DIVULGAÇÃO/ARQUIVO PESSOAL - 13/12/2019
Roberto Padovani, economista-chefe do BV, antigo Banco Votorantim DIVULGAÇÃO/ARQUIVO PESSOAL - 13/12/2019

Alta de juros nos EUA é risco para a recuperação e os mercados, diz economista-chefe do BV

Para Roberto Padovani, a mudança de política monetária nos EUA, a crise hídrica e as eleições em 2022 são os principais obstáculos para o desempenho do mercado financeiro e para a retomada econômica

Filipe Serrano, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2021 | 10h00

Depois de um segundo trimestre marcado pelo avanço da vacinação e uma recuperação gradual da economia, o mercado financeiro começa a dar mais atenção aos riscos que podem atrapalhar o desempenho da atividade econômica no restante do ano e no ano que vem. 

Na avaliação de Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV (antigo Banco Votorantim), uma provável mudança na política monetária nos Estados Unidos - com um aperto na taxa básica de juros -, bem como a crise hídrica e as eleições presidenciais de 2022 no Brasil são os três principais obstáculos na retomada. 

A preocupação é com um impacto negativo que esses movimentos podem ter nos preços das ações, de títulos e também no câmbio, e seus possíveis desdobramentos para a economia em 2022. 

O principal risco, segundo Padovani, é uma possível mudança na política de juros do Federal Reserve, o banco central americano. 

Ontem, o resultado da inflação nos EUA surpreendeu o mercado com uma alta de 0,9% em junho. Em 12 meses, o índice de preços ao consumidor acumula alta de 5,4%, bem acima da meta do Fed, de 2%. A alta nos preços tem relação com a recuperação econômica acelerada no país e o rearranjo de setores que estavam com a demanda reprimida por causa da pandemia.

Na avaliação de Padovani, é possível que a autarquia decida reduzir as políticas de estímulo monetário antes do previsto, elevando os juros gradualmente, o que traz impacto para os mercados financeiros e para o retorno dos títulos públicos e privados. 

A preocupação com a elevação dos juros já tem dado o tom dos mercados internacionais desde o fim de junho e tende a se manter nos próximos meses. "A agenda, coincidentemente com a virada do semestre, está mudando. E quando muda, infelizmente, ele revela riscos. Então esta é a nossa preocupação hoje", diz Padovani. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Como enxerga o estado da economia brasileira neste início de segundo semestre?

Passamos por dois momentos muito particulares no País. Tivemos um primeiro trimestre com projeções muito ruins. Foi aquele pesadelo. E depois a gente passou um segundo trimestre muito bom. Tem sido uma montanha-russa. Mas diria que hoje a cara da economia já está mais ou menos conhecida. A leitura da economia está dada para o ano. O que a gente está fazendo agora é olhar para os desafios nos próximos seis meses. Do ponto de vista macroeconômico, o cenário está desenhado. Mas do ponto de vista de preços de ativos financeiros, pode ter muita volatilidade. A gente está apreensivo com o que pode vir.

Em que sentido?

A gente começa a olhar os riscos que afetam o câmbio, que podem afetar o mercado de juros, que afetam a Bolsa e afetam o cenário econômico para 2022. A agenda, coincidentemente com a virada do semestre, está mudando. E quando muda, infelizmente, ele revela riscos. Então esta é a nossa preocupação hoje. 

Quais riscos são esses?

Tirando a questão da própria dinâmica da pandemia e as novas variantes, que são imprevisíveis, tem três riscos bem definidos. O primeiro é a crise hídrica. Nos últimos dias a gente tem ouvido de institutos de meteorologia que o La Niña pode continuar. Então o nosso período chuvoso talvez não seja tão chuvoso assim. Se isso se confirmar, a crise entraria no ano que vem. Em setembro e outubro, a gente vai ter informações um pouco mais sólidas sobre o La Niña. Mas nos próximos meses -- agosto, setembro, outubro --, o sistema vai estar operando no limite. O tema pode entrar na agenda popular. E, obviamente, se estamos falando de opinião pública, estamos falando de governos, e aí tem impactos políticos. A gente tem que monitorar, pelos impactos na inflação e na opinião pública. 

E o segundo risco?

O segundo risco, que é fundamental, são as decisões do Fed, o Banco Central americano. E aí tem dois problemas sobrepostos. O primeiro é que pode haver uma correção de preço. As treasuries (títulos do Tesouro americano) de 10 anos têm operado com um juros abaixo do que o Fed diz considerar justo, que seria algo próximo de 1,80% ao ano. Essas diferenças de repente se corrigem. O outro problema é que não faz sentido manter juro real negativo com a economia americana crescendo 7% em 2021, segundo a projeção do Fed. E todos os diretores do Fed estão dizendo que os EUA vão atingir o pleno emprego no fim deste ano ou começo do ano que vem. A inflação está acima da meta neste ano e no próximo. Não há razão para manter os estímulos (monetários). Uma parte importante dos diretores do Fed diz que se deveria subir os juros já no ano que vem. Se o Fed decidir alterar a estratégia de gestão de liquidez, pelo cronograma deveria comunicar antes. A gente está falando de setembro ou outubro. Inevitavelmente, o Fed vai começar a falar que algum momento vai começar a fazer o famoso 'tapering' (o processo de retirada de estímulos). A pressão de juros é muito clara e isso traz impactos em preços de commodities, em dólar global, em risco dos emergentes. Para mim, isso, de longe, é o maior problema que a gente vai ter até o final deste ano. 

