado políticas econômicas equivocadas.

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