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Alta de juros prevista pelo Fed pode levar a ajuste, ou algo pior, para as criptomoedas

Desde novembro até o início deste mês, o Bitcoin registrou queda de mais de 40% e novos movimentos relevantes são esperados

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2022 | 04h00

A drástica mudança do Fed, se levada à prática, como tudo indica que será, trará como inevitável um ajuste nos preços dos ativos (renda fixa e variável), particularmente naqueles com “valuations” mais esticadas. Duas classes chamam mais a atenção: as empresas de TI e as criptomoedas.

Mencionei em meu último artigo a questão das empresas de tecnologia. Não é casual que, em 2022, a Nasdaq (onde se concentram as empresas de tecnologia) tenha caído mais do que o S&P, que contém todos os setores da economia: 11% ante 6% até o dia 3 deste mês. O tombo do Facebook na semana passada foi épico.

Mas é nas criptomoedas que podemos esperar um ajuste mais relevante, que em parte já aconteceu. De fato, desde o início de novembro até o dia 3 de fevereiro, o Bitcoin caiu mais de 40%.

As criptomoedas têm bases frágeis, nascidas de ideias libertárias que sonham em privatizar a moeda. Além disso, a “mineração” dela implica o consumo de enormes quantidades de energia, num mundo que busca a descarbonização.

A própria validação das transações, decorrentes do uso do “blockchain”, exige o trabalho de milhares de computadores que consomem ainda mais energia em fins não produtivos. 

Mais do que tudo, as criptomoedas viraram o paraíso de transações ilegais de todos os tipos. Segundo relata D. Acemoglu, estima-se que os negócios ilegais representam hoje mais de 40% das transações. Isso fere de morte o que pretende ser uma moeda apta a dar tranquilidade a seus portadores. 

Os emissores privados dessas moedas querem enriquecer tomando parte do poder que as nações têm ao emitir moeda. É uma ingênua ilusão imaginar que os países emissores de moedas mais transacionadas irão permitir.

O Facebook, por exemplo, vendeu seu antigo projeto de criar uma supermoeda digital, com a participação de grandes empresas, a Libra (hoje DIEM). O projeto naufragou espetacularmente pela reticência dos reguladores em dar as autorizações necessárias, o que levou à saída dos grandes sócios, como PayPal e Mastercard. 

Não tenho dúvidas de que as moedas digitais soberanas irão vencer e se sobrepor às moedas privadas. Finalmente, como escreveu Paul Krugman, as criptomoedas têm tudo para ser o novo subprime, só que dessa vez, acrescento eu, com um ativo que se tornou global.

De fato, o número de pequenos investidores que passaram a adquirir criptomoedas tem crescido de forma exponencial. 

Se a elevação dos juros for a que o mercado espera, o ajuste vai ser cruel.

* ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS

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