Como o Brasil pode ser impactado por um aumento da taxa de juros nos EUA?

O canal mais rápido de impacto é o canal financeiro. Em 2013, a saída do Fed dos programas de injeção de liquidez causou um impacto na Bolsa, em juros e câmbio. Os preços de commodities na época não sentiram muito. Ficaram meio de lado, e em 2014, caíram. O Fed e seus diretores têm chamado a atenção o tempo todo que estão atentos à experiência de 2013, dizendo que não vão repeti-la. Mas acho que os mercados estão muito esticados. E um deles está muito fora do lugar que são as treasuries de 10 anos. Pode haver uma reprecificação de ativos. E não vai ter como. Câmbio, juros e bolsa vão sentir. 

Há ainda um terceiro risco?

Sim, tem um terceiro risco já definido, mas que não está na agenda do mercado hoje, que é a eleição de 2022. O que temos visto é que será uma eleição competitiva e vai ser uma eleição acompanhada de um debate sobre a agenda econômica; sobre que tipo de políticas teremos no próximo governo, desde regras fiscais, estratégia para programas sociais, ou reformas. E o País está endividado. 

Como esses riscos afetam a economia?

O ponto é que esses movimentos no mercado financeiro acabam se comunicando com a economia real. A economia fica menos previsível. Os investidores, os consumidores, empresários, banqueiros, todos os agentes ficam mais cautelosos. E é natural que a turbulência financeira se transmita para a economia. É o que a gente tem olhado para o impacto principalmente no ano que vem. Hoje a China está crescendo 9%. Os EUA, 7%. A  vacinação está avançando. A nossa sensação é de euforia. Mas em algum momento vai haver uma acomodação. A China volta a crescer num ritmo mais natural. EUA e Europa também. Vários países já estão reduzindo os estímulos. Hoje tem juro real negativo nos EUA. Em algum momento, começará a se corrigir isso, diminuindo o impulso fiscal. A economia mundial perde um pouco de fôlego. E a economia brasileira é sensível a esses movimentos. 

Nesse sentido, a situação do Brasil é frágil?

Sim. O Brasil tem dois motores da economia. Um é o cenário externo. E o segundo motor são os juros reais. Ainda que subam, estão nos menores patamares dos últimos 20 anos. O problema é que o mercado de trabalho está fraco. Há uma combinação de desemprego com inflação, o que mata a renda (das famílias). Assim, os dois motores perdem fôlego, o juro real e o impulso externo. É natural que eles empurrem menos a economia. 

O desempenho da economia no primeiro trimestre surpreendeu. É possível esperar uma nova surpresa?

Saímos bem da crise. Agora, acho que vamos ter volatilidade daqui para frente. É um cenário positivo, mas acompanhado de volatilidade. Em nenhum momento a gente enxerga problemas mais sérios, de ruptura ou uma crise mais aguda. É parte de um processo de transição pós-pandemia. O crescimento se acelerou e, agora, se acomoda, acompanhado de volatilidade. A nossa preocupação é menos com a economia diretamente, mas com a estabilidade nos mercados financeiros. 

Com uma taxa de desemprego alta, estamos fadados a voltar a ter crescimento baixo da economia?

Desde o impeachment, a economia brasileira vem saindo de uma crise muito grande. É uma transição lenta. E a pandemia atrasou a transição. Mas vejo a economia brasileira numa lenta transição, saindo de uma crise profunda e tentando caminhar para uma situação de normalidade. Se olharmos hoje, 2017, 2018, 2019 foram todos anos em que a economia foi retomando aos poucos, mas sempre com muita turbulência, muita instabilidade. Esse é um pouco esse o padrão da recessão. A gente continua deixando o pior momento para trás, mas sempre acompanhado de muita instabilidade. 

 

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Inflação surpreende nos EUA e reforça a aposta em alta de juros

O índice de preços ao consumidor já acumula alta de 5,4% em 12 meses, maior nível desde 2008; carros usados, passagens aéreas e diárias de hotéis tiveram forte aumento em junho no país

Iander Porcella, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2021 | 19h15

A previsão era de que a alta dos preços desse uma trégua nos Estados Unidos em junho. Em vez disso, a inflação continuou a surpreender e subiu a 5,4% em 12 meses, maior nível desde agosto de 2008. Analistas dizem que o Federal Reserve (Fed), o Banco Central americano, deve manter o discurso de que a pressão inflacionária é transitória, mas avaliam que ficou mais difícil para a autarquia sustentar esse argumento. No mercado, as apostas em elevação da taxa básica de juros no próximo ano já são majoritárias.

Os fatores que impulsionaram o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) dos EUA em junho foram os mesmos de abril e maio. As passagens aéreas e as diárias em hotéis, por exemplo, ficaram mais caras. O aumento da demanda por esses serviços está relacionado à reabertura da economia, que ganhou força com o avanço da campanha de vacinação contra a covid-19.

Mas o fator central do salto da inflação em junho foi uma alta mensal de 10,5% nos preços dos carros usados. A escassez de chips semicondutores utilizados pelas montadoras tem dificultado a fabricação de veículos novos, que ficaram mais caros. Com isso, aumentou a demanda pelos usados, que agora são um dos principais focos inflacionários.

Além desses gargalos nas cadeias globais de produção, que causam pressões de preço, há também o efeito de base comparativa, já que o CPI despencou em igual período de 2020 devido à quarentena imposta no país para conter a pandemia.

Esses fatores combinados levaram a uma alta mensal de 0,9% do índice em junho, puxada também pelos preços dos alimentos e da gasolina. A mediana das estimativas dos analistas consultados pelo Projeções Broadcast indicava que a inflação iria desacelerar de 0,6% em maio para 0,5% no mês passado. Na comparação anual, a estimativa era de que o CPI se mantivesse em 5%. Em vez disso, acelerou a 5,4%.

Também com avanço além do esperado, o núcleo da inflação, que exclui itens voláteis como energia e alimentos, subiu 0,9% em junho. Em 12 meses, o índice chegou a 4,5%, contra previsão de que acelerasse a 4,0%.

"Outra surpresa para cima na inflação sugere impactos mais generalizados dos problemas da cadeia de abastecimento e levanta mais questões sobre a rapidez com que esses fatores desaparecerão em meio à forte demanda", diz a economista Katherine Judge, do Canadian Imperial Bank of Commerce (CIBC).

Para o economista sênior Andrew Hunter, da Capital Economics, o mais "preocupante" é que as pressões inflacionárias têm se espalhado para mais setores. Analistas chamam a atenção para o aumento nos preços dos aluguéis, que pode se tornar mais duradouro.

A consultoria britânica ressalta que os efeitos temporários, como os da reabertura econômica, vão desaparecer eventualmente, mas pondera que os aumentos de salário no país, que têm potencial para elevar o consumo, podem impedir uma queda maior do núcleo da inflação. Em discurso hoje, o presidente do Fed de Richmond, Thomas Barkin, reconheceu que a pressão salarial faz parte da equação da alta de preços.

"Embora compartilhemos da visão do Fed de que este não é o início de uma espiral inflacionária ascendente, esperamos que a inflação permaneça persistentemente acima de 2% até 2022", afirmam analistas da consultoria Oxford Economics.

Na visão do economista-chefe internacional do ING, James Knightley, dada a força do aumento de preços nos últimos três meses, ficou mais difícil para o banco central americano manter o discurso de inflação "meramente transitória".

"Nessas circunstâncias, a redução da compra de títulos pelo Fed está se aproximando", sugere o economista sênior Christoph Balz, do Commerzbank, em análise similar.

Nos contratos futuros dos Fed funds monitorados pelo CME Group, a aposta majoritária é de ao menos uma elevação da taxa básica de juros em 2022. Logo após a reunião de junho do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), o Broadcast já havia mostrado que boa parte dos analistas passou a prever início do ciclo de alta nos juros no final do próximo ano.

Economistas do Wells Fargo e do TD Securities ponderam que os dados ainda apoiam a visão do Fed de que o nível atual de inflação é transitório, mas dizem que o debate em torno do assunto deve continuar. Há divergências entre os próprios dirigentes, como mostrou o Broadcast no mês passado.

Hoje, em entrevista após a divulgação do CPI de junho, a presidente do Fed de São Francisco, Mary Daly, disse que o BC dos EUA estará em uma "boa posição" para realizar o "tapering", como é chamado o processo de redução gradual das compras de ativos, no final de 2021 ou no início de 2022. Ela, contudo, disse acreditar que a inflação é temporária e avaliou que não é o momento para se tratar de aumento de juros.

A visão de Daly sobre a retirada de estímulos via compra de ativos é apoiada por membros do Fed como Robert Kaplan (Dallas), James Bullard (St. Louis) e Raphael Bostic (Atlanta). Mas outros dirigentes, como John Williams (Nova York) e Neel Kashkari (Minneapolis), fazem coro com o presidente da instituição, Jerome Powell, ao se mostrarem menos favoráveis a iniciar o "tapering". A principal preocupação dessa ala mais dovish é impedir que uma mudança antecipada na política monetária coloque um freio na recuperação do mercado de trabalho.

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